1. Voltando ao assunto.

Estamos debatendo, agora, o próprio modo de aprender do intelecto humano, que é o raciocínio. Trata-se, portanto, de um debate sobre lógica, sobre o modo linguístico, processual, que temos de inteligir. Os argumentos objetores, estudados no texto anterior, querem negar que as coisas sejam assim, e, portanto, propor que a inteligência humana não caminha pela via da lógica, mas pela intuição ou pela recordação. Estudaremos, agora, a resposta de Tomás, na qual ele nos mostra o profundo realismo da sua lógica, completamente entrelaçada no realismo da inteligência humana; mas não se trata de um realismo como aquele de Platão, que propõe que as próprias ideias são entes reais e concretos existentes nalgum reino transcendente. Para Tomás, as mesmas coisas existem na vida concreta e nas inteligências, embora o modo de existência seja diverso: no mundo externo, as coisas existem na matéria, como indivíduos. Nas mentes, elas existem intencionalmente, como ideias universais que apontam para as coisas e as fazem inteligíveis para nós.

Mas estamos nos adiantando. Examinemos a resposta de Tomás.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

O modo progressivo de aprender do intelecto humano.

O intelecto humano precisa do processo de raciocínio para inteligir. É preciso compor proposições, afirmar e negar algo sobre as coisas, comparar, juntar, dividir ou, como falava Tomás com muita elegância, trata-se de um processo de “compor” e “dividir” informações para chegar ao conhecimento. Este é o nosso caminho e não há outro.

Nós não podemos esquecer, aqui, de dois princípios que nos definem: primeiro, somos seres materiais, corpóreos, sensíveis, e é pelo processo de explorar progressivamente o muno que chegamos a conhecer intelectualmente as coisas. Nosso intelecto é imaterial, espiritual, mas nós não somos seres imateriais; somos animais com intelecto. Dependemos, portanto, da exploração progressiva do mundo para conhecê-lo.

Em segundo lugar, precisamos lembrar que nascemos com o intelecto vazio, isto é, em potência para o aprender. Nosso intelecto é, inicialmente, completamente potencial. E, como todas as criaturas, há um processo que, partindo do potencial, chega no atual, que é a perfeição, a completude. Não é algo súbito, instantâneo, mas é uma passagem que demanda um progresso, uma caminhada; portanto, tem fases. Alguns aprendem mais rápido, outros aprendem mais devagar, mas todos nós passamos por um caminhar progressivo, no processo entre a ignorância e a plenitude do conhecimento, que é o intelecto atualizado, informado, conhecedor. Por isso, não chegamos ao conhecimento pleno assim de um ímpeto, num instante, a partir do primeiro contato com o objeto. Há um processo, que passa pela primeira percepção de que há, ali, algo, que não conhecemos mas que nos interpela. A primeira fase consiste em saber o que é aquilo. Na linguagem clássica, Tomás diria que o primeiro movimento do nosso intelecto se dirige à quididade do objeto, ou seja, a descobrir o que ele é. Quando descobrimos isso, sabemos que não estamos simplesmente diante de algo indeterminado, mas, por exemplo, diante de uma pedra, ou de uma flor, ou de um peixe.

Quando chegamos a este ponto, diz Tomás, é hora de passar ao processo de examinar mais profundamente, construir e testar hipóteses sobre a coisa, de modo a que, testando estas hipóteses, possamos saber mais sobre as propriedades, os acidentes e o entorno da coisa, suas circunstâncias. Não nos basta uma mera noção sobre o que ela é. Nosso intelecto precisa buscar conhecê-la, e não é à toa que inteligir vem de “ler dentro”, inter-legere, ler dentro da coisa. Compará-la com outras, testar hipóteses, raciocinar, afirmar e negar suas características, de modo a caminhar no sentido de adquirir mais ciência sobre ela. Este é o caminho do conhecimento, que é o caminho da “composição e divisão” no pensamento. É assim que saímos da ignorância e atingimos o conhecimento, progressivamente. Pelo raciocínio.

Os outros intelectos.

Mas nem todo intelecto funciona deste mesmo jeito. O raciocínio, que é o jeito progressivo de atingir o conhecimento, pela construção de hipóteses, pela comparação, pela afirmação e negação, pela exploração lógica e empírica do objeto, é o modo próprio de conhecer dos seres humanos. Somos animais inteligentes, e a nossa constituição determina que nosso intelecto funcione deste jeito.

Mas os anjos também são seres intelectuais; mas não são animais, senão puros espíritos. Seu ser é conhecer. Assim, o intelecto do anjo não é potencial. O anjo já sabe. Ele não precisa aprender nada. Seu intelecto é, assim, capaz de conhecer imediatamente, plenamente, aquilo que se coloca como objeto de seu conhecimento. Anjos não aprendem, anjos não raciocinam, simplesmente porque já sabem. Quando se deparam com alguma coisa, percebem sua quididade, ou seja, sabem o que ela é, e sabem, neste mesmo ato, todas as propriedades, acidentes e circunstâncias da coisa. Não precisam de raciocínios, nem de hipóteses, não precisam caminhar numa trilha de percepção e abstração para conhecer.

No caso de Deus, isto ainda é mais próprio. As coisas são como são porque Deus pensa nelas, e não o contrário. Assim, é o intelecto de Deus que dá inteligibilidade às coisas. O nosso, por outro lado, apenas recebe a inteligibilidade das coisas.

E isto significa que Deus e os anjos não são capazes de raciocinar? Não conhecem a lógica, a linguagem, o discurso?

Deus conhece toda a lógica e todo raciocínio. Ele criou o ser humano, portanto conhece de antemão o modo pelo qual raciocinamos. Mas não precisa de raciocínios; ele não somente já sabe, como é o fundamento de todo saber. Nossos raciocínios são uma tentativa tosca de chegar à luz que Deus colocou na sua criação. Aliás, é este o testemunho do salmo 93 (94), 10-11: Quem educa as nações, não castiga? Quem os homens ensina, não sabe? Ele sabe o que pensam os homens: pois um nada é o seu pensamento!

Os anjos também conhecem os discursos, a lógica, os raciocínios, e podem usá-los. Usam-nos de fato, inclusive na sua relação conosco. Quer para o bem, como nos santos anjos que nos inspiram e guiam, quer como os demônios que nos tentam e atormentam. São capazes de usá-los com maestria, com toda a habilidade. Mas não precisam deles. Conhecem as coisas sem eles. Anjos não raciocinam. Mas entendem os raciocínios e podem usá-los.

3. Encerrando.

Depois desta brilhante resposta, no próximo texto examinaremos os argumentos objetores iniciais e as respectivas respostas de Tomás, que muito nos enriquecerão.