1. Retomando.
Não somos anjos. Nosso conhecimento do mundo, portanto, não se dá simplesmente pela posse de um conjunto de universais abstratos que vão se deparando com um mundo que se dá ao nosso poder, mas não à nossa sensibilidade; este é o modo de conhecer dos anjos. Um anjo pode saber tudo sobre uma maçã, pode agir sobre ela, pode derrubá-la, pode destruí-la, mas não pode sentir seu sabor. Pode até descrever com detalhes esse sabor, mas jamais o experimentará. Nós, humanos, por outro lado, temos um conhecimento intelectual incompleto e provisório sobre o mundo, que sempre demanda esforço e tempo para ser adquirido, mas somos capazes de integrar esse conhecimento com aquele obtido pela experimentação direta, pelos sentidos, de tal modo que, mesmo que não sejamos capazes de descrever, como os cientistas, qual é a interação das substâncias químicas da maçã com nossas pupilas gustativas que causa esta ou aquela sensação de sabor, somos capazes de sentir diretamente este sabor. Em nós, não somente o intelecto é responsável por conhecer o mundo, nem pode fazê-lo sozinho. O ser humano é um ente complexo, mas unitário: conhece o mundo, indivisivelmente, pelo conhecimento intelectual e pelo conhecimento sensível. Não são dois conhecimentos, nem dois níveis de conhecer, mas um só conhecimento, intelectual e sensível, que forma nossa capacidade de interagir com as coisas e com os outros. É isto que estamos estudando aqui: qualquer ser humano que ache que seu intelecto é suficiente para fornecer todo o conhecimento que precisa, inclusive o conhecimento sobre as coisas concretas, individuais, com que se depara todo dia, é alguém com uma visão parcial, deturpada, sobre sua própria maneira de conhecer.
Veremos isto, com muita clareza, no exame da resposta sintetizadora de Tomás. Em seguida, acompanharemos as respostas específicas que ele dá a cada argumento objetor inicial.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Tomás vai esclarecer, logo de início, que não podemos conhecer intelectualmente as coisas singulares, concretas, em sua materialidade mesma. Ou seja, se estudamos as maçãs, adquirimos ciência sobre as maçãs, mas isto não é capaz de nos fazer ter, intelectualmente, conhecimento concreto sobre cada maçã com que nos deparamos pela vida afora. Nem o cientista mais completo, nem mesmo o botânico mais qualificado, é capaz de dizer que conhece esta pequena maçã que agora me ponho a comer, apenas a partir de seu conhecimento intelectual sobre as maçãs.
A razão disso é simples, diz Tomás. É que o processo humano de conhecimento segue justamente aquele caminho de abstração que já estudamos repetidamente, e que consiste em entrar em contato, por meio de nossos sentidos externos, com as coisas concretas, materiais e, organizando a sua imagem em nossa memória, formar a imaginação com os fantasmas ou imagens mentais das coisas. Dessas imagens, nosso intelecto extrai as informações universais, abstratas, exatamente por meio da exclusão dos dados concretos, materiais, que individualizam as coisas examinadas. Ou seja, pela exclusão daquilo que, na nossa memória, se relaciona com os aspectos materiais das coisas. Isto foi estudado na questão 85, artigo 1. Ao excluir dos fantasmas seus aspectos materiais, o que resta é a ideia, ou seja, a species universal da coisa, que instrui nosso intelecto. Assim, quando examino uma, duas, dez maçãs, posso formar, em meu intelecto, uma ciência intelectual das maçãs, porque sou capaz de abstrair, dentre os aspectos que conheci nas maçãs que examinei, aqueles que são contingentes, concretos, acidentais, como a diferença de sabores, cores, tamanhos, ponto de amadurecimento, e assim por diante. Ora, se as coisas são assim, então todos os aspectos que individualizam a coisa são excluídos, quando formamos um conhecimento intelectual sobre ela. Portanto, nosso conhecimento intelectual não pode nos informar sobre uma coisa concreta, em sua materialidade, ou seja, nosso intelecto não conhece diretamente as coisas individuais. Conhecer intelectualmente significa, justamente, chegar ao conhecimento universal, abstrato, e por isto é incompatível com o conhecimento direto do que é individual, material, concreto. Nem toda ciência intelectual do mundo pode me dizer como é experimentar o cheiro e o sabor desta maçã aqui.
No entanto, somos humanos, lembra Tomás. Assim sendo, não podemos pensar em alguma coisa sem recorrer, ao mesmo tempo, ao nosso intelecto, à nossa imaginação e à nossa memória. Assim, nosso pensamento não inclui apenas as abstrações do nosso intelecto, mas sempre envolve as imagens armazenadas na memória a partir das experiências sensoriais, que originaram o próprio conhecimento intelectual, e esta é a única maneira que temos para efetivamente usar o conhecimento intelectual que armazenamos em nossa alma. Isto também foi estudado por nós na questão 84, artigo 7. Assim, mesmo o maior cientista da área da botânica somente consegue pensar em maçãs recorrendo, na sua imaginação, às maçãs que concretamente examinou e experimentou. Portanto, nosso intelecto lida, de fato, apenas com as abstrações universais que apreende, mas lida com elas sempre relacionando-as com a concretude das experiências sensíveis que guarda na memória. E, assim, mesmo que diretamente nosso conhecimento intelectual seja sempre abstrato e universal, indiretamente ele atinge as coisas individuais do mundo, porque se relaciona diretamente com a nossa capacidade sensorial, nosso conhecimento experimental e sensível acumulado pela experiência.
É fácil verificar isto: imaginemos que nos deparemos com um pequeno pedaço de cerâmica, aparentemente decorado com pequenos traços e rabiscos. Quando olhamos para ele, não vemos mais do que a sua concretude material, um pedaço de cerâmica e certos respingos de tinta. Mas, quando descobrimos que, na verdade, estes respingos de tinta são uma certa inscrição que um antigo escriba fez naquela cerâmica, e quando chegamos a conhecer aquela língua antiga, o mesmo pedaço de cerâmica agora se dá para nós como um registro de um velho poema matrimonial, e já não conseguimos dissociar a cerâmica e a tinta do significado daquelas palavras: aqui, o nosso intelecto funciona em conjunto com nossos sentidos para compreender toda a realidade daquele velho pedaço de barro cozido. E assim podemos chegar a afirmar: este pedaço de cerâmica é um poema de amor.
É assim, diz Tomás, pela associação indissolúvel, em nós, do que é concreto e sensível com o que é universal e inteligível, que conseguimos formar proposições do tipo Sócrates é um ser humano, na qual se une o nosso conhecimento sensorial de quem é Sócrates, por um lado, com o nosso conhecimento intelectual do que é um ser humano, por outro.
3. As respostas aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor, como nos lembramos, simplesmente afirmava que, se somos capazes de formar uma proposição lógica com algumas noções, é porque somos capazes de conhecer intelectualmente o conteúdo de todas as noções que compõem essa proposição. Ora, diz o argumento, somos capazes de formar uma proposição que inclua termos concretos, individuais, particulares, como “Sócrates é um ser humano”. Logo, conclui, somos capazes de conhecer intelectualmente os entes singulares.
A Resposta de Tomás.
Tomás não se dá ao trabalho de responder de novo; o problema já foi estudado na própria resposta sintetizadora, acima, à qual Tomás nos remete.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento lembra que nossos atos, nossa conduta, como seres inteligentes que somos, são regidos pela nossa inteligência; e que a inteligência, ao dirigir a vontade, funciona como razão prática, que sempre envolve, por um lado, alguma inclinação ao bem e, por outro, alguma situação concreta que deve ser discernida pela razão como boa. Ora, a razão prática lida, portanto, com bens concretos nas situações concretas, para gerar atitudes concretas. Portanto, se a inteligência é capaz de reger a conduta humana na prática, então ela é capaz de conhecer intelectualmente as coisas concretas, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Nossa razão prática funciona por raciocínios práticos, que formam um silogismo que sempre se conclui com a determinação de uma ação concreta. Ora, diz Tomás, de premissas universais ninguém pode chegar diretamente a conclusões particulares, como nos ensina Aristóteles. Logo, a razão prática sempre envolve alguma premissa concreta, que tem relação com nossas inclinações sensoriais aos bens particulares que nos deparamos nas situações concretas de nossa vida. É por isto que nossa razão prática sempre envolve nosso intelecto e nossa sensibilidade, ou seja, a inteligência e os sentidos, para determinar as condutas que podem nos levar ao bem. Assim, a razão prática realmente lida com o particular, mas o faz porque inclui os nossos sentidos, os nossos afetos, as nossas inclinações, e, portanto, não se restringe a alguma espécie de avaliação abstrata da realidade. Quando estou com fome, minha razão prática não conclui com alguma dedução de que “comer é bom”, mas aponta concretamente este ou aquele alimento disponível como adequado a me alimentar. Isto não se dá, no entanto, sem envolver nossos sentidos.
O terceiro argumento objetor.
Temos consciência de nós mesmos, isto é, somos capazes de nos contemplar e nos identificar, e mesmo de perceber e inteligir que somos seres intelectuais e até mesmo nos contemplar pensando, em reflexão. Ora, nosso intelecto, nosso espírito, é indiscutivelmente uma realidade individual. Logo, se conseguimos inteligir diretamente nosso próprio intelecto, é porque conseguimos conhecer intelectualmente as coisas singulares, em sua concretude existencial, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Nosso autoconhecimento não é completo. Não conhecemos a nós mesmos de forma completa e integral, justamente porque somos seres corpóreos, materiais, e a matéria é justamente aquilo que, dando concretude, limita a inteligibilidade abstrata e universal. Assim, muitas vezes nosso corpo nos surpreende com, digamos, alguma doença silenciosa ou alguma sensação desconhecida. Mas nosso intelecto não é material; e, justamente por ser uma capacidade de conhecimento e não ser material, ele é capaz de refletir, de pensar sobre si mesmo, sem romper a regra de que o particular nunca pode ser objeto de conhecimento intelectual direto. Poderíamos, então, dizer com mais precisão: não é que os singulares não possam ser inteligidos; é que os entes corpóreos, em sua individualidade, não podem ser inteligidos concretamente, justamente porque sua individualização pela matéria limita sua inteligibilidade – nenhum ente individual, material, pode nos informar sobre todas as características, toda a estrutura formal, daquela espécie, justamente porque, sendo concreto e material, ele apresenta apenas aspectos particulares, limitados, da sua espécie. Não estamos acostumados a pensar nisso, mas, se refletirmos bem, faz todo sentido.
O quarto argumento objetor.
Se uma criança consegue levantar um peso, é de se imaginar que um adulto saudável consiga levantar aquele peso e ainda mais. Ora, usando esta mesma regra, diríamos que, se as capacidades inferiores dos sentidos são capazes de chegar ao conhecimento das coisas singulares, em sua individualidade mesma, então o intelecto, que é uma capacidade muito mais elevada, deve poder conhecer tudo o que os sentidos conhecem e ainda muito mais. Portanto, o intelecto deve ser capaz de conhecer diretamente os singulares, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
O fato de que não conseguimos distinguir claramente, em nosso próprio pensamento, quando estamos exercitando o conhecimento sensorial de um ente singular e quando estamos exercitando o conhecimento universal do intelecto pode dificultar a compreensão do nosso modo de conhecer. Na verdade, como seres humanos, temos um só conhecimento das coisas, que é um conhecimento que combina o modo sensorial e o modo intelectual de conhecer. Quando contemplo aquela maçã, envolvo, em minha mente, não somente os dados sensoriais sobre ela (seu aspecto, sua textura, seu cheiro, seu sabor) mas também todo o meu conhecimento intelectual, que discerne que há, ali, um vegetal, algo que é alimento, que é rico em nutrientes, que pode ser cultivado e comprado numa quitanda. Mas é certo que o nosso intelecto é que tem a proeminência em nós: é ele que coordena nosso modo de conhecer, e nos apresenta as coisas, o próprio mundo, em sua riqueza perceptível, sensível e intelectível ao mesmo tempo. Portanto, podemos dizer que o conhecimento intelectual é como que a coroação do modo humano de conhecer, e supera, mas não dispensa, o conhecimento sensorial.
4. Conclusão.
É muito bom que saibamos distinguir, em nós, o que é conhecimento intelectual e o que é conhecimento sensorial, para que possamos lidar de modo mais adequado com as nossas próprias faculdades, potencializando-as. Mas não podemos incidir (e Tomás não o faz) em nenhum dualismo. Não há, em nós, um puro conhecimento sensorial, por um lado, e um puro conhecimento intelectual, por outro. O mundo só faz sentido, para nós, porque nosso modo de conhecer envolve inseparavelmente essas duas dimensões.
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