1. Introdução.
Este debate sobre os limites e modos de conhecer do ser humano são excelentes. É preciso, de fato, conhecer os nossos limites e nosso modo próprio de conhecer, e isto nos evita muitos equívocos, e permite um melhor desenvolvimento da inteligência.
O assunto aqui debatido é deste tipo. De fato, se o objeto próprio da inteligência é a própria criação, as coisas materiais da criação, mas vistas a partir da abstração de tempo e espaço, para além da individualidade, ou seja, como ideias universais e permanentes, é difícil conciliar as duas coisas: por um lado, o objeto próprio da inteligência é a criação, os entes corpóreos, mas a partir do que têm de universal, permanente, necessário, abstrato; por outro, há a constatação de que todos os seres materiais são contingentes, isto é, finitos, limitados, individualizados, sempre capazes de mudança, de não terem sido o que são, e sujeitos à corrupção.
As próprias coisas materiais, em sua individualidade, são contingentes; também o são os acontecimentos históricos e a própria conduta humana, que está marcada pela mutabilidade, pela concretude, pela liberdade. Tudo isto, sem dúvida, existe efetivamente, mas sempre poderia não ter existido, e pode vir a não existir em algum momento. Mas o conhecimento intelectual busca justamente a segurança, a certeza, a universalidade do saber.
Como podemos, então, conhecer de modo universal, permanente e imutável aquilo que é contingente, particular e mutável? É o que vamos debater aqui.
2. A hipótese controvertida inicial.
Para provocar o debate, a hipótese controvertida propõe que, dada a natureza do conhecimento intelectual como conhecimento necessário, universal, abstrato e imutável, o intelecto não pode conhecer aquilo que é contingente, passageiro, mutável. Há apenas dois argumentos iniciais, em favor desta hipótese.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor vai trazer o ensinamento de Aristóteles, que afirma peremptoriamente, na Ética a Nicômaco, VI, que o conhecimento intelectual, científico, é um conhecimento sobre coisas universais e necessárias. Assim, não pode haver conhecimento intelectual sobre coisas particulares e contingentes, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Mais uma vez, o argumento objetor, para tentar comprovar a hipótese inicial, recorre a Aristóteles, que, na sua Física, declara que aquelas realidades que agora existem, mas poderiam não ter existido, e virão a não existir, são submetidas ao tempo. Ora, todos sabem que o tempo é um dos aspectos abstraídos pelo nosso intelecto, quando alcançamos o conhecimento propriamente intelectual sobre as coisas. Portanto, se as coisas contingentes são submetidas ao tempo, e se o nosso intelecto, para conhecer, tem que abstrair o tempo, então não podemos conhecer intelectualmente as realidades contingentes, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra usa um raciocínio interessante: não há conhecimento científico, diz o argumento, que não seja conhecimento intelectual. Ora, existem ramos da ciência que lidam justamente com aquilo que é contingente, condicionado, ou seja, que poderia ser diferente, que é individualizado e particularizado pelas condições de tempo e espaço. Um exemplo disso, diz o argumento, são as ciências humanas, como a própria ética, que lida com a liberdade humana, e as ciências da natureza, como a biologia, que lida com a vida, que, por definição, é dinâmica e volátil. Portanto, existe, de fato, conhecimento intelectual daquilo que é contingente, conclui este argumento.
5. Encerrando.
No próximo texto, estudaremos a resposta sintetizadora de Tomás.
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