1. Retomando.

Vimos, então, o paradoxo de ser uma criatura material que vive entre coisas materiais, e que portanto vive a sua própria contingência num mundo contingente, sua própria concretude individual num mundo concreto, e a natureza do intelecto como abertura ao conhecimento universal e abstrato. Vimos, então, que a hipótese inicial é simplesmente a de que não podemos ter nenhuma ciência sobre as coisas contingentes que nos cercam, o que nos deixaria, apenas, com um conhecimento sensorial e não refletido sobre aquilo que, como vimos, é justamente o objeto próprio do nosso intelecto. Acompanhemos, agora, a resposta de Tomás, que sintetizará uma solução para esse problema tão essencial.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

A palavra “contingente” não é unívoca. Na verdade, ela pode ser considerada, diz Tomás, de dois pontos de vista:

1. Como aquilo que, nas coisas, é passageiro, mutável, que não precisa acontecer necessariamente, que pode ser de outro jeito. Aquela fruta caiu da árvore sobre a lama, mas poderia ter caído sobre uma pedra, por exemplo, e ainda seria uma fruta. Aquele homem está sentado, mas poderia estar deitado ou de pé, sem que, com isso, tudo aquilo que, nele, é dignidade humana, restasse alterado. Assim, sob este ponto de vista, a noção de “contingência” se dá por exclusão da noção de permanência ou de necessidade.

2. Como um aspecto dinâmico daquilo que é essencial, necessário, permanente e inteligível. Assim, é contingente que, neste momento, eu esteja sorrindo ou chorando, mas é necessário que a capacidade de sorrir e chorar esteja em mim, que sou um ser humano. Ou ainda, eu posso estar parado ou andando, e, portanto, caminhar ou repousar são contingentes em mim; mas, se eu estiver andando, necessariamente estou me deslocando no espaço.

Como distinguir, então, aquilo que é contingente daquilo que é necessário?

A matéria e a forma como critério de distinção entre o contingente e o necessário.

O critério, diz Tomás, é a distinção entre matéria e forma, diz ele.

(Precisamos entender bem, aqui, o que são a matéria e a forma na filosofia clássica; hoje em dia tendemos a imaginar que a matéria significa aqueles elementos químicos que estão na tabela periódica, e forma é o formato ou a aparência que as coisas têm quando seus elementos se combinam de um jeito tal que elas passam a existir. Mas não era assim que os antigos pensavam em matéria e em forma, mas de uma maneira muito mais profunda. A matéria, como eles imaginavam, seria aquela dimensão da coisa que a insere no tempo e no espaço, torna-a capaz de se relacionar realmente com todas as outras coisas e de receber as transformações pelas quais ela deve passar, no curso de sua existência; a forma, por outro lado, é a estrutura inteligível que faz com que este animal aqui exista como um coelho, ao tempo que aquele outro ente é uma árvore e aquele outro, uma montanha. Todos os coelhos do mundo possuem a mesma estrutura inteligível, que pode ser estudada e compreendida, de tal modo que pode ser objeto de ciência; a matéria, por outro lado, determina que aquela capivara nascerá, crescerá e morrerá na Floresta Amazônica, ao longo de alguns anos do século XXI, sem que nenhum cientista venha a estudá-lo, ou mesmo sem que nenhum ser humano venha a avistá-la. Mas o fato de que nenhum cientista jamais vai conseguir catalogar individualmente todos os indivíduos da espécie que ele estuda não o impede de obter conhecimentos adequados sobre aquela espécie. Neste sentido, a matéria determina a concretude existencial, e a forma, a inteligibilidade universal. Posta esta pequena digressão, voltemos ao texto de Tomás).

Assim, diz Tomás, tudo o que é contingente está relacionado àquilo que muda, que não permanece, que pode sempre ser de outro modo; ou seja, com tudo o que é potencial, aperfeiçoável, modificável, na coisa. E isto diz respeito sempre à matéria: a razão pela qual uma coisa pode ser modificada, pode mover-se, pode evoluir ou mesmo desaparecer repousa no fato de que ela existe concretamente como um ente material. Uma semente, por ser material, pode vir a ser uma árvore, mas um triângulo permanecerá como uma figura geométrica fechada, de lados retos, cuja soma dos ângulos internos dá 180 graus, e será assim desde sempre até a eternidade, porque a figura geométrica que conhecemos como triângulo não é um ente material, mas um ente de razão. Pura forma. Por isso não tem, em si, aspectos contingentes: ela é necessariamente assim como está em sua definição, ou não é um triângulo.

A contingência está na matéria, a permanência, na forma.

Portanto, pelo exemplo do triângulo podemos dizer que a necessidade, a permanência, a inteligibilidade, estão sempre na forma. A forma é ato, perfeição, definição, determinação. A matéria é potência, transformação, individuação, localização, duração.

Mas a noção do universal, que é justamente aquilo a que chegamos quando alcançamos o conhecimento intelectual, é atingida quando, no processo de conhecimento, conseguimos abstrair a estrutura, a forma essencial da coisa, dos seus condicionamentos de tempo e lugar, isto é, de sua matéria individualizante. Portanto, poderíamos dizer que o intelecto busca a pureza da forma, ao tempo que os sentidos se relacionam com aquilo que tem concretude individual por existir na matéria.

Mas justamente aqui está a necessidade de superar os dualismos: nós, humanos, não temos dois aparelhos cognitivos independentes, como se tivéssemos um “aparelho sensorial” capaz de conhecer concretamente os entes materiais em sua contingência, mas incapaz de chegar à verdadeira ciência, e um “aparelho intelectual” capaz de conhecer os universais intelectualmente, mas incapaz de conhecer os entes materiais em sua concretude existencial. É como se o ser humano fosse um ente com “duas formas de conhecer” isoladas entre si. Não somos isto, lembra Tomás. Somos uma unidade, um ente que dispõe de sensibilidade pelos sentidos e inteligência pelo espírito, mas é um só ente, com somente uma forma de conhecer, que é, digamos assim, sensório-intelectual.

Assim, de fato, nossos sentidos, nossa estimativa, nossa memória e nossa imaginação exploram diretamente o mundo particularizado dos entes concretos, em toda a sua dinâmica, em toda a sua impermanência e capacidade de transformação, e somente indiretamente, pela formação das imagens ou phantasmata (fantasmas), que é a reunião ordenada dos dados sensoriais em nossa imaginação, é que esse sistema participa da produção do conhecimento intelectual. Por outro lado, o intelecto recebe essas informações sensoriais organizadas, que estão em nossa memória imaginativa, e, por meio delas, chega ao conhecimento intelectual. Portanto, o intelecto explora diretamente o mundo da permanência, da universalidade, da regularidade, da inteligibilidade, que está na abstração científica, e apenas indiretamente, pelo recurso aos fantasmas, ele alcança as coisas concretas, por meio do sistema sensorial. Mas no fim, pela integração dessas capacidades, temos um conhecimento íntegro, unitário, da realidade, em seus aspectos contingentes e necessários, porque temos capacidades sensoriais e intelectuais que funcionam em perfeita harmonia e integração.

Assim, é justamente por essa integração que nós podemos ter ciência das coisas mais universais e abstratas, como a geometria e a matemática, nas quais o intelecto atua mais diretamente e a capacidade sensorial, mais indiretamente; e ciências das coisas mais contingentes, como a biologia e a ética, em que o intelecto fará referência mais direta ao conhecimento material, obtido pelos sentidos.

3. Os argumentos objetores iniciais.

A resposta sintetizadora de Tomás é muito completa. Ele próprio a encerra dizendo que considera que os argumentos objetores iniciais estão satisfatoriamente respondidos pela sua resposta sintetizadora. Mas examinemos isoladamente estes argumentos, ao menos para rememorar e destacar as respostas.

O primeiro argumento objetor e a resposta de Tomás.

O primeiro argumento objetor lembra que Aristóteles é muito enérgico em afirmar que o intelecto e suas capacidades, relacionadas ao modo propriamente sapiencial e científico de conhecer, não se ocupam daquilo que é contingente, mas apenas daquilo que é necessário.

Como lembramos, Tomás nos ensinou que não podemos considerar a capacidade de conhecimento humano de modo isolado, sem considerar a relação entre os sentidos externos e internos e o intelecto, o que permite integrar conhecimentos sobre o que é contingente e o que é necessário, possibilitando a existência de ciência sobre o contingente.

O segundo argumento objetor e a resposta de Tomás.

O segundo argumento lembra que a contingência sempre tem relação com o tempo: é no tempo que as coisas são submetidas à geração, à transformação, à corrupção e à reprodução. Mas o tempo é estritamente relacionado à matéria, de tal modo que, como sabemos hoje, principalmente depois de Einstein r e da física quântica, o tempo é realmente uma das dimensões da matéria. Ora, prossegue o argumento, é próprio do conhecimento intelectual abstrair as condições de tempo e espaço para chegar ao conhecimento universal e abstrato. Logo, o contingente não é conhecido pelo intelecto, conclui o argumento.

Em sua resposta, Tomás já explicou que o intelecto chega indiretamente ao conhecimento do que é propriamente contingente, de tal modo que pode formar ciência sobre ele.

4. Concluindo.

Belo debate. Muito esclarecedor sobre o modo propriamente humano de conhecer. Não somente somos os únicos seres inteligentes com capacidade (ou necessidade) de passar por um processo de aprendizagem, como também somos os únicos a obter um conhecimento que integra a esfera do sensorial, que compartilhamos com os outros animais, com a esfera propriamente intelectual, que temos em comum com os anjos. Esse nosso conhecimento, que integra de modo indiviso essas duas maneiras distintas de conhecer, nos permite chegar ao conhecimento científico sobre as realidades contingentes, experimentando-as; isto dá, inclusive, um significado especial à encarnação do Verbo divino: ele tem um conhecimento experimental da vida humana, que nem os anjos, nem os demônios têm. E isso faz grande diferença em nossa santificação.