1. Introdução.

Ter consciência de nossas vontades, exercer poder sobre elas, é a base para que possamos desenvolver virtudes. Se não somos capazes de conhecer reflexivamente nossas próprias vontades, então somos guiados pelos apetites, de modo cego; não somos responsáveis pelos nossos atos.

E já houve (e há) muita gente que pensa assim. Já houve quem defendesse que algumas pessoas seriam “criminosos natos”, e a segurança da sociedade exigiria seu encarceramento, como, ainda hoje, há quem imagine que as forças evolutivas podem fazer com que algumas pessoas, ou alguns povos, sejam mais “evoluídos”, e por isso mais perfeitos, que outros.

Tudo isso envolve imaginar que não somos seres livre, abertos e capazes de reflexão e autocontrole. Daí a importância do presente artigo. Descobrir como é que nossa vontade pode ser conhecida por nós é descobrir o caminho para a virtude.

Vamos a ele.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese inicial, para provocar o debate, vai propor simplesmente que não somos capazes de conhecer intelectualmente os atos da nossa própria vontade. Nossa mente seria, assim, de certo modo, cega para nosso querer. Há três argumentos objetores, que vão tentar comprovar que esta hipótese é verdadeira.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor introduz uma verdadeira separação entre a inteligência e a vontade, em nossa alma. Para algo ser conhecido por nós, diz o argumento, ele deve estar presente em nosso intelecto. Mas os atos de querer estão presentes em nossa vontade, que é uma potência da alma diversa do intelecto. Então o intelecto não os pode conhecer, simplesmente porque não estão presentes a ele, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento lembra que cada ato é caracterizado pelo seu objeto; o objeto do intelecto é a verdade, mas o objeto dos atos de vontade é o bem. Logo, o intelecto não pode conhecer os atos da vontade, porque o objeto destes é inadequado para o intelecto, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor é um pouco mais complexo, porque envolve uma psicologia à qual não estamos mais familiarizados, hoje em dia; a psicologia de Agostinho e do próprio Tomás. Sigamos com atenção o argumento.

Aqui, está em jogo a noção de “afeto”, no sentido de uma reação a algo que nos afeta, que causa reação, que nos movimenta interiormente. Portanto, não se trata da noção que temos, hoje em dia, de “afeto” como um sentimento de carinho ou ternura por alguma coisa ou alguém. Na verdade, esse carinho ou ternura são a nossa reação ao fato de que somos afetados por alguma coisa ou alguém, que nos desperta afinidade. Mas podemos ser afetados por muitas coisas, e reagir de muitas maneiras, inclusive por um movimento de vontade com relação àquilo que nos afeta.

Agora que esclarecemos a noção de afeto, vamos ao argumento.

O argumento diz que esses afetos da alma, ou seja, essa reação de sentimentos ou da vontade que são causados pela interação com algum objeto que nos interpela, não são percebidos por ideias abstratas e universais (como conhecemos as coisas mesmas) nem sequer por alguma construção nossa, como são as artes e os ofícios que criamos, de cujas ideias somos os autores. Esses afetos seriam percebidos por certas noções que temos em nós.

Ora, prossegue o argumento, em nosso intelecto as únicas noções que existem são as species ou formas universais e abstratas das coisas que conhecemos, ou as criações artísticas ou tecnológicas que construímos. Portanto, não há lugar, no intelecto, para nenhuma noção diferente destas.

Mas os afetos da vontade são percebidos, segundo Agostinho, por noções diferentes destas, quanto aos atos da vontade. Logo, eles não podem ser conhecidos intelectualmente por nós, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra simplesmente resgata uma citação do mesmo Santo Agostinho, com todo o peso de sua autoridade, na qual ele diz, no livro X do Tratado sobre a Trindade (o mesmo trecho que foi citado no artigo passado): posso conhecer intelectualmente que estou querendo. Portanto, o intelecto pode conhecer o ato da vontade.

5. A resposta sintetizadora de Tomás.

Tomás vai iniciar lembrando que, na questão 59, artigo 1, havíamos estudado a vontade. Ali, ficou bem claro que a vontade é o apetite da inteligência, e, portanto, é algo que nos inclina no sentido daquilo que o intelecto conhece, daquilo que está em nós como forma inteligida.

É preciso, aqui, fazer uma breve lembrança a respeito das formas que temos em nós. Temos, em primeiro lugar, uma forma natural, substancial, que é a nossa alma, que nos faz ser algo, ser corpo, ser animal. Todas as coisas têm uma forma (lembrando, aqui, que a noção de forma não se confunde com a de formato ou aparência, como dizemos de alguém muito magro que ele tem o formato de um palito; a noção de forma, aqui, significa aquilo que estrutura alguma coisa para ser o que é): as pedras têm uma forma inanimada, os vegetais têm uma forma viva, os animais têm uma forma sensível e nós, humanos, temos, além dessas características, uma forma inteligente.

Cada nível estrutural, cada tipo de forma, tem um tipo de inclinação que lhe é próprio. Assim, por exemplo, mesmo as coisas inanimadas têm uma inclinação à atração recíproca, que hoje chamamos de “força gravitacional”. Os vegetais têm inclinação à luz, à água e aos nutrientes do solo, como percebemos no chamado fenômeno do “fototropismo”, pelo qual as plantas inclinam-se para o lado em que há mais luz. Os animais têm inclinações sensíveis, instintos que os levam a responder sempre univocamente aos estímulos sensoriais que recebem. Um animal faminto, percebendo a comida, comerá. Animais não fazem jejuns religiosos. Por fim, nós, seres inteligentes, somos capazes de inclinações puramente intelectuais, como aquela que nos atrai a ler um bom livro.

Cada nível de inclinação, diz Tomás, está na própria coisa que se estrutura naquele respectivo nível. Assim, a chamada “inclinação natural” está nos corpos, mesmo os inanimados – é o caso da força gravitacional. As inclinações vegetativas estão em todos os seres vivos, desde simples plantas até os humanos, pelo simples fato de terem formas vivas. Pode-se dizer que essas inclinações estão na própria vida. Além disso, as inclinações instintivas dos sentidos estão em todos os entes vivos dotados de sensorialidade; estas inclinações sensíveis estão, portanto, no campo dos sentidos.

Assim, a inclinação do intelecto, que é o querer ou vontade, está no intelecto, na mente mesmo, do ser humano. Ela é, portanto, em si mesma, inteligível.

6. Encerrando este texto.

O que significa, para a ética, para o direito, e mesmo para a democracia, dizer que a vontade, o nosso querer, está no intelecto? É o que veremos no próximo texto, na continuação do exame das respostas de Tomás.