1. De volta.

Quão importante é defender a capacidade do intelecto humano, sua possibilidade de conhecer as coisas, suas causas e até mesmo de participar da providência divina, antevendo as consequências em suas causas, para melhor administrá-las. É exatamente com base nestes princípios que o Papa Francisco publicou, recentemente, a encíclica Laudato Si, com muita confiança na ciência humana, quanto à possibilidade de conhecer as consequências nefastas da exploração econômica não sustentável e evitá-las ou mesmo revertê-las. A confiança que a igreja tem na ciência está bem fundamentada na revelação e bem sistematizada no pensamento teológico mais rico, em especial no de Tomás. 

No último texto tínhamos estudado a resposta sintetizadora e o primeiro argumento objetor.

Prossigamos, então, com o estudo das respostas de Tomás a respeito dos dois últimos argumentos objetores iniciais.

2. Os dois últimos argumentos objetores e a respectiva resposta de Tomás.

O segundo argumento objetor. 

O segundo argumento objetor lembra do fenômeno, conhecido desde os tempos mais antigos, de certas intuições do futuro que pessoas privadas dos sentidos, ou mesmo da razão, conseguem ter, ou que nos vêm em estado de torpor ou mesmo de sono. Há uma opinião de que, com o enfraquecimento do corpo, que é material, as capacidades psíquicas e espirituais da alma adquiririam um vigor maior e, assim, poderiam ter conhecimento do futuro; o argumento afirma, então, que o ser humano seria capaz naturalmente de conhecer o futuro, e apenas o fato de que o corpo, por ser material e denso, aprisiona o espírito, é que impede que o intelecto humano exerça na prática essa capacidade.

A resposta de Tomás.

Tomás vai nos lembrar que Santo Agostinho admitia, em passagens como aquela no Livro XII das Confissões, capítulo XIII, que a alma humana teria alguma capacidade de conhecimento global, com algum poder natural de antever o futuro, mas que este poder seria impedido pela natureza material do corpo, que a restringiria em tempo e espaço presentes. Mas, se fôssemos capazes de nos desligar dos sentidos corporais e como que contemplar a realidade de modo puramente espiritual, poderíamos chegar a algum conhecimento do futuro, pensava Agostinho.

Mas esta opinião, diz Tomás, decorre de uma influência do pensamento platônico. De fato, Platão imaginava que nosso conhecimento decorreria de algum tipo de acesso ao mundo transcendente das ideias universais, que seria conatural à alma humana, e cujo acesso só seria impedido pela natureza densa e rebaixada dos nossos corpos. Assim, quando o sono ou a loucura atrapalham ou anulam o efetio do corpo sobre a alma, isto libertaria nossa capacidade natural de conhecer universalmente, inclusive antever o futuro.

Esta concepção não é partilhada por Tomás, que sabe que tanto o nosso corpo quanto nossa alma são igualmente bons, e são igualmente participantes do modo propriamente humano de conhecer. Se o corpo fosse um obstáculo, uma prisão a uma alma capaz de conhecer naturalmente as ideias universais, não seria possível admitir nem a bondade incondicional do corpo, nem a unidade essencial de corpo e alma que é própria do ser humano.

Portanto, o nosso modo humano de aprender não decorre de termos vivido, numa vida anterior, em algum “reino transcendente das ideias”, como ensinava Platão, ou numa “iluminação direta por Deus”, como parecia ensinar Agostinho, mas no exame das coisas por meio dos nossos sentidos corporais, que fornecem os dados concretos, com os quais o nosso intelecto trabalhará para concretizar o conhecimento intelectual. Assim, é este conhecimento intelectual, científico, adquirido pelo intelecto por meio das capacidades corporais dos sentidos, da memória e da imaginação, que vai nos permitir a capacidade científica de prever os acontecimentos futuros, ao menos quanto às suas causas, mas não no sentido de saber exatamente quais acontecimentos contingentes virão a acontecer. Nosso intelecto não tem esse poder, por suas capacidades naturais.

Portanto, qualquer conhecimento certo do futuro contingente que um ser humano venha a demonstrar, seja durante o sono, seja em algum estado mental alterado, não tem por origem o conhecimento intelectual, científico, obtido por abstração a partir dos dados sensoriais. Quando ele vem a existir, pode ter duas fontes, então:

1) Pode ter fontes materiais; um exemplo são as vibrações quase imperceptíveis que prenunciam um terremoto. Até bem pouco tempo (e no tempo de Tomás) a ciência não conseguia explicar a razão pela qual há algumas espécies animais que podem prever terremotos e erupções vulcânicas muito antes que aconteçam, e mesmo antes que qualquer sinal seja percebido por nós. Hoje a ciência sabe que esses eventos podem emitir sinais muito sutis que podem ser percebidos por algumas espécies animais; não se exclui que alguns seres humanos sejam capazes de perceber esses estímulos também, mesmo inconscientemente, como no sono ou em algum estado de inconsciência total ou parcial. Não sabemos, ainda, se há outros sinais que prenunciam outros eventos naturais que podem ser percebidos por algumas pessoas nestas condições e que, por serem ainda desconhecidos pela ciência, podem fazer parecer que estas pessoas são capazes de premonições miraculosas; não são. São apenas dados sensoriais obtidos por fenômenos dos quais não estamos conscientes, e que nosso corpo registra e nosso intelecto pode, eventualmente, interpretar. 

2) Podem ter fontes espirituais. A Revelação divina em Jesus nos dá conhecimentos, em algum grau, sobre os futuros, como é o caso dos Novíssimos. Também os anjos podem revelar conhecimentos futuros certos, quando em missão divina; nossos anjos da guarda fazem isso às vezes, livrando-nos de perigos; a Bíblia exemplifica muitas outras situações em que isto ocorreu. Por fim, os demônios, embora não conheçam o futuro contingente, têm uma ciência muito mais penetrante que a nossa, o que os torna mais capazes de prever situações e utilizá-las para nos enganar com previsões para nos desviar da confiança em Deus; é o que acontece com certas revelações de necromancia, ou de adivinhos ou cartomantes em geral. Sua origem não é o nosso intelecto, mas a influência demoníaca.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor também trabalha essa constatação de que há animais com uma capacidade de premonição muito alta, e que nos parecem prever o futuro. Vemos certas espécies de aves que passam a voar de modo diferente, e de fato depois de algum tempo começa a chover. Ora, prossegue o argumento, nossa alma inclui todas as esferas sensoriais que os animais também possuem, e ainda contém a dimensão intelectual que os outros animais não possuem. Logo, todas as aptidões que os outros animais possuem, devemos possuir em grau ainda maior. Portanto, devemos ser capazes de prever até mesmo os acontecimentos contingentes do futuro, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.  

Os outros animais têm uma relação muito mais direta com a sua própria capacidade sensorial. De fato, seus sentidos fornecem os dados brutos à memória, e esta forma a imaginação e a estimativa sem passar por nenhum filtro racional. Deste modo, sua reação é muito mais rápida, direta e precisa do que a nossa, porque não há nenhuma esfera crítica entre a percepção e a reação. Deste modo, eles são capazes de reagir a estímulos muito mais sutis de modo muito mais direto, sem precisar de nenhum discernimento.

De modo análogo, muitos humanos que não têm bom uso da razão, ou seja, não praticam o discernimento da prudência, acabam reagindo muito mais agudamente aos estímulos sensoriais do que aqueles muito intelectuais, e por isso dão a impressão de ser muito mais capazes de antever e reagir ao futuro. Mas na verdade é apenas a capacidade de estimativa natural, animal, que neles é mais aguda. Portanto, não podemos confundir a penetração da estimativa sensorial com alguma capacidade de prever o futuro. São coisas diferentes. 

3. Conclusão. 

Confiança na ciência, aceitação da animalidade em nós, integração entre corpo e alma são três características do pensar antigo que devemos retomar. Eles permitem conhecer nossos limites e capacidades na colaboração com a Providência Divina.