1. Introduzindo.
O termo “infinito” não é unívoco. O que queremos dizer quando dizemos “infinito”? Algumas vezes estamos nos referindo àquilo que contém em si intermináveis perfeições, como Deus. Mas, outras vezes, estamos nos referindo àquilo que é indeterminado, impreciso, interminável, que jamais chega à conclusão, como diríamos que algo “prossegue até o infinito” para dizer que nunca alcançará repouso ou perfeição; assim, diríamos que alguém poderia circular a Terra até o infinito, para dizer que, sendo ela esférica, não haveria obstáculo para que fosse percorrida infinitas vezes. Ou que a criação pode comportar, desde seu início até sua consumação em Deus, infinitos entes, no sentido de inumeráveis, incontáveis.
A pergunta é: como nossa inteligência lida com o infinito? Como podemos conhecê-lo, ou pelo menos notá-lo, ou lidar com seu conceito mesmo? É, portanto, um tema importantíssimo: considerando que Deus mesmo é infinito, ou que a matéria pode assumir infinitas formas, trata-se de pesquisar os limites da lógica, quando lida com o infinito; vale dizer, o limite do nosso intelecto mesmo. Vamos ao artigo.
2. A hipótese controvertida.
A hipótese controvertida, ou seja, aquela proposição que pretende provocar o debate, é a de que o intelecto humano é capaz de conhecer o infinito. Há quatro argumentos objetores, no sentido dessa hipótese inicial.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
Não há limites para a grandeza de perfeição divina. Deus é infinito, no sentido mais direto e completo do termo “infinito”. Sua grandeza, sua perfeição, ultrapassa imensamente todas as perfeições criadas. Mas, como vimos na questão 12 desta primeira parte da Suma, somos capazes de conhecer Deus. Logo, se somos capazes de conhecer Deus, com muito mais razão podemos dizer que nosso intelecto é capaz de conhecer a infinidade de coisas criadas.
O segundo argumento objetor.
Nosso pensamento organiza seu conhecimento a partir das categorias lógicas dos gêneros e das espécies. Ou seja, nós somos aptos a conhecer tudo aquilo que pode ser enquadrado num gênero e numa espécie.
Mas há certos gêneros que possuem infinitas espécies, como é o caso do gênero dos números. Há infinitos números, como sabem todos os que conhecem os rudimentos da matemática. Isto ocorre também com a geometria: no gênero das figuras geométricas, há infinitas figuras, regulares ou irregulares, porque há um infinito número de lados e de ângulos com os quais essas figuras podem ser formadas. E tanto os números quanto as figuras geométricas são objeto do nosso conhecimento intelectual. Assim, o intelecto humano é capaz de conhecer uma infinidade de coisas, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Mas nada impede que duas ideias possam existir simultaneamente no mesmo intelecto, porque, uma vez que as ideias são imateriais, não se submetem a esta limitação física. E, de fato, muitas vezes ouvimos as crianças, em seus estudos, queixarem-se de que estão já com a “cabeça cheia” e não conseguiriam mais estudar, porque sua mente não “cabe” mais conhecimento; ao que os professores costumam responder: “conhecimento não ocupa espaço”. Assim, a existência de uma species universal e abstrata em nossa mente não impede a existência de infinitas outras, depositadas em nós como hábitos de conhecimento ao qual podemos sempre recorrer. Saber piano, ter o hábito de tocá-lo, não impede alguém de simultaneamente adquirir o hábito de tocar violino. Portanto, a nossa capacidade de adquirir conhecimentos habituais é infinita, conclui o argumento.
O quarto argumento objetor.
O quarto argumento nos lembra que o nosso intelecto não é a função de algum órgão corporal, mas é, ele mesmo, incorpóreo e imaterial, como vimos na questão 76, artigo 1. Portanto, ele não é como uma “caixa” que tem um limite de conter coisas dentro; não há uma limitação corporal para aquilo que o intelecto pode conter, portanto. Não há limites materiais de armazenamento, porque ele não é material. Assim, se ele tem uma capacidade sem limitações materiais, nada impede que ele apreenda em si o infinito, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento que se posiciona contrariamente à hipótese controvertida inicial vai buscar a autoridade de Aristóteles. De fato, na Física, Aristóteles, examinando os limites da nossa capacidade de conhecer, expressamente afirma que o infinito, como tal, é desconhecido por nós.
Não é difícil imaginar a razão. Nosso intelecto é criado e, ainda que possua uma abertura a todas as coisas, não é uma abertura infinita, simplesmente por ser a abertura de uma criatura, não de um deus. Não esgotar o infinito é uma marca de criaturalidade; É certo que essa linguagem, a linguagem da criação, não era conhecida por Aristóteles. Mas o seu argumento pode ser incorporado nela.
5. Encerrando.
No próximo texto, estudaremos a resposta sintetizadora de Tomás a esta questão tão interessante.
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