1. Introdução.
Aqui se vê o paradoxo da inteligência humana em toda a sua crueza, um paradoxo que tem levado a tantos problemas e erros pelos séculos, quanto à relação entre a realidade concreta que nos cerca – e cujo conhecimento é o objeto próprio da nossa inteligência – e o fato de que o conhecimento intelectual tem, como objeto próprio, as coisas, os entes materiais, e, por outro lado, o conhecimento intelectual se caracteriza por sua abstração e universalidade. Como se pode conhecer intelectualmente as coisas, que são singulares, contingentes e concretas, se o conhecimento intelectual se caracteriza justamente por ser abstrato, permanente e universal? A chave, como veremos, está na nossa corporeidade, que, dotada de sentidos externos e internos, nos dá acesso direto às coisas individuais. A nossa inteligência nunca funciona isoladamente da memória, dos sentidos e até dos afetos e emoções relacionados com as coisas. Somos um ser unitário, não uma alma presa num corpo.
Fixada a importância desta questão, e especialmente deste artigo, vamos a ele.
2. A hipótese controvertida.
Como sabemos, a função da hipótese controvertida é provocar o debate. Aqui, a hipótese controvertida vai simplesmente afirmar que nós podemos conhecer as próprias coisas, em sua individualidade existencial, simplesmente por ter o conhecimento intelectual sobre ela. Isto é, o nosso conhecimento intelectual chega mesmo ao ponto de conhecer inteiramente as coisas individuais, concretas, sem precisar de nenhum recurso ou auxílio da memória e da imaginação, dos dados sensoriais sobre o mundo. Ou seja, se alguém estudasse e pesquisasse, por exemplo, tudo o que existe de ciência e informação intelectual sobre as maçãs, seria capaz de conhecer perfeitamente uma maçã concreta, inclusive seu sabor, seu cheiro, sua textura, sem precisar experimentá-la com os sentidos corporais. Há quatro argumentos objetores, no sentido desta hipótese.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento afirma que toda inteligência que é capaz de formar juízos é capaz de conhecer todos os termos que estão envolvidos na proposição assim formada. Ora, prossegue o argumento, nós somos capazes de formar um juízo assim: Sócrates é humano. Portanto, é preciso concluir que nosso intelecto é capaz não somente de conhecer a espécie humana, como universal, mas de conhecer intelectualmente o próprio indivíduo “Sócrates” e formar proposições sobre ele, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor lembra que nosso intelecto tem duas maneiras de funcionar. Ele funciona pelos raciocínios lógicos abstratos para o conhecimento teórico, especulativo; mas também funciona por silogismos concretos para dirigir a ação, por exemplo: 1. Tenho fome. 2. Este pão é um bom e nutritivo alimento. 3. Devo comer este pedaço de pão.
Ora, os raciocínios da razão prática sempre envolvem impulsos específicos em direção de coisas individuais, concretas, de modo a dirigir nossa ação em direção a elas. Mas não deixa de ser uma atividade intelectual. Logo, o intelecto conhece as coisas individuais, concretas, pois pode atuar sobre elas, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Há uma característica muito interessante do intelecto humano, que é a capacidade de reflexão. De fato, nossos órgãos dos sentidos não podem sentir a si mesmos; o olho não pode se ver, o ouvido não pode se ouvir, a memória não pode se lembrar dela mesma. Mas o nosso intelecto é capaz de se conhecer, de perceber-se e perceber seu próprio processo de apreensão e até mesmo de se contemplar pensando, ou de não querer conhecer. Até mesmo pode querer o que quer, ou não querer o próprio querer. Ora, somos seres individuais. Logo, se nosso intelecto pode contemplar a si mesmo, e se somos indivíduos, isto significa que podemos conhecer intelectualmente os indivíduos, os entes concretos, conclui o argumento.
O quarto argumento objetor.
Por fim, o quarto argumento objetor usa aquele velho raciocínio de que “quem pode o mais, pode o menos”. Se a inteligência é superior, em poder de apreensão e de transformação da realidade, do que qualquer capacidade sensorial, então ela deve poder fazer tudo o que a capacidade sensorial faz, e fazer ainda mais. Ora, se nossos sentidos, se a esfera da nossa sensorialidade, consegue conhecer as coisas concretas, individuais, muito mais o pode, portanto, o nosso intelecto, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra, para justificar a impossibilidade de aceitar a hipótese controvertida inicial, vai simplesmente citar Aristóteles, que, no livro da Física, expressamente ensina que o intelecto conhece apenas os universais sobre as coisas; nossa ciência pode conhecer tudo o que há para se saber, digamos, sobre as maçãs. Mas nosso conhecimento das coisas concretas é sempre sensorial, isto é, não há outro modo para conhecer esta maçã aqui, seu cheiro, seu sabor, sua textura, a não ser pelos nossos sentidos.
5. Encerrando.
Problema colocado, debate estabelecido. No próximo texto veremos todas as respostas de Tomás sobre o assunto.
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