1. Introdução.

A questão do erro na intelecção é um tema muito interessante. Aqui é o lugar em que vemos a confiança de Tomás na capacidade humana; de fato, como alguém já disse, Tomás concebe o intelecto como luz, de modo analógico ao próprio intelecto divino. Neste sentido, a luz não pode deixar de iluminar aquilo em que ela incide; pela mesma metáfora, Tomás concebe que o intelecto não pode deixar de inteligir aquilo que, sendo seu objeto próprio, cai sob sua luz. E o objeto próprio do intelecto humano é a “quididade” das coisas materiais que o interpelam. Ou seja, quando o intelecto é interpelado pelas coisas, dadas as condições normais, ele chega infalivelmente a descobrir o que as coisas são (sua quididade, para usar a nomenclatura clássica), ainda que não completamente e não de uma vez só. Se eu aponto uma lanterna para uma caverna escura, a luz não pode deixar de iluminá-la.

Mas nós temos a experiência pessoal da falsidade no conhecimento intelectual. Sabemos que, eventualmente, erramos. Mas qual será a causa desse erro? Não pode ser a própria luz do intelecto. O erro consiste em que ela não tenha sido devidamente apontada para seu objeto próprio. É exatamente isto que debateremos agora: de onde vem a falha, o erro, a eventual falsidade na intelecção? A fonte do erro é algum defeito no próprio intelecto, que pode se enganar e nos enganar? Ou será que algum outro ponto do processo de conhecimento será o responsável pelo eventual erro ou falsidade no conhecimento?

Vamos ao debate.

2. A hipótese controvertida.

A hipótese controvertida, aqui, é exatamente a de que não podemos confiar no nosso intelecto, porque ele pode nos enganar, pode falsear o conhecimento, mesmo quando se dão todas as condições para conhecer. Quer dizer, mesmo quando exploramos adequadamente o mundo, mesmo quando examinamos adequadamente as coisas por meio dos nossos sentidos, mesmo quando formamos a imagem adequada (phantasmata) em nossa memória, ainda assim poderia haver a formação de um conhecimento falso, em nosso intelecto, sobre o seu objeto próprio, que é a quididade da coisa, ou seja, a descoberta daquilo que a coisa é, de sua essência, mesmo que de modo sempre perfectível. A dúvida não é, pois, a de que nosso intelecto sempre pode saber mais, aprender mais, sobre seus objetos. Sobre isto não há dúvida: nosso conhecimento sempre pode aumentar. O que está colocado em questão, aqui, é a possibilidade de que o intelecto, mesmo tendo todas as condições para atingir a verdade, venha a errar por defeito próprio. Há três argumentos objetores que buscam provar esta hipótese.

3. Os argumentos objetores.

O primeiro argumento objetor.

No livro VI da Metafísica, Aristóteles, tratando da questão da verdade, diz explicitamente que a verdade, como transcendental do ser, não está na coisa, mas na mente que conhece a coisa; também a falsidade se encontra, portanto, na mente, segundo o filósofo. Ora, falar de mente é falar de intelecto, como já vimos nos debates da questão 79. Logo, se a verdade e o falso estão na mente, isto significa que o intelecto pode errar, e pode vir a conhecer falsamente mesmo o seu objeto próprio, que é a quididade das coisas, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

As opiniões e os raciocínios são próprios do nosso intelecto. Ora, é indiscutível que podem haver raciocínios falsos e opiniões erradas. Assim, a falsidade está dentro do nosso intelecto mesmo, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Todo pecado é, no fundo, uma falha em nosso espírito. O pecado envolve sempre conhecimento e escolha, e estes são dimensões de nosso intelecto. Ora, se o intelecto está envolvido no pecado, é porque ele está em erro. Logo, o intelecto pode falhar, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra vai citar Agostinho, que também conhecia essa noção de que o intelecto não pode falhar em seu ato, dadas as condições prévias adequadas. Sobre isto, Agostinho vai dizer: “aquele que erra no conhecer, na verdade não chegou a inteligir aquilo em que errou”. Isto porque, como ensina Aristóteles, a intelecção é sempre reta. Assim, o argumento pode concluir que, quando há erro no conhecimento, o problema não está no intelecto mesmo.

5. Encerrando.

No próximo texto, veremos a resposta de Tomás sobre um assunto tão interessante.