1. Voltando para concluir este artigo.
Encerramos o texto anterior com a ideia de que nosso intelecto não pode vir a conhecer atualmente a infinidade, isto é, não pode pensar simultaneamente na infinidade de species ou ideias universais que compõem as coisas. Isto porque nosso intelecto somente pode pensar em uma coisa, ou, se pensamos simultaneamente em muitas coisas, isto se dá porque elas se apresentam sob alguma razão comum. Não existe nem mesmo a possibilidade de que possamos ter o conhecimento da infinidade das coisas de modo habitual, da mesma maneira pela qual um professor que dorme não pensa na sua ciência, mas a mantém na mente. É que o processo de aprendizagem demanda tempo e espaço para acontecer, e não temos tempo e espaço infinitos, na nossa vida humana, para que pudéssemos conhecer absolutamente tudo. Possuímos, porém, uma capacidade, uma potencialidade para aprender que não tem limites. Mas, por nosso próprio esforço e nossos próprios limites, jamais conseguiremos atualizá-la plenamente.
Isto nos permitiu, também, fazer uma breve reflexão sobre a nossa natureza, como capaz de receber a graça elevante que pode nos permitir o conhecimento divino. A graça pressupõe a natureza, e se não tivéssemos ao menos a potencialidade para conhecer o infinito, jamais poderíamos receber de Deus a graça de vir a vê-lo. É a nossa esperança!
Agora, examinaremos os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás a eles. Ambos são interessantes, e nos ajudarão a caminhar neste assunto.
2. Os argumentos objetores e as respostas de Tomás.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor trata justamente da possibilidade de conhecer Deus. De fato, diz o argumento, já debatemos, na questão 12 desta Suma, que existe a possibilidade de que nós, seres humanos, possamos conhecer Deus. Deus é, como sabemos, superior mesmo a toda a infinidade dos seres criados. Logo, nosso intelecto pode conhecer, de modo atual ou habitual, o infinito que é Deus; logo, com muito mais razão, pode conhecer a infinidade das coisas criadas, de modo atual ou habitual.
A resposta de Tomás.
Aqui, a resposta de Tomás é bastante metafísica, e parte daquela ideia de que todo o mundo material é constituído de matéria e forma. Ou seja, é constituído da determinação estrutural (forma), que dá sentido e inteligibilidade às coisas, por um lado, e da concretude material que as faz existentes, palpáveis, individualizáveis, particulares, concretas. Para entender isto, é só imaginar duas casas vizinhas: cada uma é constituída de tijolos, cimento, madeira e vidro; esta é a matéria, que as torna existentes. Mas cada uma foi construída segundo a concepção formal de um arquiteto diferente, de tal modo que esta possui apenas um andar, três quartos e concepção mais clássica, ao tempo que a sua vizinha tem aspecto mais moderno, dois andares e quatro quartos. A planta, quer dizer, a concepção formal, de cada casa é diferente, portanto. Mesmo quando a mesma planta é utilizada para a construção de várias casas, elas são diferentes entre si, neste caso, porque cada uma é construída com seus próprios materiais, em seu próprio terreno.
Olhando para uma planta, mesmo uma que ainda não foi construída, podemos conhecer perfeitamente qual a casa que resultará dela. A planta traz em si toda a inteligibilidade da casa projetada. Mas olhando apenas uma pilha de tijolos, madeira e cimento, não podemos saber como será a casa que resultará dali: o mero acúmulo do material de construção não nos dá conhecimento da casa que será construída. De certo modo, a planta, em sua imaterialidade, traz uma capacidade de ser utilizada num número indeterminado de casas, e por isso ela é, de certo modo, inesgotável, infinita, não em inteligibilidade, mas em número. Por outro lado, o material de construção pode ser utilizado para construir quaisquer casas; mas sua quantidade é limitada, e por isso ele se esgota rapidamente, quando utilizado para fazer uma casa (como sabe qualquer um que já fez uma obra ou reforma). Ou seja, a forma é inesgotável em sua inteligibilidade, mas a matéria é ininteligível e limitada em sua quantidade, mas não em sua potencialidade.
Ora, neste sentido, Deus não é material; logo, podemos imaginar que ele é pura forma, pura ordem, pura perfeição estrutural e espiritual. Infinita perfeição. Pura inteligibilidade, portanto. Por outro lado, se imaginarmos algo como a matéria-prima (que a física de nossos dias chama de “partícula fundamental”), temos que imaginar algo privado de qualquer ordem, de qualquer significado, de qualquer inteligibilidade, justamente porque é capaz de se tornar qualquer coisa! Uma coisa assim seria tão absolutamente indeterminado que simplesmente não poderia existir por si mesma! A matéria-prima, na prática, toda a matéria-prima que pode de fato existir, está sempre compondo alguma coisa, está sempre incorporada em alguma coisa. Não existe por aí em “estado puro”; portanto, não pode ser objeto de conhecimento direto, porque não pode ser objeto de exame direito.
Portanto, Deus é plenamente determinado, plenamente perfeito, plenamente cognoscível, mas, dada a sua infinitude de perfeição, não pode ser conhecido por nós, que temos uma inteligência limitada, criatural, imperfeita. Seria, para usar de uma metáfora, como colocar uma baleia num aquário de uma criança. Por isso, nosso conhecimento de Deus é sempre indireto, indiciário, por vias ou meios lógicos que conhecemos como “vias de conhecimento de Deus”, que estudamos na questão 2 desta parte da Suma, e que podem até nos levar a saber que há Deus, mas nunca permitem conhecer quem é Deus.
Portanto, não há paralelo possível entre a possibilidade de conhecer Deus (nesta vida, pelos meios indiretos, dado o fato de que o objeto ultrapassa a capacidade de nosso intelecto, e na eternidade, pela graça, na visão beatífica) e a impossibilidade de conhecer a infinidade e a indeterminação das coisas materiais. Aqui, entra em jogo a indeterminação da matéria, que torna impossível conhecê-la em si mesma, tanto atual quanto habitualmente.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor diz que o nosso intelecto está capacitado para conhecer tudo aquilo que pode ser classificado nas categorias lógicas do gênero e da espécie. Mas há gêneros cujas espécies são infinitas, como é o caso da matemática, com infinitos números, e a geometria, com infinitas formas geométricas. Assim, nosso intelecto é capaz de conhecer coisas infinitas, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Já estudamos, na questão anterior, qual é a forma propriamente humana de conhecer, e como conseguimos adquirir conhecimento intelectual. Todo conhecimento intelectual se inicia pelo exame dos objetos, por meio dos nossos sentidos, que formam, na nossa memória, as imagens imateriais das coisas examinadas; são os chamados fantasmas da nossa imaginação. A partir desses fantasmas ou imagens empíricas, nosso intelecto agente é capaz de abstrair as species, isto é, as ideias universais que preenchem nossa mente. Ora, mesmo para conhecer números e formas, precisamos recorrer à memória e à imaginação das coisas experimentadas empiricamente, de tal modo que possamos abstrair figuras geométricas e quantidades numéricas. Assim, conhecemos realmente os números e as formas geométricas na medida que as examinamos em correspondência com a nossa experiência sensorial. Este é o conhecimento atual que podemos ter dessas realidades. Por esse exame, formamos o conhecimento habitual dessas coisas. Portanto, como não podemos fazer a efetiva correspondência entre todos os infinitos números e figuras geométricas, por um lado, e o conteúdo da nossa imaginação sensorial, por outro, o nosso conhecimento da infinidade dos números e das figuras geométricas não é um conhecimento claro e distinto de cada um deles, mas apenas uma noção, um conhecimento confuso, por dedução dos princípios da matemática e da geometria, que não pode contemplá-los um a um. Portanto, o argumento não é capaz de provar que conheçamos uma infinidade de coisas atualmente ou habitualmente.
O terceiro argumento objetor.
Dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço, diz o velho ditado da física que o argumento cita. A própria corporeidade das coisas físicas limita a sua quantidade: num mesmo espaço, apenas um número limitado de coisas corporais podem existir simultaneamente, como já comprovou qualquer pessoa que tentou entrar num ônibus lotado.
Mas com as realidades imateriais não é assim. Inúmeros pensamentos podem ocupar a mente, porque as ideias não ocupam espaço. Aqui, precisamos fazer uma diferença entre o conhecimento intelectual das realidades abstratas e universais, por um lado, e a memória das nossas experiências sensoriais, por outro. A memória tem limite de capacidade, porque é o armazenamento material de dados adquiridos. mas o intelecto não possui esse limite de capacidade, porque é uma potência estritamente imaterial, como imateriais são as ideias, os números e as figuras, dentre outras coisas. De fato, mesmo que não consigamos pensar ao mesmo tempo em muitas coisas, podemos ter inúmeros conhecimentos simultaneamente, de modo habitual (não atual), na mente, como é o caso de quem é, ao mesmo tempo, um grande engenheiro e um excelente pianista, por exemplo.
Assim, nada impediria que nossa mente tivesse um conhecimento habitual de toda a infinidade de realidades criadas, passadas, presentes e futuras, porque elas continuariam não ocupando espaço em nós, nem sobrecarregando nossa mente, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
As coisas que são corporais podem ser contadas, quando estão em algum lugar, simplesmente contando-se seus corpos, sem importar com a ordem pela qual eles entraram nesse lugar. Assim, por exemplo, o fazendeiro prende os animais no curral e os conta, sem que faça diferença qual animal entrou em primeiro lugar. Assim, para os entes corporais, é a existência dos seus corpos, sua localização, ou seja, a sua posição espacial, que os individualiza, justamente porque não pode haver mais do que um único ente num determinado ponto espacial de cada vez. Portanto, para os entes materiais, a individualização é pela posição espacial.
Mas no caso dos entes imateriais, a sua individualização não se dá pela posição espacial, justamente porque, sendo imateriais, eles não ocupam nenhuma posição no espaço. Assim, eles se individualizam pela sucessão de ocorrência: primeiro, isto foi pensado, depois aquilo, depois ainda aquilo outro. Isto se dá porque o conhecimento intelectual não entra em nossa mente simultaneamente, mas precisamos sempre aprender de modo distinto, processual, sucessivo, e, deste modo, uma ideia se distingue da outra: por ter entrado em primeiro ou em segundo lugar, e assim por diante. Ora, se é assim, conhecer intelectualmente cada ideia, cada species, demanda uma sucessão de tempo; com isso, para que conhecêssemos todas as coisas passadas, presentes e futuras, em sua infinidade, mesmo de modo habitual e não atual, teríamos que ter vivido desde sempre e nunca poderíamos vir a morrer. Ocorre que, como sabemos, os seres humanos nascem e morrem. Portanto, jamais chegarão a conhecer, mesmo habitualmente, a infinidade, passada presente e futura, da criação.
O quarto argumento objetor.
O nosso intelecto, diz o argumento de maneira correta, é uma capacidade não material, espiritual, não relacionada a algum órgão do nosso corpo. Isto foi debatido na questão 76, artigo 1. Ele é, portanto, uma capacidade ilimitada, infindável, no sentido de que não tem as barreiras de restrição que o corpo impõe, não é como uma piscina que comporta determinada quantidade de água, mas como uma fonte capaz de jorrar pensamentos sem parar. Se é assim, então nada impede que possamos conhecer uma infinidade de coisas em nosso intelecto, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Por um lado, temos a infinitude da capacidade potencial do nosso intelecto, que existe de fato. Como capacidade, como potência, nosso intelecto está aberto à infinitude. Mas, como ato, como exercício, como efetividade, ele sempre está limitado pela nossa humanidade, que é material e está delimitada no tempo e no espaço. Por outro lado, a realidade das criaturas, da criação, é, também, uma realidade atualmente limitada no tempo e no espaço, embora seja potencialmente infindável: o universo tem a capacidade de se tornar uma infinidade potencial de entes. A infinitude potencial e a limitação atual são duas características, portanto, tanto do nosso intelecto quanto da própria criação.
Mas há um sentido, de fato, pelo qual podemos dizer que nosso conhecimento intelectual comporta uma certa infinitude atual: quando conhecemos uma species, uma ideia universal e abstrata, essa species ou ideia, ou forma, aplica-se a uma infinidade de entes materiais; se conheço, por exemplo, a própria noção de “leão”, esta noção se aplica à infinidade de leões que já existiram, que existem ou que possam existir. Assim, de certa forma, o nosso conhecimento intelectual atual apresenta uma certa infinitude, neste sentido específico.
3. Conclusão.
Fascinante a relação riquíssima ente nosso intelecto e o infinito. Aqui, mais uma vez, demonstra-se a capacidade natural do ser humano, sua abertura à graça, que aperfeiçoa, mas sempre pressupõe a natureza. Um ser irracional jamais poderia ser elevado, pela graça, ao conhecimento sobrenatural de Deus, porque ele não tem, na sua natureza, a capacidade de conhecer intelectualmente, e a graça não pode elevar aquilo que não existe por natureza.
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