1. Retomando. 

Vimos, então, que o debate aqui diz respeito a uma pretensa capacidade da mente humana de apreender, inteligir diretamente, as substâncias imateriais, como as ideias abstratas e universais, os anjos e o próprio Deus. A proposta, colocada como hipótese controvertida para provocar o debate, é a de que temos esta capacidade; vimos, no texto anterior, os cinco argumentos iniciais, que tentavam comprovar esta hipótese; vimos também o argumento contrário, que trouxe uma citação bíblica para nos convencer de que não temos esta capacidade. 

Agora é hora de começar a examinar a longa resposta sintetizadora de Tomás.

  1. A resposta sintetizadora de Tomás. 

A resposta sintetizadora de Tomás, neste artigo, é bem longa, e pode ser dividida adequadamente em duas partes. Na primeira, ele expõe a opinião de três pensadores que ele respeita muito: Platão, Aristóteles e Averróis. Na segunda parte, que examinaremos no próximo texto, ele explicará as razões que o impedem de aceitar a posição de Averróis, e o levam a permanecer com Aristóteles.

É preciso lembrar sempre que Platão e Aristóteles não conheceram esta noção cristã de anjo; eles conheceram a ideia de inteligências imateriais, mas com noções um pouco diferentes das nossas. Isto não impede o fato de que seus pensamentos continuem relevantes, tanto para ajudar quanto eventualmente para atrapalhar o raciocínio. De fato, como veremos, Platão tem uma posição dualista, idealista mesmo, que, com matizes, ainda é bastante influente hoje em dia; Tomás tem uma inegável tendência aristotélica, mas ™ um jeito muito interessante de reler Aristóteles a partir da boa fé católica, coisa que muitos estudiosos de sua época (e posteriores) não conseguiram. Vamos voltar à resposta de Tomás.

O pensamento de Platão.

Para Platão, o conhecimento intelectual é, fundamentalmente, o conhecimento das substâncias imateriais. Na verdade, o problema, para ele, seria explicar como é que nós podemos conhecer imaterialmente as coisas materiais. Ele propunha, então, que, antes de nascermos aqui na Terra, nós preexistíamos num certo lugar espiritual, um reino transcendente de ideias, no qual todas as coisas existem como puras formas, como ideias perfeitas daquilo que, aqui na Terra, existe somente como tosca cópia material. Então nós recebemos, segundo Platão, todo o nosso conhecimento intelectual pelo contato direto com as substâncias imateriais no reino das ideias, ou seja, o objeto próprio do nosso intelecto, para ele, é o conhecimento direto das substâncias imateriais. As coisas materiais não são conhecidas intelectualmente, para ele. Elas apenas servem para ser exploradas sensorialmente, para que, com a aquisição dos dados sensoriais, a sua sistematização em imagens na memória, possamos lembrar do conhecimento imaterial que já está armazenado em nós desde antes do nascimento. Assim, quanto mais formos “espirituais”, isto é, desapegados e desligados das coisas deste mundo, mais seremos “intelectuais”, isto é, capazes de ter acesso ao mundo das ideias. Tomás não compartilha deste modo de pensar.

O pensamento de Aristóteles.

Em seguida Tomás cita Aristóteles, de quem, aliás, ele toma os elementos que formarão seu próprio pensamento. Tomás considera Aristóteles, o modo de pensar de Aristóteles, muito mais fidedigno, muito mais adequado ao que nós, em nosso senso comum, somos capazes de perceber.

Aristóteles defende que nós somos seres materiais num mundo material, e, por isso, nosso intelecto é naturalmente proporcionado para conhecer as coisas materiais. Assim, precisamos daquele processo de exploração empírica, de organização dos dados, de formação de imagens mentais (phantasmata) na memória, para inteligir. Assim, para Aristóteles, parece claro que não podemos inteligir as coisas imateriais, as substâncias incorpóreas: elas simplesmente não podem ser exploradas por nossos sentidos, então tampouco podem ser diretamente conhecidas por nosso intelecto. 

O pensamento de Averróis. 

Averróis tem uma posição engraçada, que para nós, hoje (talvez devido à influência do próprio São Tomás) parece estranhíssima. Ele propõe que existe uma espécie de “intelecto comum” a toda a espécie humana, um “intelecto ativo” externo a nossa individualidade, e que é capaz de procurar ativamente o conhecimento imaterial a partir das coisas materiais. Esse “intelecto ativo comum” é como uma única grande mente (algo como uma “grande rede mundial de intelectos”, diríamos hoje) separada de cada um de nossos corpos, ou seja, não é algo individual. Mas é acessível a cada um de nós, e é assim que aprendemos: quando exploramos o mundo, ou quando um professor nos repassa informações, entramos em conexão com esse “intelecto ativo separado” comum e recebemos dele a informação intelectual de que precisamos. Ora, uma vez que esse intelecto ativo humano é imaterial, separado das nossas corporeidades individuais, então ele pode conhecer diretamente as substâncias imateriais que existem por aí; assim, quando conseguimos nos unir a ele, somos capazes de receber diretamente essas informações, de um modo análogo àquele pelo qual, estando unidos aos nossos corpos, somos capazes de receber as informações dos nossos sentidos. Em nossos seres individuais, pensa Averróis, temos os sentidos, a memória e a parte passiva do nosso intelecto, aquela que apenas recebe conhecimentos intelectuais. A parte ativa, o chamado “intelecto agente”, que é capaz de procurar e adquirir o conhecimento intelectual, está fora de nós, e é um só para a humanidade inteira, pensa ele.

Como podemos realizar, então, essa união entre a nossa mente individual e essa “supermente ativa única e imaterial”? Averróis ensina o seguinte:

Quando nós nos expomos às coisas, nós encontramos, nelas, as informações em “estado bruto”, isto é, as coisas são inteligíveis, mas não diretamente inteligíveis como formas abstratas e universais. Assim, cada vez que nós exploramos o mundo, nós contemplamos a inteligibilidade das coisas; mas esse “inteligível contemplado” não se transforma imediatamente em conhecimento intelectual. É necessário que esse “dado bruto inteligível” que contemplamos pessoalmente seja “processado” pelo intelecto agente, que o transforma em conhecimento intelectual e o deposita em nosso intelecto possível (este, sim, é pessoal em nós). É assim, segundo Averróis, que o conhecimento intelectual tem objetividade: ele passa por um processamento no “intelecto agente” externo a nós, e por isso é que o conhecimento resultante, que é o conhecimento intelectual, é o mesmo para mim e para você. Como, para obter lenha, nós precisamos simultaneamente da madeira e do serrote, para obter o conhecimento intelectual nós precisamos de uma atividade pessoal de obtenção dos “inteligíveis contemplados”, que é a matéria do conhecimento, e de uma atividade suprapessoal de processamento dos dados, feita pelo intelecto agente, depositando o conhecimento intelectual resultante em nosso intelecto possível. 

Assim, o intelecto agente está para o “inteligível contemplado” como a forma está para a matéria: é ele que dá objetividade, universalidade, abstração e sentido ao conhecimento bruto que adquirimos, pensa Averróis.  E quanto mais nós exploramos o mundo, quanto mais buscamos os dados brutos de informação, mais exercitamos nossa união com o intelecto agente suprapessoal. É como se ele fosse uma espécie de “aplicativo de processamento” com o qual devêssemos buscar, o máximo possível, ficar online

Assim, é o intelecto agente que completa, segundo Averróis, o nosso processo de conhecimento intelectual. Ele como que se “une” ao dado bruto para entregar ao intelecto possível o conhecimento intelectual pronto, atualizado, completo. Mais ou menos como, na visão, a luz se une ao formato e aspecto das coisas vistas para entregar-nos a visão de determinado ambiente, sem que possamos separar as duas coisas; mas, sem a luz, as coisas não seriam visíveis. Assim, o dado bruto de inteligibilidade obtido por nossos sentidos se une à “luz inteligível” vinda desse “intelecto agente” externo para fornecer à nossa mente passiva, ou “intelecto possível”, a informação devidamente convertida em conhecimento intelectual.

Este processo de união pessoal com o intelecto externo” se repete, diz Averróis, cada vez que examinamos a realidade em busca de conhecimento. Até chegar o ponto em que esta união será tão perfeita que estaremos permanentemente online com o intelecto agente, de tal modo que seremos, então, perfeitamente felizes, porque receberemos do intelecto agente até mesmo o conhecimento dessas substâncias separadas, como os anjos, das quais não podemos nem sequer tomar conhecimento senão por tal união. Assim, somos nós, por nosso intelecto possível, que chegamos a conhecer as substâncias separadas por um dom do intelecto agente, quando chegamos a nos unir perfeitamente a ele.

Tomás ainda registra que, neste ponto,  há a posição divergente de Alexandre de Afrodísia, que acredita que nossa mente individual é destrutível, ou seja, desaparecerá com a morte. Para Alexandre, portanto, tudo o que Averróis ensinou sobre a natureza externa e única do intelecto agente e a sua união conosco é verdade, à exceção do fato de que, quando nos unimos perfeitamente a ele, apenas compartilhamos do conhecimento das substâncias separadas, sem que esse conhecimento chegue jamais a entrar em nosso intelecto possível, que, sendo destrutível, não tem capacidade nem para receber o conhecimento das coisas indestrutíveis. Assim, para Alexandre de Afrodísia, é apenas o intelecto agente, (e nunca nós pessoalmente), que chega a conhecer diretamente as substâncias separadas; em nossa união com ele, podemos ter acesso a essas informações, mas não podemos guardá-las em nossa própria mente, pensa ele. É como se o intelecto possível nunca pudesse fazer o download  das informações sobre as substâncias separadas que se encontram online no intelecto agente suprapessoal.

Mas essas opiniões, tanto a de Averróis quanto a de Alexandre, estão equivocadas, diz Tomás.  

  1. Encerrando.

Curioso como essas posições de Averróis e Alexandre de Afrodísia podem ser comparadas com a internet: é quase como se eles achassem que a mente humana, em sua dimensão ativa, fosse um grande servidor de rede ao qual nossas mentes pessoais tivessem que se ligar para obter o conhecimento.

Mas Tomás não concorda com isso. A inteligência, agente ou passiva, é um atributo individual, defende Tomás. A posição de Averróis não se sustenta.

Veremos as razões pelas quais, para Tomás,  a opinião de Averróis não pode subsistir no próximo texto.