1. Retornando.

A resposta de Tomás, que enfrentou não só a maneira própria, discursiva, que temos de conhecer intelectualmente o mundo, mas também comparou a nossa inteligência com a inteligência criadora de Deus e a inteligência completa e atual dos anjos, deu-nos os elementos necessários para apreciar, agora, os argumentos objetores iniciais, aproveitando-os e corrigindo-os no que for necessário. É o que faremos agora.

2. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que é próprio da inteligência humana inteligir apenas uma coisa de cada vez. Mas raciocinar por afirmação e divisão, composição e divisão implica ter que se referir a muitas coisas simultaneamente, comparando-as. Assim, como o nosso intelecto não pode inteligi-las simultaneamente, também não é capaz de raciocinar por afirmação e divisão, ou, como se diz classicamente, por composição e divisão, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

O processo de composição e divisão, ou seja, o processo de chegar ao conhecimento por raciocínio, propondo hipóteses, confirmando e negando, implica a capacidade de fazer distinções e de reconhecer relações. Ora, nós conseguimos fazer distinções e conhecer relações simplesmente porque uma distinção é uma ideia só, que envolve duas coisas sob a mesma razão, ou seja, tem apenas uma inteligibilidade.

O mesmo se dá com a relação: ela é uma razão sob a qual podemos conhecer duas coisas com o mesmo pensamento. Não se trata, pois, de ter simultaneamente duas inteligibilidades em nosso intelecto, mas de inteligir uma relação, uma diferença ou uma semelhança entre duas ou mais coisas, o que se faz por apenas um pensamento.

Assim, conhecer simultaneamente muitas coisas por raciocínio, construindo proposições e hipóteses que podem ser confirmadas ou negadas sobre elas, é algo perfeitamente possível ao nosso intelecto, porque implica conhecer várias coisas sob a mesma razão.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor quer nos lembrar que a abstração, que está envolvida no processo de transformar o conhecimento sensível em conhecimento inteligível, implica justamente a abstração das circunstâncias de tempo e espaço, de modo a chegar à própria species das coisas, isto é, nas suas ideias universais e abstratas.

Assim, minha memória registra este e aquele cão, que vi e examinei num determinado lugar, num determinado momento. Por abstração, chego a conhecer intelectualmente que há uma espécie canina, que, de modo permanente e universal, tem estas e aquelas características essenciais. Para isto, preciso justamente abstrair, dessas informações, as circunstâncias de tempo e lugar nas quais eu vi este ou aquele cão, porque a species universal de cão se aplicará a todos os cães, em todos os tempos e lugares.

Ora, prossegue o argumento, o processo de raciocínio envolve justamente um encadeamento de informações, proposições que envolvem informações passadas, presentes e futuras, de tal maneira que possam ser confirmadas ou negadas do objeto. Ora, este é um processo que envolve, portanto, justamente um percurso no tempo, que é um dos elementos que deve ser abstraído no conhecimento intelectual. Assim, o conhecimento intelectual humano não se dá por esse processo, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Já vimos, na questão 84, que o processo de aprendizagem intelectual decorre da aquisição dos dados sensíveis e sua organização na imaginação; há, aí, a formação daquilo que os antigos chamavam de phantasmata ou fantasma, a imagem organizada dos dados sensíveis obtidos sobre os objetos. É a partir dessa imagem que a nossa inteligência é capaz de chegar ao conhecimento intelectual, abstrato e universal sobre as coisas. Mas nossa mente não é capaz de voltar a pensar efetivamente naquilo que conhece intelectualmente sem recorrer à memória dos fantasmas (phantasmata), ou seja, mesmo aquilo que sabemos intelectualmente depende da memória das nossas experiências sensíveis para ser pensado em ato. É exatamente na operação do raciocínio, no processo de compor e dividir, que o recurso aos fantasmas se apresenta. Ora, os fantasmas não excluem, em si, as circunstâncias de tempo e lugar; por isso, mesmo os nossos raciocínios intelectuais podem considerar essas circunstâncias – e o fazem. Assim, o argumento objetor não procede.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento lembra que inteligir, na verdade, não é simplesmente ter um nome para as coisas, ou ter um conceito sobre a coisa, ou mesmo uma espécie de retrato da coisa na mente; na verdade, diz o argumento, inteligir é assimilar em si a própria coisa, por sua ideia universal, que é a mesma species ou forma que está na coisa individualizada pela matéria. Esta forma ou species passa a existir no intelecto, apontando para a coisa (ou seja, intencionalmente). Ora, mas um dos predicados das coisas é exatamente sua completude, sua unidade existencial. As coisas não são meros aglomerados de partes, mas se constituem como uma unidade existencial: uma casa, por exemplo, não é apenas um aglomerado de pedras, cimento, telhas e madeira, mas uma unidade organizada, de tal modo que ela é mais do que as partes que a compõem. Portanto, as coisas não têm, em si mesmas, algo como composição e divisão, afirmação e negação, junção e separação. Quando dizemos, por exemplo, que o ser humano é um animal racional, isto não significa que o ser humano é a junção de um animal com uma intelectualidade, como se ele fosse um amontoado das duas coisas. Não se forma um ser humano pela composição de um animal com uma inteligência, nem pela divisão de um anjo menos a incorporeidade. Ora, se as coisas são unitárias em si, então elas também devem estar unitariamente em nossa mente, e não existe nenhum processo de raciocínio pelo qual nossa mente possa compor e dividir, afirmar e negar algo das coisas para chegar a seu conhecimento intelectual, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

A visão de Tomás sobre o conhecimento intelectual é a mesma visão de Aristóteles, uma visão que reconhece o realismo do conhecimento, ou seja, o que nós conhecemos em nosso intelecto não é apenas uma representação da realidade, nem sequer uma fotografia ou uma noção construída, mas as próprias coisas que, existindo individualmente como materiais, existem em nós como ideias. Mas, embora seja a mesma forma que existe na coisa e em nossa mente, ela existe na coisa de um modo diferente daquele pelo qual existe em nossa mente. Em suma, o que existe em nossa mente tem fundamento no que existe por si mesmo, mas existe em nós de modo diferente ao que existe na concretude da matéria. O objeto próprio da nossa inteligência é aquilo que a coisa é, e é isto que queremos conhecer. De tal modo que, quando entramos em contato com as coisas, logo nos inclinamos a descobrir o que elas são, ou seja, a chegar à sua quididade, para usar uma terminologia própria a Tomás.

A composição ontológica das coisas.

Não há dúvida de que todas as coisas são constituídas em unidade; elas são o que são, e o são de modo integral, unitário. Mas esta integralidade não é uma simplicidade, ou seja, as coisas são formadas por elementos que as compõem, e que se integram para que elas sejam o que são. De tal modo que, embora unas, as coisas, os entes, as criaturas, são sempre compostas. E há duas maneiras pelas quais essa composição se apresenta nas coisas materiais.

A primeira composição é a composição de forma e matéria. O mesmo bloco de mármore pode se tornar o piso de uma bela casa ou uma estátua de Dom Pedro I. A matéria do piso e da estátua é a mesma, no sentido de ser o mesmo material; mas a sua forma é diferente. No primeiro caso, a sua forma é a de tábuas planas, e, no segundo, sua forma é a efígie do Imperador.

Existem, pois, duas maneiras de dizer que uma coisa é feita da mesma matéria que outra, mesmo tendo formas diferentes: se ela tem o mesmo tipo de matéria (matéria comum), como o piso de mármore tem o mesmo tipo de matéria que uma estátua de mármore, e quando a coisa é feita do mesmo pedaço de matéria que, outrora, formou outra coisa; neste caso, aquilo que já foi um tronco de árvore foi esculpido para se tornar uma bela estátua de Jesus crucificado. Falamos, aqui de matéria signata ou matéria própria, individualizante.

A composição lógica em nosso conhecimento.

Esta composição de forma e matéria também se apresenta em nosso raciocínio; mas se apresenta sob uma maneira lógica, e não sob uma maneira física como está nas coisas. Assim, por exemplo, todos os animais são constituídos da mesma matéria comum, que é o corpo biológico. Assim, a matéria comum se manifesta, na lógica, como gênero. É por isso que todos nós, humanos, cavalos, cães, etc. pertencemos ao mesmo gênero, o gênero dos animais, porque somos constituídos da mesma matéria comum. Mas a diferença entre os animais se apresenta em nossa forma, ou seja, na maneira pela qual a matéria comum está organizada em cada tipo de animal. O fato de que sejamos inteligentes, por exemplo, caracteriza a nossa espécie humana, tornando-a diferente de todas as outras espécies animais. Assim, enquanto o gênero é tomado da matéria comum, a espécie é tomada da forma. Poderíamos, então, dizer que as categorias ontológicas da matéria e da forma dão fundamento real às categorias lógicas do gênero e da espécie.

Além disso, cada espécie é representada por indivíduos; a espécie dos cães, por exemplo, não aparece por aí, apenas cãezinhos individuais que apresentam as características próprias de sua espécie. Assim, a espécie diz respeito à universalidade, àquela ideia que une os diversos cães, e é relacionada com a matéria comum. Mas a individualidade é a maneira pela qual podemos falar do todo (a espécie canina) aplicando a ideia universal à parte concreta (cada cãozinho). A diferença lógica, aqui, entre espécie e indivíduo, corresponde à diferença entre a matéria comum e a matéria própria, individualizante. A matéria comum é abstrata, e pode existir como uma categoria pensada. A matéria própria é existente, e compõe os seres em sua concretude. Assim, as diferenças reais podem ser pensadas como categorias lógicas.

Substância e acidentes como elementos ontológicos e lógicos.

A segunda composição é a de substância e acidente. Por exemplo, todo cão é, substancialmente, um cão; mas ele pode, acidentalmente, ser branco ou marrom, pequeno ou grande, valente ou sossegado. Essas características acidentais não modificam o fato de que ele é um cão. Ora, essa composição de substância e acidentes, que existe ontologicamente, permite que, no âmbito da lógica, possamos construir proposições que atribuem características aos seres. Mas, na lógica, na predicação lógica, estes atributos acidentais são relacionados ao sujeito de uma maneira diferente daquela pela qual eles existem na vida real. De fato, quando eu digo, por exemplo, que aquele cão é branco, sei que, de faro, existe, no mundo real, o cão e sua cor branca; mas não há algo como um cão, por um lado, e a brancura dele, por outro. Essa separação é apenas intelectual, uma forma lógica de relacionar duas ideias separadas, a da espécie canina e a da brancura, ao mesmo indivíduo concreto que, em sua unidade, é um cão branco, sendo uma coisa só.

O mesmo podemos dizer da primeira composição, aquela de matéria e forma. De fato, podemos afirmar que aquele indivíduo ali é um animal, porque tem um corpo biológico, dotado de sensibilidade; podemos dizer que é um homem, porque tem inteligência; e podemos dizer, finalmente, que é Sócrates, porque tem esta constituição concreta, este corpo específico, esta alma determinada, que faz com que ele seja Sócrates e não, digamos, João ou Antônio. Mas, mesmo que, em nosso discurso intelectual, falemos de um gênero animal, de uma espécie humana, de uma racionalidade possuída e da individualidade corporal, estamos falando, no final das contas, desse sujeito concreto e existente que é o sr. Sócrates.

É assim, pois, que o nosso processo de pensar, de inteligir, pode caminhar pela via da afirmação e da negação, da composição e da divisão, por caminhos lógicos que, embora diversos dos caminhos ontológicos, têm, neste último, seu fundamento.

3. Conclusão.

Cada vez que nos deparamos com um artigo denso como este, mais nos admiramos da capacidade de síntese de Tomás. Para seguir o que ele diz, precisamos usar centenas de palavras a mais do que aquelas que ele usou. Admirável Tomás.