1. Introdução.

Dizer que algo é divisível significa dizer que ele é composto de vários elementos, de tal modo que pode ser reduzido, de novo, a seus elementos, quando perde a sua unidade existencial. E aqui estamos num ponto em que há grande distância entre o nosso pensamento e o pensamento do tempo de Tomás. E do qual podemos ganhar muito se tentarmos entender o modo com que ele pensa.

De fato, em nosso pensamento contemporâneo, as coisas não são, a rigor, uma síntese, uma unidade substancial dos elementos que as compõem, mas uma simples reunião acidental de seus elementos. Por exemplo, se olhamos para um ser humano, pensamos logo na sua composição, de células, órgãos, ossos, acidentalmente reunidos pela evolução. Para os antigos, enquanto existisse um ser humano, seus órgãos não teriam uma existência efetiva, senão apenas virtual: a existência virtual das partes significa que, para elas existirem como substâncias, o todo de que fazem parte tem que ser destruído. Assim, enquanto nós tendemos a olhar para as coisas como amontoados de moléculas, para os antigos as moléculas que compõem um ente qualquer não existem realmente, mas apenas virtualmente, enquanto o ente existir. Nós somos, em certa medida, atomistas, enquanto eles eram substancialistas. Esta digressão é necessária para entender este artigo.

De fato, a pergunta é: o que vem primeiro, o que é mais fundamental, o que é apreendido em primeiro lugar, os próprios entes ou seus elementos, seus princípios? Será que primeiro precisamos conhecer a tabela periódica, para depois conhecer as substâncias? Precisamos conhecer a estrutura metafísica do mundo, para compreender as coisas que nele existem? É um debate interessantíssimo, num tempo em que não é incomum ouvir, por exemplo, que embriões humanos são, antes de nascer, apenas “amontoados de células”. É certo que as células são os elementos básicos de nossa biologia, mas em que sentido podemos dizer que elas são mais inteligíveis, mais substanciais, do que o próprio embrião que as contém? O que é mais evidente, a linha ou os pontos que a formam?

Vamos ao debate.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial propõe que os elementos e os princípios são conhecidos por nós, são inteligidos, primeiro do que os próprios entes e as realidades concretas que são compostas por eles. Assim, a hipótese propõe que nossa mente intelige primeiro aquilo que é indivisível, simples, elementar, antes de compreender os entes em sua composição existencial. Há três argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor vai buscar apoio em ninguém menos do que Aristóteles (que, como sabemos, Tomás chama de “O” Filósofo) que, na sua obra sobre a Física, afirma expressamente que nosso entendimento e nosso saber (ou seja, nosso conhecimento intelectual) se dá mediante o conhecimento dos princípios e dos elementos. Ora, prossegue o argumento, todas as coisas que se dão ao nosso conhecimento são compostas, isto é, constituídas pelos princípios e elementos de que Aristóteles fala, e, portanto, podem ser divididas e reduzidas a eles. Logo, o conhecimento dos princípios e dos elementos, simples e indivisíveis, vem primeiro do que o conhecimento das próprias coisas em sua composição divisível, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Conhecer, saber intelectualmente, é ser capaz de definir as coisas. Mas, para defini-las, precisamos ser capazes de lidar com os elementos e princípios que compõem uma definição: toda definição é composta e formada por aquilo que é primeiro e mais conhecido, como nos ensina Aristóteles no livro dos “Tópicos”. Ora, como sabemos, diz o argumento, as definições são formadas pela composição daquilo que é simples e indivisível, de tal modo a explicar aquilo que, em si mesmo, é divisível e composto. Por exemplo, prossegue o argumento, tomemos a definição geométrica euclidiana de “linha”: Euclides define a linha como “um comprimento sem largura, cujas extremidades são dois pontos”. Ora, a noção de ponto é mais simples do que a de linha, porque a linha é divisível, mas o ponto não o é. Portanto, sem conhecer a noção de ponto, que é simples e indivisível, não conseguiríamos construir a definição de linha. Também na matemática teríamos um exemplo análogo: a unidade é um elemento da definição de número, segundo Aristóteles. Para ele, o número é a multidão medida pela unidade. Ora, a multidão é divisível, mas a unidade, por definição, não o é. Assim, vemos que o conhecimento do que é simples e indivisível deve sempre vir antes do conhecimento daquilo que é composto e divisível, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor resgata um velho princípio filosófico já conhecido pelos antigos gregos, de que o conhecimento pressupõe uma semelhança entre o que conhece e o que é conhecido.

Ora, nosso intelecto, prossegue o argumento, é essencialmente imaterial: já vimos que nossa alma é espiritual justamente porque as faculdades estritamente intelectuais, ou seja, a inteligência e a vontade, não estão relacionadas a algum órgão corporal, mas exercem-se espiritualmente. Portanto, podemos dizer que nosso intelecto não é composto de matéria e forma, mas é simples, ou seja, é pura forma sem matéria. Como, aliás, ensinava o próprio Aristóteles.

Se é assim, e se os gregos estavam certos quanto à ideia de que a semelhança é o princípio fundamental do conhecimento, então, se nosso intelecto é essencialmente simples, ele deve ser mais apto a conhecer o que é simples e indivisível do que para conhecer o que é composto e divisível, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra também cita Aristóteles que, no livro III da obra sobre a Alma, nos ensina que a privação não é conhecida diretamente, mas conhece-se a presença e, em seguida, retirada a presença, conhece-se a privação. É o caso da escuridão, que é a privação de luz. A rigor, não “enxergamos” a escuridão, mas nossos olhos enxergam a luz e reconhecem a privação de luz como escuridão. De modo análogo, diz Aristóteles, é que chegamos ao conhecimento das coisas simples, indivisíveis. Conhecemos diretamente as coisas compostas, extensas, divisíveis e, por um processo de abstração que separa o que, na realidade, existe conjuntamente, é que chegamos ao conhecimento do que é simples e indivisível. Assim, o argumento conclui que conhecemos primeiro o que é composto, extenso e divisível, para só num segundo momento chegar ao conhecimento daquilo que é simples, indivisível e sem extensão.

5. Encerrando.

A profusão de argumentos que citam Aristóteles, tanto para confirmar como para negar a hipótese inicial, mostram não somente a influência de Aristóteles no tempo de Tomás, como o seu uso indiscriminado e sem critério, que Tomás, graças a Deus, recebe e organiza.

No próximo texto estudaremos a resposta sintetizadora de Tomás neste artigo tão importante.