1. Retornando.

Todos os seres humanos tendem, por natureza, ao saber, diz Aristóteles na primeira frase da sua “Metafísica”. E, no livro Sobre a Alma, ele afirma que a alma é, de certo modo, todas as coisas, para explicar a capacidade do nosso intelecto de assimilar as coisas que conhece, transformando-se, de certo modo, nelas. Ou seja, a nossa capacidade de conhecer é ilimitada. Mas será infinita? Poderemos conhecer infinitamente? Poderemos conhecer e pensar no infinito? É isto que começamos a debater no texto anterior, e examinaremos, agora, a resposta sintetizadora de Tomás sobre este assunto.

2. A resposta sintetizadora.

Nossa inteligência é a inteligência de um ente material vivendo num mundo material; esta não é uma resposta materialista, mas realista. Nossa inteligência, não por acidente, é como que calibrada para conhecer, como objeto próprio, as coisas, os entes materiais que nos circundam, em sua identidade existencial (que a filosofia clássica chamava de quididade, quer dizer, aquilo que a coisa é; a quididade de uma maçã é ser maçã, a quididade de um cão é ser cão, e assim por diante). Ou seja, o objeto próprio da nossa inteligência é aquilo que se apresenta como material, delimitado e determinado, em sua determinação mesma. A determinação implica, portanto, finitude, porque implica que a coisa seja aquilo e nada mais.

A matéria-prima e sua indeterminação infinita.

Por outro lado, alguém poderia dizer que a matéria-prima, como substrato necessário de todas as coisas materiais, é indeterminada, e portanto, de certa forma, ela pode vir a ser uma infinidade de coisas. Mas Tomás vai nos dizer que, neste caso, a matéria-prima não é algo infinito no sentido de conter em si, em ato, todas as perfeições (somente Deus é assim). Ela é capaz de se tornar uma infinidade de coisas, isto é, ela é uma potencialidade infinita, porque, na verdade, ela não é coisa nenhuma em si mesma. E é justamente por isso que ela não pode ser conhecida diretamente: porque ela não existe como um ente!

Ela sempre existe em ato sendo alguma coisa: existe a matéria-prima que forma meu corpo, que forma as montanhas, que forma as estrelas; mas não existe uma matéria-prima totalmente indeterminada vagando por aí. Portanto, a matéria-prima tem que, sempre, ser uma coisa de cada vez: aquilo que hoje compõe uma maçã, amanhã estará nas fezes de um animal, em seguida comporá o solo, em seguida o tronco de uma árvore e assim por diante. Neste sentido, diz Tomás, a matéria é sempre um infinito potencial, porque pode compor infinitas coisas sucessivamente, mas nunca é um infinito atual.

Nosso intelecto e sua indeterminação potencial.

De certo modo, nosso intelecto também é assim: ele pode vir a conhecer um número indeterminado de coisas, e nunca vai ficar saturado; como ele é imaterial, e as coisas com que ele lida intelectualmente são imateriais também, não há limite de capacidade para aquilo que, ao longo da vida, podemos aprender. Mas essa indeterminação é sempre potencial: na prática, não conseguimos aprender nunca uma infinitude de coisas, porque dependemos de um processo de conhecimento que se estende no tempo e no espaço, e nossa vida é limitada no tempo e no espaço. Portanto, embora sejamos potencialmente capazes para aprender um número indeterminado de coisas, o fato de que nosso intelecto só consiga lidar com uma coisa (ou um conjunto de coisas) de cada vez, aliado ao fato de que o processo de conhecimento depende de tempo e espaço, limitam, na prática, essa capacidade.

A limitação atual e a limitação habitual do intelecto.

Assim, na prática, não conseguimos inteligir uma infinidade de coisas, nem de modo atual, nem de modo habitual. Quer dizer, nem podemos pensar simultaneamente na infinidade das coisas, nem sequer podemos manter, como um hábito, ou seja, como “memória espiritual”, uma infinidade de coisas. E isto se dá pelas razões seguintes:

1. Não podemos pensar atualmente no infinito. Com relação à capacidade de pensar atualmente, simultaneamente, na infinidade de coisas que existe, já vimos que nossa mente só pode ser informada por uma ideia universal, ou seja, uma species de cada vez. Ora, a infinidade de coisas se caracteriza, justamente, por ser formada por uma infinidade de species ou formas universais. Cada coisa tem a sua, e somente a sua, forma substancial, que é a sua espécie. A infinidade das coisas se constitui exatamente, segundo Aristóteles, por ser o conjunto interminável das coisas das quais podemos sempre aprender, mas nunca esgotar, ou seja, para conhecer a infinidade de coisas que existem, teríamos que ser capazes de pensar nelas, cada uma, em sua própria species, e em seguida na grande rede de conexões que existem sobre elas e, por fim, no todo que elas formam na criação, isto tudo com um só e o mesmo ato de pensamento. Somente Deus poderia ter tal pensamento em ato. Aliás, o fato de que não podemos, de que o mistério da realidade sempre pode ser mais aprendido, mas nunca se esgotará, é o que nos garante que a eternidade não será monótona para nós. Ou, pelo menos, para aqueles que puderem contemplar toda a criação a partir da visão da essência divina. Mas estamos fugindo do tema. Voltemos.

2. Com relação ao conhecimento habitual, isto é, àquele conhecimento que temos, mas não estamos utilizando agora (como um pianista continua sabendo tocar piano, mesmo que esteja de férias tomando um banho de mar), tampouco podemos conhecer o infinito deste modo. De fato cada conhecimento que adquirimos depende de um processo de examinar, experimentar, organizar, memorizar, abstrair, guardar; tudo isto ocorre no tempo e no espaço, de modo que, para conhecer infinitas coisas, ainda que como um conhecimento depositado, não atual, precisaríamos contar com tempo e espaço infinitos, para poder aprender infinitamente tudo sobre todas as coisas. E nós não dispomos dessas condições.

Portanto, não podemos conhecer a infinitude da criação (na sua indeterminação e na sua capacidade de ser e de vir a ser), nem muito menos a infinitude de Deus, nem como algo que possamos realmente, atualmente, englobar com um pensamento atual, nem sequer como algo que viesse a ser depositado em nós como um conhecimento habitual. Mas nosso intelecto nunca se farta, nunca fica cheio, nunca deixa de poder aprender; por isso, podemos dizer que potencialmente temos, no nosso intelecto, uma abertura para o conhecimento do infinito.

(Poderíamos dizer que essa abertura potencial é o que nos torna capazes de receber a graça, para vir a conhecer Deus na visão beatífica; mais um exemplo de que a graça pressupõe a natureza, ou seja, só podemos ser elevados, pela graça, para a visão beatífica porque temos a capacidade, ao menos potencial, para conhecer o infinito; mas não é este o assunto aqui, neste artigo; oportunamente, se Deus permitir, voltaremos a este assunto).

3. Encerrando.

No próximo texto, estudaremos a resposta de Tomás aos argumentos objetores iniciais.