- Introdução.
Já estudamos, nas questões anteriores, o modo pelo qual conhecemos aquilo que é o objeto próprio do nosso intelecto, ou seja, as coisas materiais que nos cercam. As criaturas, constituídas de forma e matéria, são o objeto próprio da nossa experiência de aprendizagem intelectual. Mas não é tudo o que existe: o mundo material é apenas uma pequena parte da realidade.
Quanto às coisas imateriais, temos, é claro, as ideias, que estão sempre nos pensamentos ou na matéria. Mas, em si mesmas, as ideias são imateriais. E inanimadas. Mas no mundo das coisas imateriais, como no nosso mundo material, existem também as coisas vivas, como os anjos. Anjos são, como vimos, puras formas que existem porque pensam em si mesmos, ou seja, existem como mentes personificadas no autoconhecimento. E, é claro, Deus é pura forma, porque é puro ato (embora não se possa dizer exatamente que Deus é “imaterial”; ele transcende as categorias da materialidade e da imaterialidade. Em todo caso, Deus não é material, e isto basta para o que estamos a estudar aqui).
Isto nos coloca diante de um aparente paradoxo, que estudaremos ao longo desta questão: as coisas imateriais, como as ideias abstratas, os anjos e o próprio Deus, são, em si mesmas, muito mais inteligíveis do que as materiais. Mas não para nós. Para nós, o caminho de aprendizagem passa sempre pelos sentidos: precisamos tocar, ver, ouvir, cheirar, saborear, para conhecer. E as coisas imateriais não podem sofrer este tipo de exame. Para nós, portanto, são menos inteligíveis, apesar de serem mais inteligíveis em si mesmas. Para nós, são ponto de chegada, resultado, objetivo lateral e indireto de um processo de conhecimento muito dependente da concretude do objeto.
Este primeiro artigo é o mais longo e o mais fundamental desta questão. Por isto, vamos examiná-lo com muita paciência, mesmo que isto demore um pouco mais.
- A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial é a de que nossa mente seria capaz, mesmo no estado material desta nossa vida presente, de conhecer diretamente as coisas imateriais (o que envolve as ideias em sua realidade inanimada, os anjos e o conhecimento de Deus). Há nada menos do que cinco argumentos objetores iniciais, que tentam comprovar esta hipótese.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor cita Santo Agostinho, que, tratando do conhecimento humano no Livro IX do Tratado sobre a Trindade, afirma que assim como a mente adquire noções sobre as coisas corpóreas servindo-se dos sentidos corporais, do mesmo modo, em relação às realidades incorpóreas, ela as adquire por si mesma. Mas o que são as realidades incorpóreas, senão justamente os seres imateriais de que estamos tratando? Logo, a mente humana é capaz de inteligir diretamente estes seres, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor parte daquele princípio da filosofia clássica de que o semelhante conhece o semelhante, Ora, diz o argumento, nossa mente, como já vimos, tem uma natureza imaterial, porque não está vinculada a nenhum órgão do corpo humano, nem pode ser destruída pela destruição do corpo. Portanto, se ela tem a natureza imaterial, ela é mais semelhante às coisas imateriais do que às materiais. Logo, se somos capazes de conhecer diretamente as coisas materiais, com muito mais razão nossa mente deve ser capaz de conhecer diretamente as coisas imateriais, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Aquelas coisas que se apresentam com suas qualidades sensíveis mais fortes são prejudiciais aos nossos sentidos. Assim, sons muito altos podem nos causar surdez, como luzes muito fortes podem nos cegar. É por isso que muitas vezes nossos sentidos não são capazes de perceber toda a intensidade da informação sensível, porque muitas vezes o próprio órgão do sentido é prejudicado, antes dessa percepção. Se tocarmos em alguma coisa muito quente, nossos dedos podem se queimar antes mesmo de perceber toda a intensidade da temperatura.
Mas com as coisas muito inteligíveis isso não ocorre. Quando lemos um belo trecho da Bíblia, ou quando contemplamos uma belíssima obra de arte, por exemplo, nossa mente não fica prejudicada em suas capacidades; ao contrário, quanto mais inteligível um objeto, mais facilmente ele é assimilado pela mente. Ora, as coisas materiais têm sua inteligibilidade prejudicada pelas condições materiais em que se encontram: examinando, por exemplo, um único coelho, eu não sou capaz de assimilar toda a inteligibilidade, toda a variabilidade, toda a adaptabilidade da espécie inteira; somente pelo exame de muitos exemplares, e abstraindo as condições materiais de tempo e espaço é que chegaremos a essa intelecção. É o esforço do nosso intelecto que faz com que as coisas materiais se tornem inteligíveis. Mas as coisas imateriais já são inteligíveis em si mesmas. Portanto, devem ser muito mais diretamente inteligíveis para nós do que as coisas materiais, conclui o argumento.
O quarto argumento objetor.
O quarto argumento vai buscar um comentário feito por Averróis sobre a obra de Aristóteles. Sabemos que Tomás trata Averróis como “O Comentador”; tem com ele uma relação de admiração e discordância, como é o caso na resposta a este argumento, que veremos posteriormente.
Aqui, o argumento vai buscar em Averróis a colocação de que se as coisas separadas da matéria não pudessem ser diretamente inteligidas por nossa mente, isto seria uma contradição da natureza; na verdade, diz Averróis, seria uma contradição que uma coisa naturalmente inteligível, como é o caso das puras formas sem matéria, não pudesse ser naturalmente inteligida por algum intelecto. E a natureza não se contradiz. Não faz nada que seja inútil ou vão, ou seja, nada que não consiga atingir seus próprios fins. Portanto, as coisas imateriais podem ser diretamente inteligidas por nosso intelecto, conclui o argumento.
O quinto argumento objetor.
O argumento vai resgatar, mais uma vez, a conhecida proporção entre os sentidos e intelecto. De fato, diz o argumento, as coisas sensíveis estão em proporção para os nossos sentidos, de maneira análoga àquela pela qual as coisas inteligíveis estão em proporção ao nosso intelecto.
Ora, sabemos que nossos sentidos são capazes de perceber diretamente todas as coisas materiais, desde as mais simples e inanimadas, até as mais elevadas e distantes, como os corpos celestes.
Portanto, se o intelecto guarda essa analogia com os sentidos, ele deve ser capaz de inteligir diretamente tudo aquilo que é inteligível, desde aquelas coisas mais simples, materiais e corruptíveis, quanto as coisas imateriais mais complexas e dinâmicas, como os anjos. Logo, nosso intelecto pode apreender diretamente as substâncias imateriais, conclui o argumento.
- O argumento sed contra.
Como argumento contrário à hipótese controvertida inicial, um trecho das Escrituras. De fato, no Livro da Sabedoria (9, 16), está dito: “”Mal podemos compreender o que está sobre a terra, dificilmente encontramos o que temos ao alcance da mão. Quem, portanto, pode descobrir o que se passa no céu?”
O que se passa no céu, prossegue o argumento, é o que se passa, por exemplo, com os anjos bem-aventurados, que, segundo Mateus (18, 10), moram no céu, contemplando a face de Deus. Portanto, se a mente humana não consegue conhecer diretamente as coisas do céu, tampouco consegue conhecer diretamente os seres incorpóreos como os anjos, conclui o argumento.
- Encerrando.
No próximo texto, começaremos a ver a resposta sintetizadora de Tomás.
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