1. Retomando.
Os anjos não investigam o mundo para conhecê-lo. Eles já têm, no intelecto, todas as informações sobre o mundo. Eles não experimentam, apenas se deparam e interagem com as coisas, tendo já a ciência sobre elas. Assim, certamente conhecem de um modo muito diferente do nosso: para eles, pensar é conhecer o universal, o abstrato, o principiológico; esse é o objeto próprio do seu intelecto. A relação com as coisas se dá posteriormente, aplicando a elas o conhecimento prévio que já têm.
Conosco, a ordem é diversa: exploramos o mundo, conhecemos as coisas, chegamos a descobrir o que elas são (pelo menos numa primeira aproximação, limitada mas verdadeira), para, a partir daí, chegar a seus elementos, causas e princípios, num segundo momento de aprofundamento, raciocínio e conclusão.
Mas estamos de novo nos adiantando a Tomás. Vamos estudar a resposta sintetizadora dele.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Os modos de conhecer. O modo especificamente humano de inteligir.
Tomás vai retomar, agora, o nosso modo humano de conhecer. De fato, dentre todos os seres que têm intelecto (Deus incluído), somos os únicos que passam pela aprendizagem intelectual. Isto é próprio, portanto, dos seres humanos.
O intelecto humano é adequado para conhecer aquilo com que nos deparamos ordinariamente, ou seja, ele é calibrado para o conhecimento das coisas, dos entes materiais criados que nos interpelam e se relacionam conosco. Este é o objeto próprio do nosso intelecto: as coisas materiais, em sua criaturalidade, que são exploradas por nossos sentidos e fornecem seus dados para a nossa memória imagética (imaginação). Ora, aquilo que é o objeto próprio do nosso intelecto é, portanto, aquilo que conhecemos em primeiro lugar; a partir da exploração deste conhecimento, de seu aprofundamento reflexivo pelo caminho da formulação de juízos e raciocínios (aquele caminho que estudamos, em outros textos, sob o nome de compor e dividir), chegamos a inteligir aquilo que é mais fundamental: os princípios, os elementos, aquilo que, sem ser divisível, compõe a realidade concreta dos entes materiais.
Portanto, para descobrir a ordem com que o intelecto humano conhece, devemos, agora, estudar qual a relação entre as coisas e seus fundamentos, ou seja, entre o conhecimento do que as coisas são, em si mesmas, como extensas, complexas, compostas, e o conhecimento que deduzimos a partir daí, daquilo que é fundamento, e portanto não pode mais ser analisado, dividido, separado.
Os três sentidos da noção de “indivisível”.
Há três sentidos em que o termo “indivisível” pode ser utilizado, ensina Tomás. É preciso, pois, estudar estes três sentidos e sua relação com aquilo que é “divisível”, para poder entender melhor o que está em debate aqui, e qual dos dois tipos de conhecimento (o conhecimento daquilo que é indivisível e o conhecimento daquilo que é divisível) ocorre primeiro em nós.
São estes, então, os três sentidos do termo “indivisível”:
1) Dizemos, num primeiro sentido, que uma coisa é indivisível quando ela está inteira, íntegra, completa, embora possa vir a ser dividida no futuro. Assim, tomemos, por exemplo, um tijolo: ele é indiviso em si mesmo, enquanto for um tijolo. Mas pode ser quebrado em dois ou mais pedaços, pode ser esmigalhado e virar pó, perdendo a própria forma de tijolo. Mas, para continuar sendo o tijolo que é agora, tem que continuar indiviso. Neste caso, diz Tomás, quando nos deparamos com este tijolo, a nossa primeira apreensão é a do tijolo inteiro, íntegro, indiviso; como vimos nos debates do artigo terceiro desta questão, a primeira apreensão intelectual sobre o objeto é sempre superficial, indistinta, rasa. Somente o aprofundamento do exame do tijolo, que pode levar inclusive à sua destruição para examinar de que ele é composto, chegará a conhecer os elementos, a composição, a estrutura do tijolo. Assim, se tomarmos esta acepção de “indivisibilidade”, nosso conhecimento apreende antes a indivisão do que a divisão.
2) existe, em segundo lugar, a indivisibilidade da própria noção lógica de espécie; inteligimos logo o que é um ser humano, como algo cuja noção é una e indivisível. Somente num segundo momento, a partir de uma análise lógica, é que podemos decompor a noção da espécie em seus elementos constituintes, sem que, com isto, a própria espécie seja dividida. Assim, nossa inteligência apreende logo o que é um ser humano, embora somente mais tarde, com o uso do raciocínio e da análise, é que chegaremos a saber que o ser humano é um animal racional. Mas isto não significa que o ser humano seja um aglomerado de um animal, por um lado, e a razão, do outro. Ele é indivisivelmente animal racional, e somente do ponto de vista lógico é que conseguimos decompor estes elementos.
Estes dois sentidos da noção de indivisível são apreendidos primeiro por nós, porque são adequados à nossa inteligência; são o objeto próprio da nossa inteligência, ao apreender o ente em sua indivisibilidade existencial e lógica. Vemos um ser humano e o apreendemos como um ente indiviso (que ele é) e como um ente da espécie humana (que ele é). Só num segundo momento é que decompomos, nele, os elementos físicos e formais que o compõem.
3) O terceiro sentido da noção de indivisível diz respeito aos entes que, de fato, não são constituídos por outros elementos e princípios nos quais possamos dissolvê-los e analisá-los. Não são divisíveis nem de fato, atualmente, nem potencialmente. O exemplo, aqui, é o ponto, como figura geométrica: a própria noção de ponto é a de uma figura que não tem partes, porque não tem extensão nem pode ser dividido. Neste terceiro sentido, estamos lidando com objetos que não são objetos próprios de conhecimento para a nossa inteligência. Assim, eles só podem ser conhecidos por nós de modo indireto, pela via da privação. Para conhecer o que é um anjo, por exemplo (o anjo é um ente simples, sem partes, sem extensão corporal, e portanto indivisível), devo pensar num ente corporal inteligente (como o ser humano) e excluir mentalmente o corpo. Isto é impossível de imaginar para nós, por um limite da nossa inteligência, e é por isso que os anjos costumam ser representados figurativamente com asas, para simbolizar sua leveza imaterial. Para imaginar um ponto, que é uma figura geométrica sem dimensões, sem extensão, e portanto indivisível, tenho que imaginar, talvez, um pequeno círculo de tinta e excluir dele a sua divisibilidade e a sua extensão: o processo de privá-lo mentalmente de suas características divisíveis é o que nos permite conhecer, num segundo momento e indiretamente, aquilo que é indivisível em si mesmo.
Isto também ocorre com a noção transcendental de unidade: unidade é aquilo que, por definição, é indiviso. A noção de unidade exclui, em si mesma, qualquer divisibilidade, e por isso não é objeto próprio do nosso intelecto; o nosso objeto próprio são as coisas materiais em sua quididade, isto é, naquilo que as determina como entes, e essa corporeidade material, que lhes dá extensão, torna-as sempre divisíveis. É por isso que a noção de unidade também só é atingida por nós num segundo momento, pelo caminho da privação, com a exclusão da divisibilidade das coisas em sua concretude material.
Mas Tomás nos adverte que, para os platônicos, a nossa inteligência não funciona assim. Para ele, nossa alma viria diretamente do Reino Imaterial das Ideias, onde as ideias existem como entes puros, universais e indivisíveis. Para ele, portanto, o conhecimento do indivisível, das puras ideias, sempre precede qualquer conhecimento daquilo que é divisível no primeiro e no segundo sentidos acima. Daqui, vemos a distância entre a concepção de Platão e a de Aristóteles, neste particular, e como Tomás segue Aristóteles.
3. Encerrando.
No próximo texto examinaremos, finalmente, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais, encerrando esta longa, complexa e riquíssima questão 85.
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