1. Retomando o debate.
Os anjos são imateriais. Vale dizer, a única diferença que existe entre um anjo e outro é a própria capacidade da inteligência. Isto significa que tudo aquilo que um anjo tem para inteligir, e a profundidade com a qual intelige, estão definidos já no momento de sua criação. Exatamente por serem inteligências subsistentes, sua inteligência já é o que tem que ser, desde o primeiro instante. Isto explica o fato de que anjos têm graus diferentes de intelecção.
Mas os seres humanos são essencialmente iguais: temos a mesma forma, ou seja, exatamente a mesma estrutura, individualizada em corpos diversos. Isto deixa um enorme problema antropológico: se temos exatamente a mesma estrutura, e se, nos anjos, somente a diferença na própria estrutura imaterial permite explicar a diferença de intelecção, como podemos explicar que, nos seres humanos, haja tanta diferença de inteligência?
A consequência seria deduzir que não temos a mesma estrutura, a mesma forma, e portanto não temos a mesma dignidade. Cada um de nós seria um indivíduo de uma espécie única, e valeríamos tão mais, quão mais inteligentes formos. Não é preciso lembrar quais são as consequências políticas de admitir graus diferentes de inteligência para os seres humanos, como resultado de estruturas individuais diferentes: a porta está aberta para a eugenia e para a seleção artificial de indivíduos. Já conhecemos essa tragédia.
Importantíssima, pois, a explicação de Tomás, que permitirá explicar as diferenças entre nós sem ferir a igual dignidade. Isto é de um valor imenso! Vamos a ela.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Não há dois modos de inteligir a mesma coisa…
De fato, Tomás vai começar dizendo que, da parte da coisa a ser inteligida, não existe a possibilidade de que alguém a conheça “melhor” ou “pior”: ou apreendemos a coisa, ou não a apreendemos em absoluto. Se eu olho para um elefante e concluo que ali se encontra um hipopótamo, eu simplesmente não inteligi a coisa; não posso dizer que inteligi melhor do que quem pensa que ali está uma baleia, nem posso dizer que quem inteligiu de fato um elefante conheceu “melhor” do que eu. Neste caso, não há grau no erro, quando eu não chego a inteligir realmente o objeto que se dá à minha inteligência. Da parte do objeto, ou conheço ou não conheço. É neste sentido que Agostinho diz (como citado nos argumentos objetores iniciais) que conhecer “diferente” o que a coisa é significa simplesmente não conhecer a coisa.
Mas há a possibilidade de ter diferentes graus de conhecimento sobre a mesma coisa!
Mas sempre há a possibilidade de que minha inteligência possa conhecer mais profundamente alguma coisa, ou seja, conhecer a mesma coisa que outra pessoa, mas de um modo mais completo, mais profundo, mais perfeito. Neste caso, a diferença é na própria apreensão, não na coisa, nem na capacidade abstrata de inteligir. Trata-se, aqui, de uma diferença análoga àquela de quem enxerga uma árvore sob pleno sol, enquanto outra pessoa a viu somente à noite, mal iluminada pelo luar.
As duas maneiras pelas quais a intelecção pode variar.
Uma vez que somos todos estruturados pela mesma forma, que é a espécie humana, não é na própria alma espiritual que vamos encontrar a razão dessa diferença no inteligir; ela deve estar, portanto, relacionada com a capacidade física. A alma espiritual humana e aquilo que nos une, que nos iguala. Devemos procurar, portanto, essa diferença nos aspectos materiais do nosso ser, que são aqueles aspectos que nos individualizam, que nos separam. Assim, encontramos razões para a diferença de capacidade intelectual: 1) nos limites de nosso corpo e 2) Nas nossas habilidades sensoriais. Estudemo-las.
As características e limites corporais.
O primeiro motivo na diferença de intelecção está, portanto, em nosso corpo. De fato, se estamos indispostos, adoentados, se portamos alguma patologia ou má formação que dificulte a operação corporal, certamente teremos mais dificuldade de aprender, de conhecer, de pensar mesmo. Daqui podem decorrer as dificuldades de aprendizado, as deficiências neurológicas e psiquiátricas que podem reduzir a capacidade de aprendizagem e o benefício que a atividade de exercitar-se fisicamente pode trazer à nossa capacidade de aprendizagem. Mas há outra maneira pela qual a nossa corporeidade limita nossa capacidade de aprendizagem: ela nos insere no tempo e no espaço. Assim, disponho de um tempo limitado para me dedicar a aprender, e disponho de acesso limitado aos meios de aprendizagem devido à minha localização espacial. Não adiantaria estar no interior do Brasil e resolver fazer um largo estudo empírico, digamos, sobre o Monte Fuji, no Japão, se eu não tenho recursos nem tempo para chegar até ele. E, se eu dedicar meu tempo e recursos para estudá-lo, não posso, ao mesmo tempo, querer me tornar especialista em Cordilheira dos Andes.
A maior capacidade sensorial.
Além disso, ou seja, além do fato de que os limites corporais decorrentes de patologias e deficiências físicas ou neurológicas podem limitar minha efetividade intelectual, e do fato de que ser corpóreo implica inserção e limite de tempo e espaço, há o indiscutível fato de que todo conhecimento intelectual que podemos adquirir depende de uma adequada aquisição de conhecimentos sensoriais, da organização desses conhecimentos e da disponibilidade deles na memória; ora, em tudo isso a capacidade humana pode variar, porque estas aptidões são corporais. Assim, alguém pode ser dotado de uma acuidade visual maior, outro pode ter uma memória prodigiosa, outro ainda pode ser dotado de ouvido absoluto ou de um paladar refinado. Tudo isto facilitará enormemente o processo de intelecção nessa pessoa, tornando-a capaz de uma intelecção mais profunda do que seus semelhantes.
3. Encerrando.
Depois desta lição maravilhosa, que explica as diferenças humanas sem prejudicar em nada nossa dignidade comum, acompanharemos a maneira que Tomás enfrenta os argumentos objetores iniciais, em nosso próximo texto.
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