1. De volta.

A importância deste artigo é enorme – inclusive política. Somente a confiança na inteligência humana, na sua capacidade de inteligir retamente, ao menos a inteligibilidade básica das coisas, e de compreender e aplicar os primeiros princípios da lógica, de tal modo a poder raciocinar com um mínimo de habilidade, podem sustentar qualquer princípio democrático. Somos dotados de um mínimo de habilidade intelectual, que nos permite discernir, ao menos, as informações básicas sobre as coisas do mundo e os princípios básicos da lógica. É certo que os raciocínios mais complexos, ou a ciência das causas e da complexidade das relações do mundo dependem de um tipo de investigação mais profundo, que está sujeito a erros e falhas e não chega a ser alcançado por todo mundo. Mas, para a inserção básica do ser humano no mundo, nosso intelecto é capaz de inteligir sem falhas. Podemos, pois, confiar não somente no nosso intelecto, quanto na inteligência fundamental dos nossos semelhantes.

É certo que alguns incidentes posteriores no campo da ciência, como a proposição do heliocentrismo, levaram a uma certa desconfiança no chamado “senso comum”. Mas há, aqui, um mal-entendido, um certo pessimismo que resultou numa apropriação da razoabilidade pelos grandes cientistas e filósofos: na verdade, no entanto, os erros em geral que possibilitaram a onda moderna de pessimismo nunca foram erros no senso comum propriamente dito: para os fins da vida cotidiana, a inteligibilidade básica sempre foi suficiente. A desconfiança deveria ser dirigida, isto sim, àqueles que lidam com os raciocínios complexos e a ciência profunda. As pessoas em geral sempre inteligiram adequadamente aquilo que é necessário à sua sobrevivência e ao seu trato com o mundo cotidiano. A posição de Tomás é democrática, mas o pessimismo da modernidade é, ao contrário, elitista e aristocrático.

Mas estamos nos alongando; vamos voltar ao artigo.

2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor entra na questão dos chamados “transcendentais do ser”. Esta doutrina medieval foi bastante esquecida por nós, e é de importância fundamental para entender o mundo. De fato, todas as coisas que há no mundo podem ser classificadas dentro de alguma espécie, que, por seu turno, pode ser incluída dentro de algum gênero; há, porém, algumas categorias que não podem ser incluídas em gêneros ou espécies, porque estão presentes acima e além das espécies e dos gêneros. É o caso da própria noção de ser: tudo aquilo que nós nos deparamos é, ou seja, o ser está para além das espécies e dos gêneros, e envolve o próprio Deus. Do mesmo modo o bem: eu posso dizer: este automóvel é bom, minha mãe é boa, este chocolate é bom, e estas são características que superam todos os gêneros e as espécies. Também a verdade é um desses transcendentais: eu posso dizes: esta árvore é verdadeiramente um ipê, ou posso dizer que aquela pedra não é ouro de verdade. A verdade e a falsidade, portanto, também são transcendentais. Os transcendentais não são aplicados às coisas de modo unívoco, porque uma mãe não é boa do mesmo modo que um chocolate é bom, ou Deus não é verdadeiro do mesmo jeito que um relógio de marca ou uma obra de arte pode ser. Os transcendentais também não são meros rótulos, metáforas ou formas de falar, de tal modo que a bondade de um santo fosse algo completamente diferente da bondade de um prato de comida apetitoso. Ou seja, os transcendentais, mesmo não sendo unívocos, tampouco são equívocos: eles são ditos analogicamente, isto é, em proporção com a realidade da coisa da qual eles são ditos.

Ora, os transcendentais às vezes expressam uma relação, como no caso do bem e do verdadeiro. Mas, no caso do bem, é a própria coisa que atrai nossa vontade: assim, uma boa maçã abre o apetite, mas uma maçã apodrecida, mofada, estragada, causa apenas repugnância. É por isso que os antigos diziam que o bem está na própria coisa: a maçã, ela própria, é boa ou má conforme esteja ou não adequada para o consumo.

A verdade, por outro lado, não está na coisa, mas na mente que conhece. Quando eu afirmo que aquele diamante ali é falso, o que eu quero dizer é que ele não corresponde ao que a minha mente conhece como diamante. Isso não altera em nada aquilo que ele é em si mesmo, quer seja ele um belo cristal lapidado, quer seja um pedaço de vidro habilmente manufaturado. É por isso que a filosofia clássica dizia que a verdade e a falsidade não estão na coisa, mas na mente. É a mente, portanto, que, ao formar uma noção errônea do que existe, descobre, depois, que aquilo que sabia ou esperava sobre a coisa é simplesmente falso.

Ora, se é assim, é necessário admitir que a mente se engana, ou seja, que a inteligência pode falhar. De fato, é uma experiência comum que vejamos coisas falsas, afirmações falsas, enganos e erros a todo momento. E isto só pode acontecer porque a inteligência humana pode falhar, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Não há dúvida de que a falsidade é uma inadequação entre o objeto de conhecimento, na mente, e a coisa conhecida. Não há dúvida de que essa inadequação se dá na mente. Mas ela não se dá na simples apreensão de que a coisa é, e de que ela é alguma coisa: essa apreensão é sempre verdadeira, sempre adequada. A falsidade se dá no raciocínio posterior, que constrói hipóteses sobre a coisa e a investiga mais profundamente, quanto à sua composição e sua rede de causalidade. No exemplo do ouro falso, não é a apreensão de que estamos frente a uma pedra, a um minério, e que esse minério possui qualidades que o fazem brilhar, que é falsa. É quando construímos a hipótese de que isto é um metal precioso, de que pode ser ouro, algo que demanda um exame mais aprofundado, que pode me levar ao erro ou à falsidade. Portanto, podemos confiar na nossa inteligência, mas devemos sempre manter muita atenção com nossas investigações e raciocínios. Que buscam aprofundar as apreensões iniciais.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor vai mais para o lado da lógica, entendida como estrutura do pensamento. De fato, dentre os modos de pensar sobre a realidade, podemos formar opiniões ou construir raciocínios. Ora, sabemos que tanto as opiniões quanto os raciocínios podem levar ao erro: há opiniões e raciocínios falsos. Mas tanto as opiniões quanto os raciocínios são intelecção, existem sempre na mente, são o próprio intelecto em ação. Logo, o intelecto pode ser falso, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Como sabemos, a confiança na infalibilidade do intelecto diz respeito àquelas apreensões simples da quididade das coisas e dos princípios fundamentais da lógica. Ou seja, a apreensão daquilo que nos cerca e os princípios que regem os raciocínios necessários à vida ordinária, na percepção geral da informação intelectual necessária à vida ordinária. Essa infalibilidade não se estende, portanto, a raciocínios e opiniões, nos quais investigamos aspectos da realidade que não se dão ao primeiro exame. Aqui pode haver erro, falha, falsidade, como foi explicado na resposta ao primeiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor é mais propriamente teológico. De fato, o pecado é, acima de tudo, aquela conduta errônea praticada com conhecimento e vontade, isto é, uma realidade do nosso intelecto. Mas o pecado é algo errado por definição, e portanto demonstra uma falsidade no intelecto de quem o comete. É assim que de exprime, por exemplo, o Livro bíblico dos Provérbios, quando pergunta (14, 22): por acaso não se equivocam aqueles que praticam o mal? Portanto, pode haver falsidade no intelecto, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

O erro dos que pecam, sua falha, a falsidade do seu intelecto, não consiste numa apreensão errônea das coisas que se apresentam diretamente a eles, mas numa falha de raciocínio, de ordenação da inteligência aos apetites, quando se depara com aquilo que atrai. A falha consiste, pois, em desenvolver juízos equivocados sobre a bondade daquilo que nos atrai, mas não na simples apreensão intelectual da realidade que se nos interpela para ser conhecida. Aqui não pode haver falsidade, e disto sabem muito bem os autores bíblicos.

3. Conclusão.

Depois desta aula de confiança no intelecto humano e sua capacidade de aprender corretamente aquilo que o interpela diretamente, sabemos que há algo que nos iguala: somos todos dotados de uma inteligência capaz de captar a verdade do mundo e construir raciocínios válidos sobre ela. Mas a nossa investigação procede: se somos todos dotados desta mesma capacidade comum, como podemos explicar que alguém possa vir a conhecer mais profundamente a mesma coisa que alguma outra pessoa também conhece? Veremos isto no próximo texto.