1. Retomando.

Como vimos no texto anterior, todos os seres são dotados de algum tipo de inclinação, mesmo os inanimados. Nos seres vivos, essas inclinações vão sendo somadas àquelas próprias da vida, da sensibilidade e, no caso dos seres humanos, da inteligência. Que a vontade seja, portanto, uma inclinação da inteligência, ficou bem estabelecido.

Voltemos, pois, à resposta sintetizadora de Tomás, para, em seguida, examinar, com ele, os argumentos objetores iniciais e, à luz dos princípios estabelecidos na resposta sintetizadora, responder também a eles.

2. Voltando à resposta sintetizadora de Tomás.

Como vimos, nós, seres inteligentes, somos capazes de inclinações puramente intelectuais, como aquela que nos atrai a ler um bom livro.

Cada nível de inclinação, diz Tomás, está na própria coisa que se estrutura naquele respectivo nível. Assim, a chamada “inclinação natural” está nos corpos, mesmo os inanimados – é o caso da força gravitacional. As inclinações vegetativas estão em todos os seres vivos, desde simples plantas até os humanos, pelo simples fato de terem formas vivas. Pode-se dizer que essas inclinações estão na própria vida. Além disso, as inclinações instintivas dos sentidos estão em todos os entes vivos dotados de sensorialidade; estas inclinações sensíveis estão, portanto, no campo dos sentidos.

Assim, a inclinação do intelecto, que é o querer ou vontade, está no intelecto, na mente mesmo, do ser humano. Ela é, portanto, em si mesma, inteligível.

Nosso querer, nossa vontade, é uma inclinação inteligível: nossas ações propriamente humanas são, portanto, lastreadas na nossa inteligência, na nossa capacidade racional. E isso é o que torna o ser humano responsável, capaz de ser imputado quanto às suas ações, e faz com que essas ações sejam boas ou más. Isto também permite que a gestão da coisa pública possa ser democrática, porque significa que podemos conversar e defender racionalmente o bem e o mal, não somente no plano individual, mas também quanto ao bem comum. Eis a importância de afirmar a razoabilidade, a inteligibilidade da vontade humana. É por isso, diz Tomás, que o próprio Aristóteles nos lembra, no Livro III do tratado sobre a alma, que a vontade, o centro do nosso querer, está em nosso intelecto mesmo, não é uma estrutura à parte. Ora, aquilo que está no intelecto, e está ali inteligivelmente, seja conhecido pelo ser humano.

Assim, o nosso ato da vontade pode ser conhecido pelo nosso intelecto, porque é (ou deveria ser) algo razoável. Ele pode ser conhecido não somente em sua natureza de ato de escolha, de inclinação, como também as razões, os hábitos e as potências que deram causa a essa inclinação da vontade. É claro que isto não significa que todos os seres humanos sejam, de fato, capazes de conhecer integralmente todos os seus atos de vontade, todas as suas motivações, todos os seus hábitos e potências. Como vimos nos textos anteriores desta questão, o processo de autoconhecimento é árduo, trabalho de uma vida. Sabemos que não somos integralmente virtuosos, e muitas vezes não somos integralmente movidos por razões, não somos plenos de reflexão. Mas não há nada no próprio ato de vontade que não seja capaz de ser conhecido, ainda que muitas vezes não o seja. Este é o caminho do discernimento, ao qual, inclusive, o Papa Francisco dedicou uma série de catequeses de quarta-feira recentemente. Inteligir nossos atos de vontade não é simples. É uma tarefa, na qual a humildade e o perdão andam de mãos dadas. E para o qual não é irrelevante a ajuda da psicologia e até da psiquiatria, em alguns casos. Estas ciências são, também, dons que não podemos desprezar.

3. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor, como nos lembramos, é aquele que diz que o intelecto só pode conhecer aquilo que está presente a ele. Mas a vontade é uma potência diferente do intelecto, em nós; logo, o querer não está presente ao intelecto, e ele não o pode conhecer, diz o argumento.

A resposta de Tomás.

A vontade é, sem dúvida, algo distinto do mero conhecimento. Mas não é uma potência diferente; se o fosse, de fato o querer não estaria no intelecto, e a reflexão sobre a vontade, como uma atividade em primeira pessoa, não seria possível. Nossas racionalizações sobre a vontade seriam externas e posteriores, meras justificações daquilo que, no fundo, seria fundamentalmente irracional. Já houve muitos filósofos e psicólogos que defenderam justamente isto; são as correntes voluntaristas. Mas as coisas não são assim: distinção não é diferença, diz Tomás. A nossa vontade é a vontade de um único ser, o ser humano, que, na sua unidade existencial, é dotado de inteligência. São dois aspectos de uma só pessoa, integrados, e respectivamente influentes. O querer influencia o saber, como o saber dirige o querer. Portanto, a objeção está equivocada.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor lembra que cada ato tem um objeto próprio, e somente pode se caracterizar por esse objeto. O objeto do ato de conhecimento é a verdade sobre o ente; o objeto do ato de vontade é o bem a ser feito ou perseguido. Ora, se o ato de vontade tem um objeto próprio, que é diferente do objeto do ato de conhecimento, então o ato de vontade não pode ser objeto de conhecimento, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

A resposta de Tomás está fundamentada naquela noção filosófica dos chamados “transcendentais do ser”. O ser pode ser encarado sob diversas razões; em si mesmo, ele é ser e é uno, íntegro. Em relação com o intelecto, ele é verdadeiro. Em relação com uma vontade, ele é bom. Em relação com a sensibilidade, ele é belo, e assim por diante. Ora, portanto, a verdade e o bem são diferentes apenas pela razão, não são diferentes como seres, ou seja, não são coisas diferentes. A verdade é como que o bem da inteligência, e o bem é a verdade da vontade. Estão reciprocamente contidos. Quando eu dirijo meu intelecto a algum objeto de conhecimento, eu percebo que é bom conhecer aquilo, mas é mau se enganar ou ser enganado. Quando eu dirijo minha vontade a algum bem, quero que ele seja um bem de verdade: ninguém quer comer veneno, por exemplo.

Assim, a verdade da vontade pode ser conhecida pelo intelecto, e o bem do intelecto pode ser querido pela vontade. O argumento não é verdadeiro.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor parte da noção de modo de conhecer. Nós conhecemos as coisas do mundo, os outros seres, porque assimilamos em nosso intelecto suas formas universais e abstratas, suas species. Nós conhecemos nossas próprias criações (artísticas, artesanais, tecnológicas, por exemplo) porque somos seus autores, ou seja, elas são presentes a nós como ideias que nós mesmos geramos.

Mas, segundo Santo Agostinho, os afetos da alma (como o nosso querer) não são conhecidos nem como species, nem como criações nossas, mas mediante certas noções percebidas por nós. Ora, prossegue o argumento, o intelecto lida com species e ideias criadas, mas não com noções percebidas. Logo, o intelecto não pode conhecer nosso querer, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Este exame sobre as alterações da alma, este conhecimento do estado em que nós próprios estamos, não se dá do mesmo modo que reconhecemos aquilo que está fora de nós; no caso daquilo que está fora de nós, o conhecimento se aperfeiçoa quando assimilamos a forma, a própria ideia da coisa, em nosso intelecto. Por outro lado, aquilo que nós criamos (uma escultura, um artesanato, uma obra de engenharia) nós geramos em nossa mente como ideias das quais somos os autores.

Mas os estados da alma, como as paixões e as reações emocionais, assim como as nossas vontades, nem são coisas que estão fora de nós, das quais assimilamos as ideias abstratas, nem são coisas que nós simplesmente criamos, mas coisas que acontecem em nós em razão daquilo que vivemos e experimentamos. Este conhecimento existencial, portanto, é, a um tempo, um dado objetivo e um estado subjetivo, que conhecemos em primeira pessoa, porque é algo vivido, sentido, ao mesmo tempo algo que acontece e o mesmo tempo algo que fazemos.

Assim, temos noção disso que acontece em nós, ou melhor, acontece conosco, porque sabemos que o princípio do querer é o intelecto, que desperta a inclinação da vontade. Como tanto este princípio quanto essa inclinação estão em nós, percebemos o que acontece conosco, não por imagens ou ideias, mas por sermos nós mesmos o campo em que ocorrem estes fenômenos, de tal modo que, ao termos noção de nós mesmos, temos noção também desses fenômenos em nós. Não é, pois, um conhecimento assimilado, nem um conhecimento criado, mas um conhecimento existencialmente percebido.

4. Concluindo.

Encerramos, assim, o estudo do nosso conhecimento intelectual, com relação ao mundo material externo e a nós mesmos. Resta descobrir como se dá a possibilidade de conhecer aquilo que nos ultrapassa, por existir como espírito, e portanto imaterialmente. É o que veremos na próxima questão.