1. Voltando.
Aquilo que nos diferencia (nossa capacidade de experimentar o mundo, no processo de conhecê-lo) faz parte daquilo que é físico em nós, e nos torna, a um só tempo, plurais e individuais. Plurais porque causa a riqueza de visões do mundo, a diversidade de pontos de vista e o tesouro de ciência que se espalha pela humanidade. Individuais porque, embora estruturados pela mesma forma, a alma espiritual compartilhada mesmo por Jesus Cristo, cada um de nós se insere num momento e num espaço diferente, com o qual tem que lidar prudentemente: não há discernimento que não seja pessoal.
Portanto, duas são as fontes das diferenças de intelecto que nos caracterizam: 1) as perfeições e imperfeições do nosso corpo, o que envolve a acuidade dos sentidos e a integridade neurológica e psiquiátrica, por um lado, e 2) o “capital” de tempo e espaço que cada um resolve investir naquilo que se torna oportuno, necessário, importante. Não temos tempo infinito para aprender, nem acesso infinito a todos os lugares de viver.
Assim, se alguém é dotado de mais estabilidade de humor, de mais acuidade visual, se uma memória mais precisa, certamente tenderá a ser um melhor aluno do que aquele outro que é disperso, tem algum problema auditivo ou tem uma memória menos privilegiada. Quanto aos limites de tempo e espaço, se alguém escolhe, por exemplo, ser um jurista, certamente saberá mais sobre leis do que aquele outro que escolheu ser um biólogo. Se alguém escolhe ser mãe, certamente conhecerá mais sobre criar filhos do que aquele que permaneceu celibatário. Temos que escolher o que vamos conhecer melhor, e isso implica também renunciar a conhecer melhor tantas outras coisas.
Isto poderia nos levar a conjecturar que, na vida eterna, sob o corpo glorioso, não teremos mais diferenças de capacidade intelectual abstrata, mas, é claro, seremos diferentes por causa das escolhas que fizemos durante nossa vida terrena. Lá, alguém que aparentemente sofreu graves limitações de inteligência na vida terrestre, em razão de algum limite físico, pode vir a revelar-se, na verdade, muito sábio. Mas estas especulações tiram-nos do tema. Voltemos a ele.
Estabelecidos estes princípios, voltemo-nos ao exame dos argumentos objetores iniciais.
2. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento vai lembrar que a intelecção, ou seja, conhecer intelectualmente alguma coisa, implica conhecê-la assim como ela é; se não a conhecemos tal como ela é, não chegamos a conhecê-la de modo algum, já nos ensinava Santo Agostinho.
Portanto, aprender não é algo que não tenha fim: o fim da aprendizagem é conhecer com perfeição aquilo que está sendo inteligido (nem mais, nem menos). Portanto, quando chegamos a inteligir, não inteligimos nem mais, nem menos do que a coisa é, mas justamente o que ela é. Assim, conclui o argumento, não teria sentido propor que alguém pudesse inteligir alguma coisa mais ou melhor do que outra pessoa.
A resposta de Tomás.
Tomás nem acha necessário responder diretamente a esta questão, porque já o fez na sua resposta sintetizadora. Realmente, do ponto de vista do objeto, o argumento está correto: é o objeto que mede nossa intelecção. Se eu conheço esta cadeira, não posso conhecer nem “mais” que esta cadeira, nem “menos” que esta cadeira, e neste sentido todo ser humano que vier a apreender esta cadeira, vai apreendê-la assim como ela é, ou não a apreenderá.
Mas, do ponto de vista do sujeito, precisamos sempre nos lembrar de que a apreensão pode ser mais profunda ou menos profunda, por duas circunstâncias relacionadas com nosso corpo: em primeiro lugar, pela adequação e acuidade de nossas capacidades sensoriais, nossos órgãos corporais relacionados com a imaginação, memória e senso comum, a perfeição de nossas funções neurológicas e psiquiátricas. Por outro lugar, a própria limitação da nossa corporeidade leva a que tenhamos os limites de tempo e espaço para nos dedicar à exploração do objeto, de tal maneira que a profundidade da exploração pode variar, causando diferença no nível de nossa intelecção sobre o objeto. É assim que um ser humano pode conhecer mais do que outro sobre o mesmo objeto.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento parte da noção de verdade. Como sabemos, na visão clássica a verdade é um transcendental do ser, isto é, um aspecto do próprio ser, um modo de ser relacionado com a inteligência. Para que o intelecto seja verdadeiro, é preciso que a coisa passe a existir, de certo modo, dentro da própria inteligência. Ora, com isto, queremos dizer que a mesma coisa que existe materialmente no mundo existe intencionalmente na mente, e, nessa existência, a mente é verdadeira. Se, portanto, a verdade é um modo de existir, proporcional à inteligência, relacionando-a com as coisas que ela conhece, então não pode haver graus de verdade: ou a inteligência assimilou a coisa, e portanto estabeleceu-se a verdade, ou ela não assimilou, e portanto não chegou à verdade. Logo, não poderiam existir graus diferentes de intelecção, entre mentes humanas diferentes, conclui o argumento: ou se intelige verdadeiramente, ou não há intelecção.
A resposta de Tomás.
Não há graus na verdade, porque, como vimos na resposta sintetizadora, não há graus de apreensão por parte do objeto: ou apreendemos verdadeiramente o objeto ou simplesmente não o inteligimos. Mas por parte do sujeito pode haver graus de profundidade no conhecimento do objeto, sem que, com isso, a própria verdade do conhecimento seja atingida. A verdade consiste, pois, em inteligir a coisa como ela é, mas não envolve esgotar todo o conhecimento da coisa, suas relações de causalidade, suas circunstâncias e consequências.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor lembra que somos seres compostos de matéria e forma; nosso intelecto é um aspecto nosso que é estritamente formal, ou seja, que não ocorre num órgão corporal nem se manifesta nele. Ou seja, ele deve ser rigorosamente igual para todos os seres humanos, porque, afinal, a forma humana é aquilo que se chama “espécie” (species), e nós somos todos rigorosamente da mesma espécie. Portanto, se a inteligência é uma característica da nossa forma, e portanto é algo exclusivamente da nossa espécie, e se somos todos exatamente da mesma espécie, então devemos ser todos rigorosamente iguais em inteligência. Se houvesse diferença no modo, na profundidade ou na largueza do nosso intelecto, de um ser humano para outro, isto significaria que haveria uma diferença em nossa forma humana, determinando que não fôssemos todos iguais em espécie, ou seja, cada ser humano que fosse dotado de uma inteligência diferente seria pertencente a uma espécie diferente. Mas isto não ocorre; somos todos da mesma espécie. Assim, não deve existir diferença no grau de apreensão do nosso intelecto, de um ser humano para outro, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Somos todos da mesma espécie. Não pode existir dúvida disso. Mas a individuação da espécie sempre se dá pela matéria: isto é, se, por um lado, a forma humana é a mesma para todos nós, e isto nos torna unos na espécie, por outro lado cada um de nós tem um corpo diferente, próprio, com sua própria situação no tempo e no espaço, e isto permite que haja tantos indivíduos diferentes, da mesma espécie, andando por aí.
A matéria nos individua, nos torna únicos, estabelece diferença ali onde a forma unifica. Mas a diferença que a matéria determina é apenas a diferença individual, e não a diferença de espécie: cada indivíduo tem um corpo diferente, mas pertence à mesma espécie humana.
No entanto, como já sabemos, nossa apreensão, nossa intelecção, depende essencialmente do nosso corpo, com seus sentidos, seus órgãos e suas percepções, e nosso corpo é individual e diferente. Isto determina que a intelecção se dê de modo diferente em cada indivíduo, sem que isto implique diferença de espécie entre os seres humanos.
3. Concluindo.
Posta está, portanto, a individualidade, a pluralidade intelectual do ser humano, sem nenhuma ofensa à dignidade. Somos diferentes em intelecção, mas não em espécie nem em dignidade.
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