1. Introdução.

Há uma vantagem em ser um leigo debatendo com São Tomás: a nós, leigos, não especialistas na profundidade do pensamento tomasiano, é permitido dar o título que demos ao presente texto. De fato, a noção de “compor e dividir” não é, a rigor, um processo de juntar e separar informações, mas de construir processualmente uma ideia, uma definição universal e abstrata da species, de modo a conhecer as coisas. Trata-se de um processo realista, em que a própria forma da coisa, purificada de suas limitações individuais, passa a existir em nós como conhecimento. Não é uma simples formação de conceitos, de linguagem, de rótulos nominais para descrever uma realidade que, em si mesmo, seria ininteligível. Trata-se de perceber a inteligibilidade intrínseca nas coisas e absorvê-la em nós.

Mas o debate, aqui, diz respeito ao modo pelo qual adquirimos estas ideias: isto se dá processualmente, por raciocínios, por análise? Ou se dá intuitivamente, pela simples aposição de nomes arbitrários nas coisas com as quais nos deparamos, como defendem os nominalistas que têm hegemonia hoje? Ou pela lembrança de ideias que já estão em nós, como queria Platão?

Vamos, então, ao debate, para poder entender exatamente o que se quer dizer quando se diz que a nossa inteligência é racional, quer dizer, processual, progressiva, mas realmente capaz de conhecer. Nenhum outro gênero de inteligência (nem a inteligência divina, nem a angelical) é processual; portanto, seria um erro dizer que Deus é racional (ou que os anjos são racionais). Só os seres humanos são racionais. Mas estamos adiantando o debate. Vamos a ele.

2. A hipótese controvertida inicial.

A discussão aqui diz respeito ao modo de funcionamento da inteligência humana. A hipótese inicial, para provocar o debate, é a de que nós não aprendemos por raciocínios, juntando, afirmando, negando e separando informações, de modo a chegar ao conhecimento. Restaria afirmar que, como os anjos, nós simplesmente intuímos as coisas num instante; ou, como queria Platão, já temos em nós todas as ideias desde antes de nascer, e nosso processo de conhecimento é apenas uma lembrança dos conhecimentos que já estão em nós desde antes. Mas nada disto está dito expressamente na hipótese inicial. Aqui, afirma-se apenas que não é raciocinando, não é por composição e divisão, que chegamos ao conhecimento. Há três argumentos iniciais que procuram confirmar esta hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor resgata a discussão que tivemos no artigo anterior. Ali, ficou estabelecido que conseguimos inteligir apenas uma ideia universal de cada vez. Ora, prossegue o argumento, para realizar um processo de juntar e separar informações, raciocinar compondo e dividindo, ou seja, negando e afirmando hipóteses sobre os dados inteligíveis, precisaríamos ser capazes de inteligir diversas ideias ao mesmo tempo, de modo a processá-las e atingir novos conhecimentos. Mas não somos, diz o argumento. Assim, não é pelo processo de raciocínio que aprendemos, conclui.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor lembra que todo processo de negar e afirmar, de juntar e separar, de compor e dividir, envolve o tempo, ou seja, não somente ocorre no tempo, como considera, no seu próprio método, os aspectos temporais do objeto. Assim, uma vez que o processo de aprendizagem intelectual envolve exatamente abstrair o objeto pensado dos seus condicionamentos espaciais e temporais, de modo a atingir, nele, os aspectos permanentes e universais, então nosso intelecto não faz nenhum processo de raciocínio por composição e divisão, em seu caminho de aprendizagem, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento lembra que a aprendizagem intelectual não consiste na mera formação de um “conceito” ou de uma “denominação”, em nossa mente, da coisa que é objeto da apreensão intelectual, mas numa assimilação da própria coisa, pela abstração de sua species, ou seja, de sua forma ou ideia universal; ora, as próprias coisas, tais como são em si mesmas, não são fragmentárias, mas unitárias, em sua existência concreta.

Assim, o ser humano, por exemplo, sendo um animal racional, não é como se fosse uma soma de animalidade e racionalidade, de tal modo que se pudesse separar, na prática, a parte que é racional da parte que é animal. O ser humano é verdadeiramente animal e verdadeiramente racional, de tal modo que ser animal é sua identidade, não uma parte do que ele é.

Ora, se é assim, e se assimilamos o que a coisa é, então nosso intelecto não poderia fazer um processo de separação e junção, de afirmação e negação, de composição e divisão daquilo que, em si, tem unidade e identidade. Logo, o intelecto humano não assimila conhecimento por meio de algum processo de composição e divisão, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra mostra o realismo que marca a visão que o próprio Aristóteles tem da lógica. As palavras exprimem o pensamento, e o pensamento registra a verdade sobre as coisas que existem. Ora, diz o argumento, nossa linguagem é marcada pela capacidade de compor ideias, afirmá-las e negá-las, em proposições que podem ser verdadeiras ou falsas ao associar ideias. Qualquer estudante que já tenha resolvido uma prova com proposições verdadeiras e falsas é capaz de perceber quão fundamental é este tipo de linguagem no nosso discurso sobre o mundo, que reflete o conhecimento que temos. Ora, se a lógica e a linguagem se exprimem em proposições capazes de afirmar e negar, juntar e separar, ou seja, compor e dividir, isto significa que é próprio do nosso intelecto aprender por composição e divisão, conclui este argumento.

5. Encerrando.

No próximo texto estudaremos a resposta sintetizadora de Tomás.