1. Retomando.
Em grande medida, somos estranhos a nós mesmos. Sempre nos surpreendemos com nossas atitudes, nossas reações em situações inesperadas, nossos pensamentos incontroláveis. Os anjos se conhecem completamente, não há comportamento deles que seja capaz de surpreendê-los. Anjos não têm nenhum “inconsciente freudiano”, são plenamente advertidos de si mesmos. E não é surpreendente que seja assim: lembremos que, para Aristóteles, uma forma, isto é, uma ideia ou estrutura abstrata e imaterial, pode existir de duas maneiras: na matéria ou num pensamento. É assim com os números, com as formas geométricas e com as species: a espécie humana existe como ideia na mente de Deus, como gente concreta nos seus corpos e como conhecimento na mente dos cientistas e filósofos; a pergunta é: como a nossa própria forma, a ideia de nós mesmos, pode existir em nosso corpo como fato e em nossa mente como autoconhecimento? Será que, como os anjos, nossa forma é naturalmente dotada de autoconhecimento e por isso subsiste como inteligência, como espírito? Ou será que temos que passar por algum processo de conhecimento para assimilar intelectualmente, de modo progressivo e com muito esforço, quem nós somos?
As implicações são muitas. O próprio sacramento da Reconciliação, quer dizer, a confissão e a absolvição sacramental dos pecados, não seria possível para um anjo: suas atitudes não guardam espaço para uma reflexão posterior que venha a provocar arrependimento: quando os anjos agem, eles simplesmente já sabem tudo o que têm que saber para exercer a liberdade. Eles não se arrependem, e, em nós, o arrependimento vem pela ação do Espírito Santo sobre a nossa liberdade imperfeita, incompleta, sempre em desenvolvimento.
Vamos, então, examinar a resposta sintetizadora de Tomás sobre essa rica questão do autoconhecimento.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Conhecimento, atualidade e potencialidade.
Conhecer e ser têm uma relação de reciprocidade: para que algo seja conhecido, é preciso que ele seja. Vale dizer, seria mais correto dizer “existo, logo penso” do que dizer “penso, logo existo”. O conhecer e o pensar decorrem do ser, e não o contrário: aquilo que não existe não pode pensar. E mais, aquilo que existe somente pode conhecer aquilo que existe. Ou seja, tudo o que podemos conhecer são as coisas em ato, as coisas que existem mesmo. Nada do que é potencial, do que é meramente uma possibilidade de existir, pode ser conhecido. Ninguém pode, por exemplo, conhecer uma árvore se tudo o que existe é uma semente. A semente é apenas potencialmente uma árvore, mas ainda não é uma árvore atual. Se eu tenho uma parede branca e uma lata de tinta amarela, não posso ainda enxergar a cor amarela na parede, até efetivamente pintá-la. Essa relação ato e potência é, portanto, essencial para determinar os limites da capacidade de conhecer.
Deus, anjos e humanos: três intelectos diferentes.
Bem, pensemos aqui nos anjos. Como sabemos, os anjos existem como seres puramente imateriais. Mas são criaturas, isto é, são levados por Deus a existir, não existem por si mesmos.
Mas como existem os anjos? Ao entrar na existência, eles são pensamentos que pensam integralmente em si mesmos; é assim que eles existem. Nós, humanos, somos animais que pensam. Os anjos são pensamentos que existem. São os dois modos pelos quais uma forma pode existir: na matéria, como os humanos, ou no pensamento, como os anjos. Assim, essencialmente, os anjos têm que se conhecer, para existir. Para eles, existir e conhecer-se são a mesma coisa. Eles existem porque se conhecem, e se conhecem porque existem. Diferentemente dos anjos, nós, humanos, existimos porque nossa alma, que é formal, anima uma porção de matéria, que é nosso corpo. Assim, nos anjos, o autoconhecimento decorre da própria essência; em nós, não.
Qual seria, então, a diferença do conhecimento que Deus tem de si mesmo e das coisas, por um lado, e o conhecimento que os anjos têm, por outro?
Deus não é uma criatura. Ele não é material. Então, por definição, em Deus o ser e o conhecer se identificam completamente: Deus é, e ele conhece na mesma medida que é. Mas Deus não precisa adquirir conhecimentos: na verdade, é ele quem cria, e, ao criar, torna as coisas cognoscíveis, isto é, é Deus que dá inteligibilidade ao mundo. A ciência consegue conhecer, por exemplo, as árvores, porque as árvores foram criadas por Deus de modo inteligível. Elas são repletas de lógica, de inteligibilidade, de possibilidade de conhecimento. Esta inteligibilidade tem origem em Deus. Então Deus conhece as árvores, não porque ele tenha adquirido, em si, esse conhecimento, mas porque ele o concebeu. Neste sentido, Deus conhece as árvores, antes de mais nada, porque se conhece, e conhece os próprios pensamentos. São as árvores que carregam a inteligibilidade que Deus lhes dá. Não é Deus que carrega, em si, a inteligibilidade que a árvore tem.
Mas com os anjos não é assim. Neles, o ser precede o conhecer, isto é, eles se conhecem porque foram criados por Deus, receberam dele a existência, mas o seu existir não é outra coisa senão seu autoconhecimento completo. Mas, para que conheçam as outras coisas, como as árvores, eles precisam receber de Deus todas as ideias, todas as formas abstratas; vale dizer, os anjos se conhecem porque são anjos, a sua essência implica o autoconhecimento. Mas, para que conheçam outras coisas, precisam receber as ideias, as formas universais, ou seja, as species das coisas em seu intelecto. E de fato as recebem, quando são criados. Este é um dom de Deus para eles.
E os seres humanos? Como somos materiais, em nós o ser não coincide com o conhecer. Somos, existimos, porque nossa alma estrutura um corpo, não porque existamos como pensamento vivo (só os anjos são assim). Portanto, quando somos concebidos como seres vivos, nossa alma é atual para a existência por estruturar um corpo, mas não é atual para o conhecimento – somos integralmente vazios, potenciais, para o conhecimento intelectual, quando somos concebidos no seio materno. Nossa inteligência não tem, nesse momento, nenhuma atualidade. Então ela não conhece nada, portanto tampouco conhece a si própria. E, mesmo que tivesse já a capacidade para adquirir conhecimentos intelectuais (o que só virá bem mais tarde, com o desenvolvimento humano), não haveria ainda nada para conhecer; uma vez que a inteligência humana, nesse momento, é apenas potencial, e uma vez que aquilo que é potência não pode ser conhecido ainda, (como a parede que ainda não foi pintada não pode ser vista em sua futura cor), isto significa que todo o processo de autoconhecimento intelectual humano é um processo, cujo início não coincide com o início da existência humana. Não somos anjos.
3. Encerrando.
No próximo texto, estudaremos, então, esse modo humano de explorar a si mesmo, de adquirir autoconhecimento, tão diferente do modo pelo qual Deus se conhece, ou mesmo pelo qual os anjos se conhecem.
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