1. Introdução.

No texto anterior, estudamos a confiança na capacidade do intelecto humano, sua aptidão para inteligir aquilo com que se depara e conhecer os primeiros princípios do pensamento, de modo que, dadas as condições orgânicas mínimas, somos todos capazes de conhecer minimamente, com segurança, o mundo que nos cerca e os princípios mínimos para manter um diálogo.

Mas isto nos faz ter que pensar sobre outra questão: se somos todos capazes de inteligir, como podemos explicar o fato de que alguns parecem saber mais do que outros? Se o intelecto é essa luz, esse instrumento capaz de chegar ao conhecimento, uma vez que seu objeto se apresenta a ele, como explicar que alguém seja capaz de conhecer mais profundamente, mais adequadamente, seu objeto, do que outros?

Por outro lado, é indiscutível que há pessoas mais bem informadas, mais intelectualmente preparadas, do que outras. É preciso explicar isto.

Eis o debate que se põe aqui.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial, que quer nos provocar para o debate, é justamente a de que todos nós, humanos, somos capazes de conhecer intelectualmente as coisas de um modo estritamente igual; dadas as condições para inteligir, não haveria a possibilidade de que alguém soubesse mais sobre a mesma coisa que outros. Ou seja, a hipótese é a de que ninguém pode inteligir a mesma coisa mais do que outra pessoa. Há três argumentos objetores, que tentam confirmar esta hipótese inicial, e um argumento sed contra, que procura contradizê-la. Vamos a eles.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor vai citar Santo Agostinho. Numa de suas obras, o grande santo registra que conhecer é inteligir uma coisa exatamente como ela é; se a inteligimos de modo diferente do que ela é, não chegamos a conhecê-la de verdade. Esse conhecimento, em que o objeto do conhecimento se ajusta perfeitamente à inteligência de quem conhece, é o conhecimento perfeito, adequado, da coisa. Não seria possível, diz o santo, conceber algum tipo de conhecimento que superasse essa intelecção perfeitamente adequada. Assim, não podemos imaginar que conhecer é uma atividade infinita, ou seja, que sempre podemos saber mais e mais sobre a coisa, superando inclusive a perfeita adequação entre o sujeito que conhece e o objeto conhecido. Portanto, uma vez alcançada a intelecção adequada, ela não pode ser superada: já se atingiu a perfeição no conhecimento. Por outro lado, se alguém tem uma intelecção que ainda deve ser aperfeiçoada, ele ainda não atingiu a intelecção adequada, e portanto não chegou a conhecer a coisa de verdade. Assim, não há como conhecer alguma coisa mais ou melhor do que outra pessoa: trata-se apenas de conhecê-la perfeitamente, por um lado, ou de simplesmente não conhecê-la de modo algum, por outro, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento também vai na mesma linha da adequação entre a mente que conhece e o objeto conhecido; a verdade, diz o argumento, não é algo suscetível de graus. Algo é conhecido verdadeiramente ou não é conhecido de modo algum. Assim, não se poderia admitir um conhecimento mais verdadeiro do que outro, apenas o conhecimento verdadeiro ou o conhecimento falso. Portanto, não se pode admitir que alguém conheça alguma coisa com mais profundidade que outra pessoa, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Nós já vimos que o ser humano é um ente composto de matéria e forma; ora, é a forma que dá a identidade humana, mesmo porque o intelecto, como já estudamos, é uma realidade estritamente formal, espiritual, imaterial no ser humano.

Mas quando há diferença na parte formal de algum ente, em comparação com outro ente, isto significa que estamos diante de dois entes de espécies diferentes. É que a forma é responsável pela estrutura do ente; e seres com estruturas diferentes são seres de espécies diferentes.

Uma vez, pois, que o intelecto é estritamente formal, se a capacidade de intelecção num ser humano fosse diferente da capacidade de intelecção em outro ser humano, isto significaria que haveria diferenças de forma, diferenças estruturais mesmo, entre um ser humano e outro, e isto significaria que cada ser humano que entendesse com maior ou menor profundidade um objeto de conhecimento qualquer pertenceria a uma espécie diferente. Mas, uma vez que todos os seres humanos são da mesma espécie, então não pode acontecer que nossa intelecção seja diferente de uma pessoa para outra, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

Colocados, então, os argumentos que tentam comprovar a hipótese controvertida inicial, é hora de colocar o argumento que se opõe a ela.

No caso concreto, é um argumento de simples experiência, que traz a autoridade da observação diária: é indiscutível que há pessoas que conhecem mais determinadas coisas do que outras. Assim, diz o argumento, existe o conhecimento daqueles que se informam superficialmente sobre o objeto, e são capazes de explicá-lo a partir de suas causas imediatas, próximas, facilmente observáveis. Como o caso daquele que, vendo um animal aquático qualquer, e julgando apenas pelo formato do seu corpo, não sabe dizer se ele é um peixe ou um mamífero, embora saiba que é um animal aquático, e até conheça muita coisa sobre ele, como seu habitat, sua forma de nadar, sua textura, dentre outras coisas. Não é capaz, porém, de chegar a conclusões profundas sobre as causas que estão envolvidas neste objeto, suas primeiras causas, quer dizer, suas estruturas e relações mais fundamentais. Isto evidencia que há graus de conhecimento sobre as coisas, e que as pessoas atingem graus diferentes no conhecimento dos objetos.

5. Encerrando.

Os elementos estão dados, e o debate encontra-se estabelecido. No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás.