1. Retomando.
O nosso intelecto depende de muitas condições prévias para inteligir. Depende da exploração do mundo que fazemos com nossos sentidos, depende de uma boa memória, depende do senso comum que organiza dos estímulos sensoriais como imagens organizadas nesse tesouro que é a nossa imaginação, mas depende também do nosso humor, das nossas paixões, uma vez que estados como a ira ou a inclinação amorosa podem influir na intelecção. Nossa mente depende, inclusive, da confiança que podemos depositar nos outros, uma vez que, quando desconfiados, tendemos a nos fechar para a intelecção. Mas, uma vez que os pressupostos tenham sido devidamente organizados, o nosso intelecto é capaz de lidar bem com as informações, e chegar a conhecer, quanto ao objeto, pelo menos que ele é algo, e que algo é este que ele é: sua quididade, mesmo que de modo inicialmente pouco profundo. Nosso intelecto humano é sempre perfectível, porque sempre se pode conhecer mais. Mas ele é, sobretudo, confiável: aquilo que se apresenta para ser conhecido será, de fato, conhecido. Este otimismo intelectual de santo Tomás possibilitou o grande desenvolvimento intelectual que o Ocidente atingiria nos séculos seguintes. Mas não nos adiantemos: estudemos agora a resposta sintetizadora que ele nos oferece sobre este assunto.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Quando estuda o modo pelo qual o intelecto apreende seu objeto, na obra Sobre a Alma, Aristóteles faz uma analogia entre o intelecto e os sentidos, usando a noção de objeto próprio. Como sabemos, o objeto próprio é aquele objeto cuja relação com a respectiva potência é direta e adequada; assim, cada sentido tem seu objeto próprio, que são os chamados “sensíveis próprios”. O sensível próprio da visão é a cor, o sensível próprio da audição é o som, o sensível próprio do paladar é o sabor e assim por diante.
Os sentidos e sua confiabilidade.
Mas, além dos sensíveis próprios, existem os sensíveis comuns e os sensíveis por acidente. É o caso do tamanho: ele é um sensível comum, porque é avaliado, em nossa mente, a partir dos dados obtidos por diversos sentidos, como a visão e a audição. Quanto aos sensíveis por acidente, dizem respeito a aspectos da coisa que, embora sejam sensíveis próprios de um dos sentidos, podem emitir estímulos a outro sentido, de tal modo a permitir conclusões indiretas sobre eles. Por exemplo, os olhos podem ver um carvão emitir uma cor vermelha muito intensa e brilhante, e disto podemos deduzir que o carvão está quente; o calor não é um sensível próprio da visão, mas do tato. Logo, neste caso, a cor do carvão em brasa é um sensível por acidente, para a visão, quanto ao calor.
Os sentidos, diz Aristóteles, normalmente não se enganam quanto aos seus sensíveis próprios; um engano do sentido quanto aos respectivos sensíveis próprios decorrem sempre de algum tipo de patologia ou defeito que atingiu aquele sentido, mas nunca do próprio sentido. Assim, se o paladar não consegue sentir o sabor doce do açúcar, por exemplo, podemos imaginar que há algum tipo de anomalia com aquela língua. Ou se os olhos não conseguem discernir as cores, ou os ouvidos, os sons, podemos estar certos de que há alguma patologia ou anomalia envolvida nos órgãos materiais do corpo humano que realizam a percepção sensorial. Mas órgãos perfeitos e saudáveis são sempre capazes de discernir adequada e perfeitamente seus sensíveis próprios. O mesmo não ocorre com os sensíveis comuns ou com os sensíveis por acidente: nestes, o sentido pode se enganar, e podemos confundir, por exemplo, óleo com mel a partir da sua cor e textura, ou errar quanto ao tamanho e a distância de um objeto qualquer (e é por isto que, em alguns automóveis, há um aviso no espelho retrovisor: “atenção, os objetos podem estar mais próximos do que aparecem aqui, devido à curvatura do espelho”). Poderíamos dizer, então, que os sentidos são infalíveis quanto ao seu objeto próprio, se não houver nenhum obstáculo de ordem corporal ou patológica.
O intelecto e sua confiabilidade.
Ora, o objeto próprio do intelecto é a inteligibilidade da coisa quanto àquilo que ela é, isto é, à sua quididade. Quando inteligimos o objeto, chegamos de fato a abstrair (ainda que inicialmente de modo incompleto e geral) o que a coisa é. Não há, aqui, engano ou erro possível. E na intelecção não pode haver erro porque, uma vez que a inteligência humana não é uma função corporal, mas puramente intelectual, ela não pode ser impedida por patologias ou defeitos materiais.
Portanto, de um modo análogo àquele pelo qual os sentidos, quando saudáveis e bem desenvolvidos, não se enganam quanto ao seu objeto próprio, tampouco o intelecto pode se enganar quanto ao seu objeto próprio, que é saber o que é a coisa que o interpela. Com a diferença de que patologias e problemas de desenvolvimento corporal somente atingem o intelecto de modo indireto, porque ele é essencialmente incorpóreo.
Mas é preciso ter muita atenção com os limites dessa infalibilidade intelectual. Ela diz respeito simplesmente a perceber o que as coisas são; não envolve perceber suas causas, suas relações, o jogo complexo que dinamiza o mundo e envolve as coisas com seu próprio caminhar e, além disso, umas com as outras. É simples perceber que um círculo é um círculo, ou notar o que são os cães ou as galinhas. As crianças são capazes de fazê-lo de forma acurada. É neste nível, portanto, que o intelecto não nos engana nem falha. E é o que basta para a nossa inserção intelectual no mundo. Percebemos as noções mais básicas, sabemos sobre as coisas que nos cercam, somos capazes de saber que isto é isto e não aquilo, que um cão não é uma vaca ou que um triângulo não é um círculo. Somos capazes de perceber intelectualmente, também, de modo reto e tranquilo, os primeiros princípios lógicos, como o princípio da identidade e da não contradição: é por isto que os truques de mágica podem nos encantar desde muito cedo: eles pressupõem que conheçamos, por um lado, os princípios lógicos citados e que tenhamos a intuição de que eles não podem ser negados. Por outro lado, intuímos que o truque mágico também envolve o respeito a estes princípios, embora o artista tenha a habilidade de fazer parecer que eles foram violados. Se acreditássemos que os princípios lógicos não são consistentes, os mágicos não nos encantariam: eles simplesmente agiriam naturalmente, a partir de uma realidade em que a falta de consistência lógica permitiria a contradição e a descontinuidade. A nossa inteligência, quando se depara com um truque de mágica, dada a sua infalibilidade quanto ao seu objeto próprio, sabe que o truque é apenas uma ilusão, e se encanta com a habilidade de produzir essa ilusão.
Portanto, aquilo que se apresenta imediatamente à inteligência (a consistência das coisas, sua identidade, sua “coisidade”, digamos), bem como as regras fundamentais da lógica e do funcionamento da realidade, são infalivelmente apreendidos por todas as inteligências, assim que podemos refletir sobre elas. E é isto que permite a nossa convivência humana básica: a constatação de que compartilhamos a mesma confiabilidade fundamental da inteligência. A apreensão básica das coisas e a apreensão básica das habilidades do pensamento e do raciocínio. Não é pouco.
Os limites da confiabilidade do intelecto humano.
No entanto, a realidade vai muito além da mera apreensão intelectual inicial do que as coisas são, bem como das regras básicas do raciocínio lógico. De fato, uma vez que há uma multiplicidade de aspectos em todas as coisas, há também uma contingência nas informações que nos chegam a cada momento e, principalmente, há um jogo de causas e consequências nas coisas, nas suas relações, que podem levar o intelecto a perder-se no caminho. De fato, se essa primeira apreensão da quididade e dos princípios básicos é infalível, a apreensão da complexidade do real, da trama de causalidade, da composição das coisas e de suas redes de relações pode enganar nosso intelecto. De fato, o intelecto pode se enganar de duas maneiras, diz Tomás:
1. Ele pode inteligir corretamente, apreender a definição de alguma coisa, ainda que numa primeira apreensão; e, em seguida, ele pode aplicar essa definição a alguma coisa diversa, que não corresponde a ela. Conhecer os cães e aplicar a definição de cão aos gatos ou, no exemplo que o próprio Tomás apresenta, conhecer corretamente a definição de círculo e aplicá-la aos triângulos.
2. Ele pode chegar a uma definição falsa ou impossível, a partir de erros de raciocínio ou da composição equivocada de elementos de alguma coisa que, em si mesma, é composta. Assim, alguém pode juntar a definição de peixe com a definição de ser humano e acreditar falsamente que sereias existem.
Isto não torna o intelecto pouco confiável. Nem o transforma em algo traiçoeiro. Podemos confiar nele. Podemos confiar na capacidade humana de intelecção, em nossa capacidade de raciocinar. Mas, por outro lado, devemos manter sempre a humildade: podemos errar, se não formos capazes de caminhar adequadamente nas vias intelectuais. Humildade é, portanto, a capacidade de reconhecer o erro e voltar à verdade.
3. Encerrando.
No próximo texto, examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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