1. Introdução.
O autoconhecimento, entendido como a noção inteligente daquilo que somos, é um mistério. De fato, temos alguma intuição do que somos. Percebemos a nós mesmos. Mas um animal também pode se perceber: ele sabe que será afetado por alguma ameaça, é capaz de percebê-la, é capaz de saber que ela é ruim para si mesmo e , portanto, foge. Não há dúvida de que essa percepção de si mesmo é, em algum grau, natural. Vemos os animais marcando território, defendendo-se, buscando aquilo que é melhor para si. Parece natural que tenhamos, também nós, esse autoconhecimento.
Mas somos animais intelectuais. E o intelecto é imaterial; não é, portanto, um objeto adequado a ser empiricamente explorado. Se é verdade que todo conhecimento intelectual, em nós, nasce das imagens formadas pela exploração que nossos sentidos fazem dos objetos materiais que se relacionam conosco, então o nosso próprio intelecto não parece ser um objeto adequado para que venhamos a conhecê-lo. Não podemos explorá-lo fisicamente, não podemos formar uma imagem dele na memória, não podemos visualizá-lo.
Como será possível, pois, que não somente tenhamos alguma consciência, alguma percepção de que somos algo, como os outros animais também têm, mas, além disso, possamos perceber nosso próprio intelecto, contemplá-lo a pensar, ou mesmo querer que ele pense?
A primeira resposta, e a que parece mais plausível, é a de que o nosso intelecto tenha alguma espécie de conhecimento inato, natural, de si mesmo, como algo que já está inscrito nele por essência, pelo simples fato de ser um intelecto humano. Assim, teríamos em nossa própria essência a capacidade de autoconhecimento. Mas, como pode perceber qualquer um que já tentou refletir sobre si mesmo, as coisas podem não ser tão simples. Eis um trabalho difícil, custoso, lento! Conhecer-se, contemplar-se, ter de si mesmo a capacidade de criticar-se, de discernir, é uma tarefa árdua, lenta, às vezes frustrante. Como compatibilizar isso com a proposta de que seríamos capazes de nos conhecer por alguma capacidade inata, natural, própria da nossa essência mesma?
Eis o debate que se propõe agora. O autoconhecimento intelectual, a possibilidade de que nos conheçamos intelectualmente, ponderadamente, e não simplesmente como uma percepção instintiva, é inata, é essencialmente humana, ou é resultado de um esforço, de uma reflexão árdua e conquistada?
Debate interessantíssimo. Rico em psicologia, rico em filosofia. Não deixa de nos fazer lembrar um pouco de Descartes, com sua ideia de que se conhecer é o fundamento do próprio ser. Penso, logo existo. Qual é a relação que existe entre ser e conhecer-se?
Vamos ao artigo.
2. A hipótese controvertida.
Diante deste problema, e para estimular o debate, a hipótese controvertida propõe que a própria essência do ser humano, a essência da alma humana, já traz em si a plenitude do autoconhecimento; vale dizer, ser, para nós, é se conhecer. Seria mais ou menos como dizer: pelo simples fato de que sou humano, conheço-me. Quer dizer, a alma humana conhece a si mesmo por sua própria essência, propõe a hipótese. Há três argumentos objetores, que tentarão comprovar a verdade dessa hipótese.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor cita Santo Agostinho, que, na obra sobre a Trindade, afirma expressamente que, uma vez que é incorpórea, a alma humana não chega a seu autoconhecimento senão por si mesma; ou seja, ela se conhece como algo que é intrínseco ao próprio fato de ser humana, e não por algum processo que levasse o intelecto humano a alcançar a ideia intelectual de si mesma. Assim, é por sua própria essência, e não por algum processo de aprendizagem, que o ser humano tem autoconhecimento, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Anjos e seres humanos têm algo em comum: o fato de serem criaturas dotadas de inteligência e vontade, ou seja, serem espirituais. Ora, o anjo não chega ao autoconhecimento por alguma espécie de aprendizagem ou processo, mas percebe-se intelectualmente de modo natural, pelo simples fato de ser essencialmente inteligente. Assim, se a alma humana tem uma natureza similar à dos anjos quanto à sua espiritualidade, ou seja, sua capacidade intelectual imaterial, também deve compartilhar essa característica de chegar a conhecer-se de modo natural e por sua essência mesma, não por algum tipo de aprendizagem por reflexão, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
O conhecimento, segundo Aristóteles, é um tipo de identificação: não se trata simplesmente de dar nome às coisas, ou de construir conceitos, mas de assimilar em si, na sua própria inteligência, a própria razão da coisa, sua forma abstrata e universal (que a filosofia clássica chamava de species), a mesma ideia que está na própria coisa, fazendo-a ser algo, passa a estar em nossa mente que a conhece. Assim, de certo modo, é a coisa mesma que passa a existir na inteligência, embora por um modo diverso de existência. A coisa existe de modo material, concreto, no mundo, e a sua forma (ou ideia, ou species) existe de modo imaterial, abstrato, universal, em nossa inteligência.
Mas a nossa inteligência, ou seja, aquilo que em nós é intelecto, não é material em nós, isto é, não podemos dizer que ele tenha um modo material de existir em si mesmo e um modo imaterial de existir quando é conhecido por nós. Assim, se nós conhecemos o nosso intelecto, ele existe em si mesmo de modo imaterial, e existe em nosso conhecer, em nosso intelecto, de modo também imaterial; ora, é o nosso intelecto imaterial que conhece o nosso intelecto de modo imaterial. Assim, no caso do autoconhecimento intelectual humano, aquilo que é conhecido, ou seja, o intelecto humano, é igualzinho àquilo que conhece, que é o próprio intelecto humano. Com isto, poderíamos dizer que, em nosso intelecto, existir é conhecer-se, e existir se identifica com o conhecer-se. Logo, em nós, existir é conhecer-se, e portanto a essência mesma do nosso intelecto implica o autoconhecimento: logo, o autoconhecimento, em nós, é algo essencial, e não algo aprendido, conclui o argumento.
(Poderíamos dizer que este argumento antecipou, com 300 anos de antecedência, o raciocínio que Descartes faria para chegar à sua famosa conclusão “penso, logo sou”. Será interessante, então, descobrir como é que São Tomás responderia a Descartes, o que vamos descobrir nos textos posteriores).
4. O argumento sed contra.
O argumento contrário, que traz uma opinião de alguma autoridade, no sentido de deslegitimar a hipótese controvertida inicial, vai resgatar justamente a opinião de Aristóteles sobre o autoconhecimento.
De fato, no livro sobre a alma, Aristóteles afirma que o intelecto humano chega ao autoconhecimento da mesma maneira pela qual chega a qualquer conhecimento intelectual, ou seja, pela aprendizagem. Ora, o processo de aprendizagem consiste justamente em assimilar em si a noção universal, a forma abstrata da coisa que está sendo apreendida.
Logo, o processo de autoconhecimento é uma aquisição, um esforço de aprendizagem, e não uma intuição natural do intelecto, uma característica inata à qual ele chega espontaneamente pelo simples fato de ser o que é, conclui o argumento.
5. Fechando.
Este é um artigo longo e complexo, sobre um tema lindo e importantíssimo. A resposta de Tomás também é longa e complexa, e por isso merece que nos detenhamos sobre ela com muita atenção. É o que faremos nos próximos três textos sobre o assunto. Paz e bem!
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