1. Introdução.

A ciência, com sua capacidade de dominar a natureza, sempre nos permitiu viver melhor, antecipar necessidades e até catástrofes, de tal modo a minorar dores e promover prosperidade. E isso é muito bom. Mas sempre houve também uma grande tentação de desvendar o futuro, seja de modo mágico, por adivinhações, seja de modo esotérico, por mágica ou necromancia, seja por arrogância intelectual. Desta última, um grande exemplo é o pensamento de Pierre Simon Laplace, que acreditava que uma mente grande o suficiente para conhecer a posição, a velocidade e a trajetória de todas as partículas do universo seria capaz também de prever integralmente o futuro. Esta ideia, nascida da física de modelo newtoniano, criou a noção de um completo determinismo físico, pelo qual tudo o que acontece em nosso universo estaria predeterminado pela física. Mas esta visão foi superada pela própria física contemporânea, com o chamado “princípio da incerteza de Heisenberg”, que, embora trate das partículas subatômicas, insere a incerteza na nossa realidade, e limita o determinismo físico.

Em todo caso, o chamado “demônio de Laplace” teria que possuir uma mente capaz de conter a informação de todo o universo, e portanto teria que transcendê-lo de algum modo… teria que ser divina, porque é impossível, para a física, pleitear um ser tão extenso quanto o universo que fosse, ademais, capaz de conhecê-lo integralmente e pensar no que ainda não existe no tempo, ou seja, no futuro, estando dentro do próprio universo. E, de fato, não é estranho À fé a ideia de que haja uma mente onisciente, capaz de conhecer, prever e prover o universo; é a mente divina. Mas ela não induz determinismo no universo, simplesmente porque a causalidade interna do universo é real, e a causalidade divina é de uma ordem diversa, superior, não competitiva, mas criadora e mantenedora. Mas isto já foi debatido por nós quando tratamos do poder divino. O debate aqui é outro: trata-se de saber em que medida a ciência humana, isto é, nossa capacidade intelectual, é capaz de conhecer o futuro. Vamos a ele.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial, aqui, é a de que somos capazes de chegar a um conhecimento intelectual, científico, sobre as coisas futuras. Há três argumentos objetores, que tentarão comprovar esta hipótese inicial.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento lembra que o nosso processo intelectual de conhecimento envolve a abstração de todos os elementos concretos nas informações que são obtidas pelos nossos sentidos. Ora, os elementos concretos do objeto são justamente aqueles que o situam no tempo e no espaço, como esta maçã vermelha e saborosa aqui, ou aquele cão peludo que vi ontem. Quando abstraio das condições de tempo e espaço, chego a um conhecimento universal, amplo, válido independentemente das condições de tempo e lugar: a própria noção de maçã ou de cão, sua species, e não esta ou aquela maçã ou este ou aquele cão. Portanto, uma vez que o intelecto atinge esse conhecimento abstrato e universal, esse conhecimento é válido hoje, como será válido amanhã ou em qualquer tempo. Portanto, pode-se dizer que ele é um conhecimento que envolve validamente também as coisas futuras, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor parte do fenômeno, não muito raro, de que algumas pessoas, esmo com baixo nível de consciência externa, adormecidos, sonolentos, comatosos, muitas vezes são agraciados com visões e intuições do futuro que, depois, concretizam-se. Ora, prossegue, uma vez que a matéria nos torna opacos à inteligência, lentos e pesados, dificultando a operação do nosso intelecto (segundo o argumento), então estes estados de sonolência, ou comatosos, podem representar uma certa libertação para o nosso intelecto, com relação ao peso do nosso corpo material, possibilitando-nos utilizar os conhecimentos sobre o futuro que está em nosso espírito. Logo, temos conhecimento intelectual do futuro, diz o argumento, mas não o usamos ordinariamente por causa dos obstáculos corporais, conclui.

O terceiro argumento objetor.

Não há dúvida de que o nosso conhecimento é mais perfeito do que o conhecimento dos outros animais, porque somos dotados de alma intelectual, que é capaz de conhecer intelectualmente. Logo, é de se esperar que sejamos sempre capazes de superar os outros animais em capacidade de conhecimento.

Ora, sabemos que certos animais são capazes de prever coisas futuras, como certas aves que grasnam ou voam de modo diferente quando vai chover, ou mesmo animais que fogem sob a ameaça de terremotos que ainda não se desencadearam.

Ora, se os animais, apenas com o conhecimento sensorial, são capazes de perceber e conhecer eventos futuros, com muito mais razão o nosso intelecto deve ser capaz de ter conhecimento intelectual das coisas futuras.

4. O argumento sed contra.

Como argumento contrário à hipótese controvertida inicial, temos uma citação das Escrituras. Trata-se do Livro do Eclesiastes, que, em 8, 6-7, registra que “a aflição do ser humano é grande; ele não sabe o que vai acontecer. Quem pode anunciar-lhe como há de ser?”. Ora, a própria Bíblia nos ensina, portanto, que não somente não conhecemos as coisas futuras, como sequer podemos ter notícias delas.

5. Encerrando.

O velho ditado popular dizia que “o futuro a Deus pertence”. Mas, se não tivéssemos alguma capacidade de previsão científica, a própria ciência seria, em grande monta, inútil. Veremos, no próximo texto, a opinião de Tomás sobre este assunto.