1. De volta.
Deus se conhece completamente. Nele, não há diferença entre ser e conhecer: ele é o único que pode dizer: penso, logo existo. Não há diferença entre as duas coisas. Os anjos também podem, de certa forma, dizer “penso, logo existo”, porque toda a existência de um anjo é ser um pensamento que existe. Com a diferença de que são criaturas. Deus não precisa receber nenhum conhecimento sobre nada que existe: as coisas existem porque ele pensou nelas, e não o contrário. Os anjos recebem o conhecimento das outras coisas por um dom de Deus, quando são criados.
O ser humano não pode dizer legitimamente “penso, logo existo”, porque há momentos ou aspectos nossos em que simplesmente não pensamos (seja por estarmos inconscientes, dormindo, ou por sermos de idade muito tenra, ou simplesmente por haver aspectos, em nós que existem sem que pensemos neles, ou sequer saibamos que existe, como o processo de duplicação genética que nossos órgãos reprodutivos fazem), mas continuam existindo, independentemente de nosso pensamento. O pensamento humano é, sem dúvida, um indicador infalível da nossa própria existência: se não existimos, não pensamos. Mas a recíproca não é verdadeira: não é porque pensamos que somos – isso só é verdade para Deus. Ele é porque pensa, e pensa porque é. Nos seres humanos, o ser precede o pensar: nós pensamos porque somos, e somos bem mais do que pensamos.
Vamos retomar, então, o estudo das respostas de Tomás sobre esse tema empolgante.
2. Prosseguindo na resposta sintetizadora de Tomás.
Existo, logo penso.
Como estávamos dizendo no item anterior, no ser humano a existência precede e supera o pensamento. Existimos antes de podermos pensar, e, mesmo quando somos capazes de pensar adequadamente, nosso pensamento não envolve, não conhece, todos os aspectos do nosso ser mesmo.
Portanto, quando o ser humano é gerado no ventre da sua mãe, há um sujeito de conhecimento; mas ainda não há o instrumento de conhecimento, isto é, não há ainda um corpo adequadamente formado. Ou seja, não há o aparelho que nos fornece os órgãos dos sentidos, o cérebro que armazena e relaciona informações, a memória, a fantasia, todo o arcabouço corporal que permite atualizar a inteligência humana. Estamos inteiramente na condição de potencialidade para aprender, porque toda a nossa aprendizagem transita pelo aparelho corporal. E o aparelho corporal existe, nos primeiros momentos da concepção e mesmo em toda a fase embrionária, apenas de maneria muito rudimentar.
Existe conhecedor, mas não existem instrumentos para conhecer.
Conheço, logo posso me conhecer.
Mas há outra coisa que ainda não existe. Não existe ainda o objeto para ser conhecido!
De fato, já sabemos que o objeto adequado para o nosso conhecimento é a criatura material. Nossa inteligência, como sabemos, é imaterial. É a inteligência imaterial de um ser criatural material, mas, ainda assim, é uma realidade imaterial. É um objeto de conhecimento apenas indireto, para nós.
Mas há uma outra questão: nós não conseguimos conhecer, nem indiretamente, aquilo que é apenas potencial; ninguém pode ver a cor amarela de uma parede que ainda não foi pintada, por exemplo. Ninguém pode conhecer uma árvore olhando apenas para a semente. Se ainda existe a semente, não existe nenhuma árvore para ser conhecida, apenas a potência para ser árvore, que está na semente.
É por isso que a matéria-prima não pode ser diretamente conhecida por nós: como ela é algo inteiramente potencial, a rigor ela não tem ainda nenhuma informação, nenhuma atualidade que possa ser conhecida. Com nossa inteligência, poderíamos dizer que, no início da vida, ela é, metaforicamente falando, como uma grande “matéria-prima espiritual” para o conhecimento que adquiriremos pela vida afora.
Ocorre algo, portanto, análogo aos seres em potência, com a nossa inteligência: quando somos concebidos, nossa inteligência está completamente em branco, não conhecemos nada intelectualmente, ela é estritamente potencial; como uma semente tem o potencial de ser árvore, mas ainda é semente, nossa inteligência, nos primeiros momentos de nossa existência, tem a potência para conhecer, mas ainda não conhece. Ora, se ela ainda está em potência, então, além de nada conhecer, tampouco pode ser conhecida. Nada que está em potência pode ser conhecido, como dissemos há pouco. Nosso autoconhecimento só pode acontecer, portanto, quando nossa inteligência começar a conhecer intelectualmente o mundo; somente quando ela se atualiza, quando ela se torna atual pela aquisição de conhecimento, é que ela vem a tornar-se, ela própria, um objeto adequado para o nosso conhecimento.
Portanto, por se comportar, no mundo do conhecimento, de maneria análoga àquela pela qual a matéria-prima se comporta no reino das coisas sensíveis, da matéria, é que o nosso intelecto é chamado de intelecto possível ou passivo, ou seja, capaz de receber formas, mas ainda estritamente potencial. Portanto, essencialmente, nosso intelecto deveria ser chamado, no princípio, de potência inteligente, diz Tomás. Ele pode inteligir. Mas não pode ainda inteligir a si mesmo, porque não é, ainda, inteligível – por ser estritamente potencial. Só pode ser inteligido quando vier a se atualizar, inteligindo alguma coisa.
Sou, logo posso me conhecer.
É interessante notar que Tomás chama a nossa atenção de que, para o processo de conhecimento, o objeto a ser conhecido tem prioridade sobre o sujeito de conhecimento; e era assim, diz ele, mesmo para os platonistas. É por esse motivo que Platão imaginava a existência de um “mundo separado das ideias”, no qual nós iríamos buscar nosso saber, e esse mundo estaria acima de nós, da nossa inteligência: nosso saber seria uma “participação” nele. Nisto há alguma verdade: de fato, o nosso conhecimento é uma participação na inteligibilidade que o próprio Deus infunde nas coisas, ao pensá-las e criá-las. Deste jeito, de fato a nossa inteligência se mede pelo que existe, e não o contrário. A verdade é a adequação da nossa inteligência às coisas, e não a imposição de nossa vontade ao mundo. Por mais que queiramos, se não conhecemos, por exemplo, a verdade da aerodinâmica não poderemos construir aviões que funcionem.
Aliás, se aquilo que Platão defendia (que nossas almas preexistiam nesse Reino das ideias, antes de encarnar neste mundo material) fosse verdade, não haveria razão para que não nascêssemos já com a capacidade de autoconhecimento; de fato, se nosso intelecto estivesse, desde a concepção, em ato para o conhecimento, por causa da preexistência em algum “reino das ideias”, então ele estaria em ato para ser conhecido, e nosso autoconhecimento seria muito mais fácil.
Mas as coisas não são assim. De fato, em primeiro lugar, adquirimos a capacidade de explorar o mundo com os nossos sentidos. Com esta exploração, adquirimos os dados sensoriais que são organizados como imagens (fantasmas) em nossa memória, e é a partir deles que o intelecto agente (essa “luz divina” dentro de nós) encontra o material para fazer a abstração e chegar às species, ou ideias, ou formas universais e abstratas, das coisas que conhecemos intelectualmente. É com a assimilação dessas ideias que nosso intelecto passa a conhecer, isto é, passa a estar em ato. Ao adquirir a condição de atual, isto é, de efetivamente informado pelas ideias que passou a conhecer, nosso intelecto passa a poder ser conhecido; somente as coisas em ato podem ser conhecidas, como já vimos. Portanto, diferentemente dos anjos, que têm o autoconhecimento pela sua própria essência, nós, humanos, chegamos ao autoconhecimento pela reflexão a partir do próprio processo de conhecimento. O conhecedor (nós mesmos) passa a ter o instrumento (a reflexão) para conhecer o objeto em ato (o nosso intelecto que foi atualizado pela aprendizagem). Assim, é preciso que o intelecto passe a conhecer o mundo, saia da sua condição inicial de ignorância, para poder, por sua vez, ser conhecido por nós mesmos.
Conheço-me, logo posso conhecer a humanidade.
Mas há dois graus de autoconhecimento, lembra Tomás.
O primeiro grau de autoconhecimento é a autopercepção. No próprio processo de aprender, nosso intelecto percebe que aprende. Ao perceber-se aprendendo, ele percebe a si mesmo como um ser inteligente. Esta é uma das maiores provas da imaterialidade do nosso intelecto: sua capacidade de observar-se. Nenhuma capacidade material é capaz de sentir a si mesma: o olho não pode ver-se, o ouvido não pode ouvir-se, o olfato não pode cheirar-se, e assim por diante. Todas estas capacidades são materiais. Mas o intelecto pode contemplar-se, pode pensar em si mesmo, pode se conhecer. Isto demonstra que ele é imaterial. Aqui, o ordinário, o normal, é que cheguemos a esse conhecimento: todo ser humano, normalmente, é capaz de se perceber como um ser intelectual. Isto decorre, diz Tomás (citando, aqui, Santo Agostinho) do fato de que o intelecto ativo é uma certa semelhança de Deus em nós, com sua capacidade de abstrair as condições concretas e buscar as razões eternas das coisas – que nada mais são do que o sentido de inteligibilidade que o próprio Deus colocou nas coisas. E esta mesma capacidade pode se debruçar sobre si mesma, de tal modo a buscar descobrir qual o sentido da nossa própria vida, da nossa própria humanidade, tal como Deus a concebeu. De certo modo, a capacidade de reflexão é, portanto, expressão muito elevada da imagem e semelhança de Deus em nós. Essa possibilidade de chegar ao conhecimento universal e abstrato da inteligibilidade da humanidade decorre justamente daí.
O outro modo de autoconhecimento, que decorre justamente dessa capacidade intelectual de buscar o universal, é o conhecimento universal da inteligência humana, ou seja, é o conhecimento da própria ideia de ser humano como ser inteligente; trata-se de conhecer a própria noção de inteligência humana, de alma espiritual, de capacidade intelectual, de processo de conhecimento. Ou seja, além de se perceber como ente imaterial, intelectual, o ser humano é capaz de investigar a própria natureza da alma, num processo de investigação que envolve observação, raciocínio, conhecimento, perspicácia e muita ciência. Este é um caminho árduo, diz Tomás, cheio de possibilidades de erros e enganos, e muitos erraram e se enganaram nele – e ainda hoje o fazem. Há quem imagine que a inteligência humana seja estritamente material, há quem postule que a alma é um ente capaz de “encarnar e reencarnar” como se o corpo não fizesse parte essencial de sua identidade, há quem imagine que a alma é só uma arrumação acidental e evolutiva da própria matéria, enfim, são inúmeros os erros nesta matéria.
Vivo, logo posso me experimentar.
É por isso que Tomás vai lembrar que, tratando dessa matéria, Agostinho deu um conselho muito sábio: não devemos procurar conhecer o que é o ser humano a partir de um ponto de vista externo, como se pudéssemos observar “de fora” a humanidade, como um puro objeto. Todo conhecimento que nós, humanos, possamos vir a adquirir sobre nossa própria natureza deve ter, como ponto de partida, uma observação existencial, vivencial, integrada, que considere inclusive e principalmente aquilo que nos caracteriza como humanos, a nossa quididade, aquilo que nos torna únicos e diferentes de todas as outras coisas. E este tipo de conhecimento só pode ser atingido se não desconsiderarmos nossa própria existência, nossa própria experiência de humanidade.
3. Encerrando.
No próximo texto, veremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais, a partir desses princípios tão ricos que agora ele nos ensinou.
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