1. Retomando.

O futuro a Deus pertence, diz o velho ditado. Mas a ciência seria de pouca utilidade se não pudesse dar algum tipo de estimativa para o futuro. Por outro lado, se o futuro fosse completamente previsível à ciência humana, a liberdade humana estaria gravemente comprometida. Essa pretensão, de dominar integralmente o futuro, é um tema bastante explorado em filmes de ficção científica, e é sempre assustadora.

Por isso, há muito interesse em conhecer a resposta sintetizadora de Tomás de Aquino no particular. Como já disse o professor Martin Rhonheimer, o que importa não é nem tanto voltar a Tomás, como se pudéssemos desprezar tudo o que ocorreu desde o tempo dele até o nosso, mas trazê-lo até nos, de tal modo a enriquecer os debates feitos hoje. O mandato dado pelo Papa Leão XIII, na encíclica Aeternis Patris, de ir a Tomás, não deve ser entendida como uma ordem de que voltemos ao passado, mas de que possamos trazer Tomás até nós. Não é possível ler Tomás sem conhecer o seu tempo, mas também não é possível lê-lo de modo relevante sem conhecer bem o nosso. E esta é uma tarefa realmente empolgante: reler Tomás com esse espírito, o espírito de uma Igreja encarnada como Jesus um dia encarnou, mostra toda a profundidade e a perspicácia de Tomás. Isto não é algum tipo de “modernismo teológico” malicioso, mas um simples corolário do dogma da encarnação divina – que determina que, sendo o corpo de Cristo, a Igreja deve estar encarnada no tempo e no espaço, discernindo o que é bom e rejeitando o que não presta, mas não se ausentando gnosticamente do seu tempo.

Mas deixemos de demoras, vamos a Tomás.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

A resposta de Tomás começa com uma daquelas distinções geniais que ajudam muito a esclarecer a verdadeira natureza da discussão.

Aqui, ele lembra que a noção de “conhecimento do futuro” é ambígua, como era ambígua a noção de “contingentes” no artigo anterior (artigo 3) desta mesma questão. Portanto, devemos fixar bem o significado da noção de “conhecer o futuro”.

De fato, se pensamos no conhecimento do futuro como a previsão certa e infalível da situação do universo, com todo seu conjunto de coisas materiais, num dado momento do tempo que ainda não chegou, então seria impossível ao intelecto humano ter um conhecimento científico, intelectual, sobre o futuro, como ele não pode chegar a ter um conhecimento científico direto daquilo que é contingente, individual, concreto e sujeito ao tempo; debatemos isso nos artigos anteriores.

Mas há um outro sentido para a noção de “conhecimento do futuro”: trata-se de conhecer as causas finais das coisas, e prever, com certa segurança, o jogo de causalidades que incide sobre elas, em razão de todas as suas causas: materiais, formais e eficientes. Neste sentido, pelo conhecimento das coisas na universalidade de suas causas, somos capazes de ter conhecimento científico do futuro. É assim, que os astrônomos conseguem prever eclipses, ou que físicos conseguem calcular a rota de um foguete até a lua, ou biólogos conseguem lidar com a variação de populações e ecossistemas, por exemplo.

No caso, portanto, das ciências exatas, ou mesmo das ciências naturais, há um grau de segurança muito grande nas previsões que conseguem fazer, uma vez que a teia de causalidades que são objeto dessas ciências é estável e regular. No caso das ciências humanas e sociais, porém, o grau de certeza das previsões científicas é bem menor, embora ainda exista em algum grau. É que, nesses casos, parte da causalidade envolve a imprevisibilidade concreta da liberdade humana.

No entanto, diz Tomás, se tratamos do futuro tal como pode ser conhecido em si mesmo, em toda a sua contingência, em toda a sua concretude, em toda a sua riqueza temporal e espacial, somente um intelecto absoluto, pleno e inteiramente fora do tempo poderia conhecê-lo inteiramente. E a um intelecto assim nós chamamos de Deus. Mesmo os anjos, ou seja, mesmo um intelecto imaterial, mas criatural (e portanto sujeito aos limites de cognição das criaturas) não poderia conhecer o futuro, porque não seria capaz de lidar simultaneamente com todas as species em todos os tempos. Somente a ciência divina pode conhecer integralmente a contingência do futuro, como já havíamos debatido na questão 14, artigo 13, desta primeira parte da Suma. De cuja leitura os seguidores de Laplace, do qual já tratamos no texto anterior, poderiam muito se beneficiar.

3. O primeiro argumento objetor e a respectiva resposta de Tomás.

O primeiro argumento objetor nos lembra que o processo de conhecimento intelectual, em nós seres humanos, começa ali onde se completa o processo de conhecimento sensorial. Os sentidos recebem as informações concretas, na relação com o mundo material que nos cerca. A memória e a imaginação organizam essas informações em imagens do mundo, que a tradição chama de fantasmas (phantasmata); a partir desses fantasmas ou imagens mentais, o intelecto agente purifica as condições concretas de tempo e lugar em que os dados foram obtidos, de modo a chegar ao conhecimento abstrato e universal que caracteriza a forma de conhecer especificamente intelectual.

Ora, uma vez que passado, presente e futuro são condições concretas de tempo, e estas condições são abstraídas para que se chegue ao conhecimento propriamente intelectual, deve-se concluir que o conhecimento intelectual está para além das condições de tempo; portanto, pode haver um conhecimento científico válido também para o futuro, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Tomás concorda, de modo geral, com o teor desse argumento. De fato, como já vimos na resposta sintetizadora, o conhecimento intelectual, que se caracteriza pela universalidade e abstração, envolve conhecer as coisas nas suas causas. Logo, conhecendo a estrutura e a relação das causas, de modo universal e abstrato, sobre o objeto, o conhecimento intelectual nos dá condições de prever, de certo modo, o comportamento futuro das coisas, como o astrônomo pode prever com segurança a ocorrência de um eclipse. Mas não nos permite conhecer a própria contingência dos acontecimentos futuros, que dependem de causas livres e necessárias, e cujo conhecimento somente a inteligência divina pode ter.

4. Encerrando.

No próximo texto, veremos os dois últimos argumentos e as respectivas respostas de Tomás. São argumentos mais longos e complexos, e por isso merecerão uma atenção mais pormenorizada. O assunto é interessantíssimo, e tem uma atualidade muito grande.