1. Retomando.
Vimos, então, no texto anterior, o final da resposta de Tomás quanto ao problema do autoconhecimento, e é impressionante o modo pelo qual Tomás explica a relação entre a nossa corporeidade e nossa espiritualidade, entre a nossa existência e o nosso autoconhecimento, e as diferenças entre o intelecto de Deus, o intelecto dos anjos e o nosso. O autoconhecimento dos anjos decorre da essência do próprio anjo; sendo um pensamento que pensa a si mesmo, a própria existência do anjo implica perfeito autoconhecimento. Em nós as coisas não são assim: nós existimos em nossos corpos, não em nosso pensamento – que, em sua origem, é completamente potencial. Assim, em nós, o processo de autoconhecimento é reflexivo: somente na medida que conhecemos as coisas é que podemos conhecer a nós mesmos.
Colocados esses princípios, vamos examinar as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor cita o próprio Agostinho, que, na obra sobre a Trindade, afirmando que a mente humana, que é imaterial, conhece a si mesma por si mesma. Segundo o argumento, isto significa que o autoconhecimento que a inteligência humana tem de si mesma não decorre de um processo de aprendizagem por abstração, que levasse à formação de uma ideia abstrata e universal de si mesmo na mente. O autoconhecimento seria uma intuição direta de si mesmo, que a mente humana alcançaria pelo simples fato de ser inteligente e imaterial, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Realmente podemos dizer que a alma conhece a si mesma por si mesma, mas não no sentido colocado no argumento objetor. Não se trata de uma intuição direta da própria existência, simultânea e conatural com o próprio existir, como no caso dos anjos. Trata-se de um processo reflexivo, em que a mente chega a se conhecer por reflexão, contemplando-se no processo de aprender. A mente se vê pensando, e pode se reconhecer como um ente que pensa. Mas não só isso; ela pode se reconhecer não simplesmente como “algo” que pensa, como um objeto a ser conhecido a partir de fora. Ela se reconhece como alguém, como pessoa, e se reconhece ainda como ela mesma. É nesse sentido que podemos dizer que a mente humana se conhece porque se ama, e se ama porque tem a autopercepção, a noção de que é pessoa, e principalmente de que é ela mesma, o próprio “eu”. Assim, conhecer-se é identificar-se amorosamente consigo mesmo, aceitar-se como alguém, e principalmente desenvolver, na reflexão, o amor por si mesmo como sujeito da própria reflexão.
E em que sentido Agostinho dizia que a alma “se conhece por si mesma”?
Há dois sentidos em que alguma coisa pode ser conhecida por si mesma, diz Tomás.
A primeira forma é aquela pela qual conhecemos os princípios. Não conhecemos os princípios por dedução, nem por exploração, mas por intuição intelectual, uma vez que eles são princípios e, por isso mesmo, não são deduzidos de nada anterior. Quando eu falo, por exemplo, dos princípios da identidade e não-contradição, pelo qual algo não pode ser e não ser ao mesmo tempo e não pode deixar de ser igual a si mesmo, eu sei que esses princípios existem, porque sem eles nem sequer conseguiria me comunicar; mas não os conheço por algum processo de abstração, de exploração ou de dedução. Conheço-os, portanto, em si mesmos.
O outro exemplo é o das cores. De fato, quando olhamos para uma cor, é a própria cor que estamos vendo. Quando olhamos, por exemplo, para um gato, não estamos vendo a ideia universal de gato, nem mesmo a essência de gato, mas apenas os seus acidentes: as cores, os formatos, as texturas, a forma de se mover, tudo isso nos chega como informação indireta a respeito do gato. Apenas em nosso intelecto, depois de todo o processo de observação, composição, purificação, abstração, é que chegamos a reconhecer a substância, isto é, que aquilo ali é um gato e não uma sombra, nem mesmo um cão ou um gambá. Assim, não conhecemos o gato, substancialmente, de modo direto, por si mesmo, mas apenas de modo indireto, a partir da observação dos seus acidentes. Mas realidades como as cores e os sons são conhecidos por nós em si mesmos, diretamente.
Neste sentido, a nossa reflexão sobre a nossa própria alma, ou seja, o autoconhecimento da nossa mente, não se dá de modo indireto (como no exemplo do gato), mas de modo direto, por uma visão intelectual direta, como se dá com os princípios e com os objetos próprios dos sentidos. É neste sentido que Santo Agostinho diz que a mente se conhece de modo direto, por si mesma, e não por algum acidente ou raciocínio interposto.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor lembra que nós somos seres espirituais, isto é, dotados de inteligência e vontade, assim como os anjos. Ora, os anjos, por definição, têm o autoconhecimento como uma característica natural, própria, isto é, por sua própria essência eles conhecem a si mesmos. Portanto, se somos semelhantes a eles como seres espirituais e inteligentes, também devemos ter o autoconhecimento como uma característica essencial nossa, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
O anjo é um ser curioso. De fato, uma forma só pode existir na matéria ou numa mente, diz a filosofia clássica de tradição aristotélica. O anjo seria, assim, uma mente que pensa a si própria; logo, ela existe porque se pensa, e existe no próprio pensamento. Por isso, é inteligente, imaterial e completamente em ato, isto é, seu intelecto pensa a si mesmo completamente, e por isso existe completamente. Por isso, para o anjo, a existência é pensamento, e pensar é existir. Anjos não têm algo como um “inconsciente” ou um “subconsciente”, eles têm plena autoconsciência, porque essa é a maneira pela qual existem. Por isso, o autoconhecimento, para o anjo, é inseparável da sua existência mesma: sua existência é pleno autoconhecimento, porque seu intelecto é pleno ato, e portanto eles se conhecem por essência.
Com o ser humano não é assim. Nossa alma é espiritual, mas é, em primeiro lugar, uma alma animal. Isto é, ela entra na existência como estruturadora de um corpo. Ela é forma do corpo em primeiro lugar, e, portanto, não conhece nada, nem se conhece, como já vimos na resposta sintetizadora. Por isso, aquele autoconhecimento que, no anjo, decorre do próprio modo de ser angelical, no ser humano decorre de um processo de reflexão sobre um processo lento de aquisição de conhecimento intelectual. Na medida que conhece, o intelecto possível vai acumulando as ideias universais daquilo que o intelecto ativo encontra nos phantasmatas ou imagens da memória, e é esse processo de atualização do intelecto humano que vai possibilitando que ele possa se tornar objeto de conhecimento para si mesmo. Aquilo que no anjo é natural, portanto, no ser humano é fruto de um processo que demanda esforço e reflexão. Não somos semelhantes aos anjos quanto a isso, portanto. Somos, na verdade, bem diferentes.
O terceiro argumento objetor.
Este argumento trata da teoria do conhecimento clássica, de origem aristotélica, que era também a de Tomás. Por essa visão, “conhecer” não é simplesmente criar uma descrição, um conceito, um nome para a coisa conhecida. Conhecer é assimilar na própria mente a mesma forma que está na coisa. Na coisa, a forma (ou ideia) está de maneira individualizada, concreta, material. Mas na mente, a mesma forma está de maneira universal, abstrata e espiritual. Mas trata-se da mesma forma, não de algo que represente ou pareça com a coisa. Ela existe materialmente na coisa e imaterialmente nos intelectos.
Quando aquilo que é conhecido é imaterial, diz o argumento, então aquilo que conhece e aquilo que é conhecido são a mesma coisa, são simplesmente idênticos. Pensemos aqui no próprio conceito geométrico de triângulo: quando conhecemos o triângulo, é o próprio triãngulo, em sua ideia abstrata e universal, que existe em nossa mente; não simplesmente um conceito de triângulo, ou alguma noção de triângulo, mas é o próprio triângulo que existe em minha mente que o conhece.
Ora, a nossa mente é imaterial, como já vimos em outros artigos. Se é assim, ela existe imaterialmente como mente, e, portanto, na nossa mente, existir e conhecer-se são a mesma coisa: quando a mente se conhece, ela conhece a si mesma, e não a alguma noção ou conceito de si. Portanto, na nossa mente imaterial, ser e conhecer são essencialmente a mesma coisa; portanto, nós nos conhecemos por essência, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Não há dúvida, diz Tomás, que, quando Aristóteles ensina que, no intelecto, aquilo que conhece e aquilo que é conhecido são a mesma coisa, ele está falando algo que é verdade para todos os intelectos, desde o intelecto divino até o mais simples intelecto humano. Isto é conhecer, ou seja, conhecer é assimilar em si a própria coisa conhecida, em sua ideia universal e abstrata. Mas não é outra coisa, senão o objeto de conhecimento. O triângulo que conhecemos não é uma noção de triângulo, um mero conceito ou uma “fotografia” de triângulo, mas é o próprio triângulo que passa a existir em nós, em nossa mente.
Mas a nossa mente, quando somos gerados no ventre da nossa mãe, é completamente potencial, vazia de conhecimentos. Assim, ela própria não pode ser conhecida. Quando adquirimos a capacidade de conhecer, depositamos as formas ou ideias universais em nosso intelecto, tornando-o então atual, quer dizer, ele fica em ato para o conhecimento. Estando em ato, ele pode ser conhecido, e o ato dele é justamente a ideia ou forma universal que ele conheceu. Assim, por exemplo, nós viemos a conhecer o triângulo, em sua noção geométrica abstrata e universal. Assim, nosso intelecto ficou em ato para o triângulo, e é esse ato que permite que possamos conhecer nosso próprio intelecto, de maneira reflexa. Somos capazes, então, de conhecer que conhecemos um triângulo, e daí somos capazes de saber que temos uma mente intelectual que conhece. O triângulo, assim, em sua abstração e imaterialidade, torna-se a forma pela qual nossa mente conhece a si própria. Quando conhecemos algo, abstraímos aquilo que conhecemos das suas condições materiais e temporais e, portanto, o objeto do nosso conhecimento torna-se um com a nossa mente, ao tempo em que é um com a coisa que conhecemos. Assim, quando as coisas são imateriais, como o próprio triângulo, o conhecimento, o conhecido e de certo modo o próprio conhecedor tornam-se uma coisa só.
Então é claro que, quando a mente conhece a si própria, o conhecedor, o conhecimento e o conhecido tornam-se idênticos; mas no caso dos seres humanos, este autoconhecimento não é completo, porque nem tudo em nós é imaterial. Ou seja, nosso autoconhecimento não é idêntico a nós mesmos, porque nosso autoconhecimento é imaterial e nós somos materiais.
Mas os anjos não são materiais. Neles, o conhecido, o conhecedor e o conhecimento são completamente iguais. Assim, somente nos anjos podemos dizer que, no autoconhecimento, o conhecedor, o conhecido e o conhecimento são iguais. Em nós, humanos, essa afirmação não é inteiramente verdadeira.
3. Conclusão.
Assunto difícil, explicá-lo é mais difícil ainda, e, exatamente porque, para nós hoje, os fundamentos daquilo que Tomás explicava são muito mais desconhecidos, qualquer estudo deste tipo fica muito longo. Mas conseguimos chegar ao fim desse artigo tão fundamental.
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