1. Retomando.

É muito interessante notar, na resposta sintetizadora de Tomás, as consequências do pensamento filosófico. Filosofia não é algo que se faz no ar; desenvolver, ou tentar desenvolver, uma visão de mundo completa e coerente leva a consequências muito sérias. Eu me refiro, aqui, à diferença entre a posição de Platão e a posição de Aristóteles, quanto ao conhecimento humano. Platão, postulando a existência de um reino das ideias separado do nosso mundo, desmerece, de certo modo, o conhecimento empírico, experimental, que é próprio de quem tem sentidos corporais, em prol de um conhecimento prévio, antes de nascer, que teríamos adquirido por termos vivido e absorvido as próprias ideias, em sua universalidade e imaterialidade; nossa alma, que seria um “ente” completo, cai aqui nesse mundo material e adquire um corpo por uma espécie de “punição”. Assim, o corpo nos atrapalha intelectualmente, para Platão: isto aproxima o ser humano, perigosamente, dos anjos. É como se fôssemos anjos encerrados em corpos punitivos, com uma mente que já conhece tudo, mas cujo conhecimento é ocultado pela presença do corpo material. Assim, nosso trabalho, enquanto vivos aqui na terra, é trazer de volta à mente, lembrar, o conhecimento que já tínhamos. Com isto, se seguirmos Platão, temos que concluir que já temos, em nossa mente, todo o conhecimento sobre as coisas elementares e indivisíveis, como as ideias, os princípios, as categorias lógicas em geral, e, em contato com as coisas materiais depois do nascimento aqui, descobrimos concretamente as coisas compostas, divisíveis, materiais e extensas com as quais convivemos. A ordem, para Platão, seria, tanto para nós como para os anjos, conhecer o elementar, o indivisível, o principiológico, em primeiro lugar, e, em seguida, conhecer o concreto, o composto, o extenso.

Para Aristóteles é o contrário. Não existem “ideias” vagando por aí num mundo externo e imaterial: as ideias ou formas existem apenas nas mentes e nas coisas. No caso dos seres humanos, nos começamos a existir com a nossa concepção no ventre materno. A inteligência humana nasce vazia de ideias, como puro potencial para conhecer, e, neste sentido, nosso corpo é o grande meio, o grande instrumento de exploração do mundo. Nossa capacidade de aprender dura, portanto, tanto quanto dura nossa vida corporal. Isto faz todo sentido, não somente com a fé católica, mas com a realidade dos fatos. Por isto é que nosso primeiro conhecimento intelectual é sempre dos entes concretos, reais, com que nos deparamos no cotidiano de nossas existências, adquirindo logo uma noção verdadeira e segura, ainda que indistinta e superficial, daquilo que eles são. Somente num segundo momento, a partir da reflexão cuidadosa, é que chegamos ao conhecimento analítico de seus princípios, causas e elementos; esta é a ordem adequada, esta é a ordem que acontece de fato em nós, é a ordem que Tomás nos explica aqui. E nos explicou no texto anterior, em sua resposta sintetizadora, que já estudamos.

De posse dessas informações, passamos a examinar as respostas dele aos argumentos objetores iniciais, que muito nos enriquecerão.

2. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de São Tomás.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor cita Aristóteles, que, no Livro I da Física, ensina que o entendimento e o saber nos chega pelo conhecimento dos princípios e dos elementos. Ora, prossegue o argumento, tanto princípios como elementos são indivisíveis, simples, e entram na composição das coisas que são compostas, extensas e divisíveis. E a resposta de Tomás vai citar o próprio Aristóteles que, tratando da ciência, diz que sabemos que temos ciência sobre alguma coisa quando somos capazes de conduzir os efeitos às suas causas. Assim, o que é indivisível é conhecido antes daquilo que é divisível, no sentido lógico de que ele é mais fundamental, mas não no percurso cronológico do aprender, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Tomás vai nos explicar que há uma diferença entre ser o primeiro do ponto de vista cronológico, por um lado, e ser o primeiro do ponto de vista lógico, do outro. Do ponto de vista cronológico, ou seja, a partir da ordem que as coisas acontecem no tempo da nossa vida, adquirimos, primeiro, o conhecimento das coisas compostas, extensas, concretas e divisíveis com que nos deparamos no cotidiano. Somente num segundo momento é que as estudamos mais profundamente, para chegar a conhecer seus princípios, elementos e causas. Por exemplo, observamos e conhecemos os tijolos, ao descobri-los e perceber o que são e para que servem. Somente num segundo momento é que descobrimos sua composição, o modo de fabricá-los e o modo adequado de usá-los e até de melhorá-los. Estes conhecimentos, que são todos elementares, simples, analíticos, indivisíveis, somente são alcançados por nós num segundo momento cronológico, ou seja, na sequência do tempo.

Mas, do ponto de vista lógico, ou seja, na própria estrutura da ciência, os princípios, elementos e causas são mais fundamentais, mais originários, no conhecimento das coisas. Assim, poderíamos dizer que, logicamente, sem os elementos, os princípios e as causas, as próprias coisas não existiriam, e portanto não seriam conhecidas por nós. Assim, sob o aspecto lógico, temos que conhecer primeiro aquilo que é indivisível, que não tem extensão nem composição, para podermos explicar os próprios entes, extensos, complexos e divisíveis. Por isto, a ordem cronológica de aquisição de conhecimento é diferente da ordem lógica de sua prioridade, conclui São Tomás.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor quer provar que é necessário, mesmo cronologicamente, conhecer primeiro aquilo que é fundamental, indivisível, elemento, antes de conhecer aquilo que é composto, extenso, divisível. E o faz trazendo dois exemplos: a definição de linha dada por Euclides (a linha é uma realidade divisível, mas é definida a partir de algo simples e indivisível, que é o ponto), e a noção matemática de unidade, que é necessária para definir os outros números. Assim, se não conhecermos o ponto e a unidade, que são indivisíveis, não poderíamos definir os números e as linhas, que são divisíveis. Por isso, o argumento conclui que o conhecimento do indivisível e simples vem sempre antes do conhecimento daquilo que é divisível, composto e extenso.

A resposta de Tomás.

É preciso ter muito cuidado para não confundir as definições com a própria realidade, diz Tomás. Para ficar somente nos dois exemplos dados pelo argumento, Tomás vai fazer uma an[alise desses dois casos, assim:

a) Quanto à relação entre a linha e o ponto, não podemos imaginar que a linha é um “conjunto de pontos”. Os pontos estão na linha apenas de uma maneira virtual, isto é, se conseguíssemos dividir infinitamente uma linha qualquer, seus segmentos seriam pontos. Mas, nesse caso, não haveria mais a linha. Quer dizer, quando há linha, não há ponto, e quando há ponto, não há linha. Isto fica claro no caso dos círculos, que não têm ponto inicial e final. Também as linhas infinitas deixam claro que a realidade da linha supera a realidade do ponto. Portanto, quando Euclides define uma linha como aquele comprimento sem largura limitada por dois pontos nas extremidades, ele está tratando de uma figura geométrica específica, na qual o ponto entra na condição de limite, não de parte constituinte. Por isto, podemos perfeitamente inteligir, de modo geral e indistinto, o que é uma linha, sem precisar ter, antes, a noção de ponto.

b) Quanto à ideia de que precisamos inteligir o que é a unidade para poder compreender o que é um número, Tomás lembra que o número é a medida da quantidade; nós podemos perfeitamente inteligir as quantidades sem ter a noção de indivisibilidade, de unidade. E, de fato, o fazemos: no nosso contato com as coisas do mundo, primeiro inteligimos que elas são extensas e divisíveis, e somente depois, por uma abstração que exclui mentalmente a divisibilidade é que chegamos à noção de unidade como algo fundamental, simples, que é padrão para os outros números. Portanto, também este exemplo não é capaz de determinar que tenhamos que conhecer primeiro as coisas indivisíveis para somente depois inteligir as divisíveis, mas é justamente o contrário.

O terceiro argumento objetor.

Este terceiro argumento parte da noção, comum na filosofia antiga, de que o conhecimento se dá por semelhança. Assim, nós somos capazes de conhecer as coisas porque somos feitos dos mesmos elementos básicos que elas, mas não somos capazes de conhecer Deus diretamente, porque não temos nada em comum com ele.

Se é assim, prossegue o argumento, precisamos lembrar que nosso intelecto não tem composição com nosso corpo: ele não está relacionado diretamente com nenhum órgão corporal, porque é imaterial e opera imaterialmente. Se as coisas são assim, prossegue, então o intelecto não tem extensão, é simples, indivisível e não entra em composição com nada. Portanto, ele é mais semelhante às coisas simples, indivisíveis e sem extensão do que às coisas compostas, divisíveis e extensas. Logo, se o semelhante conhece o semelhante, a mente humana deve inteligir primeiro aquilo que é indivisível e simples do que aquilo que é extenso e composto, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

É verdade que o conhecimento se dá pela semelhança, mas é preciso compreender bem de que semelhança estamos tratando aqui. A semelhança, aqui, diz respeito à capacidade que o conhecedor tem de assimilar em si a própria species, quer dizer, a forma substancial da coisa conhecida, que é o que lhe dá a estrutura. É neste sentido que conhecer é se assemelhar: quando conheço as árvores, por exemplo, assimilo em mim a forma universal e fundamental de árvore, de tal modo que a forma das árvores, que está nelas existencialmente, está em mim intencionalmente; quando penso numa árvore, trago à presença da minha mente a mesma forma universal que estrutura as árvores que existem no mundo. É neste sentido, portanto, que os antigos diziam que há uma identidade que assemelha conhecedor e conhecido. Há, portanto, uma conveniência entre a capacidade de conhecer e o objeto de conhecimento.

Isto não quer dizer, porém, que aquelas coisas que se parecem, que têm a mesma natureza, sejam mais capazes de se conhecer do que aquelas coisas que não se parecem. Se fosse assim, diz Tomás, seria mais fácil que o olho conhecesse o ouvido do que a luz; ou seja, o olho e o ouvido são similares, no sentido de que são órgãos dos sentidos; mas o objeto do sentido da visão não é conhecer os outros órgãos dos sentidos, que lhe são similares, mas conhecer a luz, que tem uma natureza completamente diferente da natureza dos órgãos dos sentidos.

3. Concluindo.

Chegamos ao fim desta questão que detalha com tanta riqueza a teoria do conhecimento em Tomás de Aquino. E aprendemos muito, convencidos de que ele tem muito a nos ensinar.