1. Retomando.
É surpreendente perceber a concretude e o realismo do pensamento de Tomás: ele discute sobre o conhecimento e as coisas concretas como realidades que se ligam, que têm em comum justamente os universais, as formas que permitem, por um lado, a existência das coisas materiais e, por outro, o conhecimento delas. O conhecimento não é uma “construção de conceitos”, mas a assimilação desses mesmos universais, que existem concretamente nas coisas e abstratamente nas mentes. É assim que conhecemos: temos, de fato, as coisas em nós, intencionalmente, pela abstração dos universais, as mesmas coisas que existem no mundo criado, materialmente. Conhecer, assim, é a única verdadeira riqueza: ter as coisas em si sem a necessidade de apossamento físico, de entesouramento.
Examinemos agora os três últimos argumentos objetores com as respectivas respostas de São Tomás.
2. Os argumentos objetores e suas respostas.
O segundo argumento objetor.
Nós estamos inseridos num mundo de coisas compostas. A composição significa, simplesmente, que as coisas com as quais convivemos, e com as quais nos relacionamos, são feitas de muitos elementos, que se unificam nelas, dando-lhes a substancialidade que as caracteriza. Todas as coisas com as quais nós nos deparamos são compostas, pelo menos, de alguma matéria que forma seu corpo e alguma estrutura que permite sua organização interna, ou seja, alguma forma inteligível. Estas coisas compostas, portanto, são aquilo com que primeiro nos deparamos.
Mas há coisas que não são compostas, como, por exemplo, os objetos da geometria (figuras geométricas em geral). Elas têm uma estrutura de inteligibilidade mas não têm corpos. Também Deus e os anjos são assim. Chamamos a estes seres de “seres simples”, justamente porque não têm composição em sua essência, e estes seres são aquilo que conhecemos por último, com mais esforço, porque não são o objeto mais adequado à nossa inteligência.
As ideias universais, em geral, também são entes simples, incorpóreos, constituídos de pura inteligibilidade formal. Logo, também elas são aquilo que conhecemos por último, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
A realidade dos universais não é exatamente uma realidade simples, como pode parecer a um exame apressado. Na verdade, as ideias estão relacionadas entre si, de tal modo que as ideias mais gerais se relacionam com as menos gerais como o todo se relaciona com a parte; aqui, a teoria dos conjuntos, na matemática, pode nos ajudar: as ideias mais gerais e abstratas são como grandes conjuntos que englobam diversas ideias mais ricas, mais distintas, mas menos gerais. Assim, por exemplo, o grande conjunto dos animais abrange, em si, como um todo, as ideias de cavalo, de leão e de ser humano. Portanto, no universal mais amplo está contido sempre o menos amplo e outras coisas, como o conjunto dos animais contém o subconjunto dos equinos e o subconjunto dos seres humanos, que não contêm elementos comuns.
Assim, o conjunto mais geral, ou seja, a ideia mais universal, é mais composta do que as ideias menos universais, que são mais distintas. Portanto, o universal mais geral é anterior, em nosso conhecimento, ao menos geral, conclui Tomás.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento lembra que o próprio Aristóteles, no livro I da Física, afirma que a ideia definida, em sua inteireza, chega ao nosso intelecto, no processo de conhecimento, antes das suas respectivas partes. Ora, prossegue o argumento, quando olhamos as definições, notamos que aquelas mais universais compõem as mais específicas, de certo modo fazem parte delas. Um exemplo: na definição de “ser humano”, faz parte a definição de “animal” e a definição de “racional”. Logo, a definição de animal é parte da definição de ser humano. Portanto, se a definição, em sua unidade, é o que chega primeiro em nossa inteligência, então aquelas definições mais distintas, que têm as mais gerais como partes, devem chegar primeiro em nosso intelecto do que as mais gerais, mais universais e mais simples, que são parte das mais distintas; logo, o mais universal é o que alcançamos por último, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
A questão, aqui, parece estar relacionada à ambiguidade que existe na noção de “todo” e de “parte”. Há dois sentidos em que podemos dizer que conhecemos uma “parte”; e aqui Tomás vai usar como exemplo o conhecimento de algo muito específico, muito material, como uma casa e seus tijolos. Um deles é quando a “parte” é alguma coisa que pode ser perfeitamente conhecida em si própria: assim, posso conhecer um tijolo antes de conhecer a casa na qual ele será usado. Mas há outra maneira de conhecer a “parte”, ou seja, como algo que integra o todo, e neste segundo sentido é preciso conhecer primeiro o todo, para depois saber que algo é parte dele. Por este outro modo, primeiro conheço a casa em sua completude, e só num segundo momento é que vou descobrir se a casa foi construída de tijolos ou de outra coisa, como madeira, concreto ou pedras.
Usando, então, esse exemplo como analogia, Tomás explica que ocorre algo similar com a apreensão das definições. De fato, aquelas definições que, tomadas em si mesmo, são autônomas, mas circunstancialmente fazem parte de alguma outra definição mais distinta, podem ser conhecidas em si mesmas, antes de conhecermos a definição mais específica. É o que acontece com a definição de animal, que pode ser conhecida antes que cheguemos à definição de ser humano. Mas, apenas quando conhecermos a definição de ser humano é que chegaremos a conhecer o fato de que animal é parte dela, mas nada nos impede (e, na verdade, é até necessário) que conheçamos primeiro a definição mais ampla, mesmo quando ela faz parte de outras.
O quarto argumento objetor.
No mundo que existe externamente à nossa mente, as causas levam aos efeitos. Mas, no nosso processo de conhecimento, os efeitos são mais evidentes para nós. Como num conto policial, em que as investigações partem dos efeitos, dos fatos criminosos, para chegar aos autores do crime, também o nosso processo de conhecimento caminha dos efeitos para as causas: vemos o rio e buscamos as nascentes.
Ora, os universais, como estruturas inteligíveis que são, são as causas formais e as causas finais de todos os entes que encontramos; os entes são, portanto, os efeitos, dos quais os universais são as causas. Assim, nosso conhecimento apreende em primeiro lugar os efeitos, para só num segundo momento apreender as causas, ou seja, os universais não são conhecidos em primeiro lugar por nós, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Não há dúvida de que o universal, tal como existe em nossa mente (ou seja, como conhecimento que aponta para os entes concretos, e, portanto, como universal intencional), pode-se dizer que é o princípio do conhecimento intelectivo; de fato, chegamos ao universal pelo processo de abstração que nossa mente realiza sobre os dados concretos que a nossa alma sensorial organiza em nossa imaginação. Tomamos, então, os dados concretos (que não são, ainda, o conhecimento intelectual propriamente dito) e abstraímos deles os universais, primeiro os mais gerais e indistintos, e progressivamente os mais determinados e distintos. Assim, chegar aos universais é chegar ao próprio conhecimento intelectual; é por isso que podemos dizer que os universais são o princípio do conhecimento intelectivo!
Mas Tomás vai nos fazer uma advertência importante: a ordem do conhecer e a ordem do existir, embora se refiram às mesmas coisas, não seguem necessariamente a mesma sequência. Platão achava que sim, e defendia que a ordem do ser e a ordem do conhecer eram idênticas; ambas seriam participação numa ideia universal existente em algum lugar transcendente, no qual seriam impressos nas almas humanas antes de nascer, e, além disso, seriam impressos na matéria para fazer as coisas existirem aqui. Assim, o princípio da existência e o princípio do conhecimento seriam o mesmo.
Mas para Aristóteles, como já vimos, o princípio do nosso conhecimento não é uma “ideia universal” existindo em algum lugar transcendente, mas o próprio exame sensorial das coisas individuais e concretas, existentes. Assim, no conhecimento, muitas vezes nós conhecemos as causas pelos efeitos (como, vendo a fumaça, deduzimos que há fogo) ou a substância pelo acidente, como, olhando a silhueta de um animal na penumbra, e ouvindo seus miados, deduzimos que é um gato e não um cão. É assim que chegamos ao gênero e às espécies das coisas, observando os efeitos ou os acidentes, e não por termos estado, antes de nascer, em algum lugar transcendente em que as ideias existem universalmente.
Mas, na ordem do existir, tal como se apresenta nos seres particulares com os quais nos deparamos em nossa vida cotidiana, temos um princípio material, ou seja, a matéria que compõe os corpos dos entes naturais, e o princípio formal, que dá estrutura às coisas, e as faz ser o que são. Assim, a individualidade do meu cãozinho, o fato de que ele é Fido e não Rex, é dada pela sua matéria, que faz com que ele seja este cãozinho aqui e não outro. Mas o fato de que ele pertence à espécie canina e ao gênero dos animais é dado pela sua forma, ou seja, pela sua estrutura existencial.
E a relação entre o gênero e a espécie? Tomás vai explicar que, nos seres materiais, individuais, a relação entre o gênero e a espécie é análoga à relação entre a matéria e a forma. De fato, se a forma toma uma matéria qualquer e a aperfeiçoa, levando-a a existir como este ou aquele ser (como o escultor toma o bloco de pedra e esculpe ali a figura de Napoleão ou de Cleópatra), a espécie é como que a “forma” que faz com que o gênero exista por este ou aquele modo, como o “gênero animal” existe de um modo diferente, por exemplo, no ser humano e no cavalo. O fato de que o ser humano e o cavalo são seres vivos com corpo dotado de sensibilidade coloca-os no gênero dos animais, enquanto a inteligência humana, que é uma característica de sua estrutura formal, coloca-o na espécie dos seres humanos. Assim, diz Tomás, o gênero é tomado da matéria, isto é, do corpo dotado de vida sensorial, e a espécie é tomada da forma, isto é, da alma intelectiva.
Ora, continua Tomás, a perfeição da espécie é o fim de qualquer ente. O fim do ente não é ser um espécime individual na sua materialidade, nem ser um espécime de um determinado gênero. Isto é fácil de perceber: se um espécime morre, nem por isto a espécie deixa de existir; logo, a individualização não é o fim último da natureza. Por outro lado, o fato de que o cavalo seja um “bom animal”, isto é, seja dotado das qualidades que todos os animais devem ter, não faz dele um bom cavalo, isto é, dotado daquelas qualidades que um cavalo deve ter e que não existem em nenhuma outra espécie. Por isto, na natureza, o objetivo final é o bem da espécie. Na ordem da natureza, portanto, a espécie é o primeiro princípio, porque é o fim.
Mas na ordem do conhecimento isto não é necessariamente assim. Às vezes conhecemos primeiro os efeitos para chegar, a partir deles, às causas; às vezes, porém, primeiro conhecemos as causas, para delas deduzir os efeitos. É só pensar assim: às vezes vemos a fumaça saindo de um prédio e deduzimos dela que há, ali, um incêndio. Mas às vezes vemos um pequeno foco de fogo numa instalação elétrica do prédio e, a partir daí, concluímos que haverá um incêndio de grandes proporções, se nada for feito. Portanto, a ordem da natureza é relativamente independente da ordem do conhecimento, quanto aos universais.
3. Concluindo.
Longo artigo. Muito técnico, bem complexo, profundo, mas essencial para entendermos adequadamente o processo humano de aprendizagem.
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