1. Voltando ao debate.
Vimos, então, que Tomás estabeleceu, na sua resposta, duas ordens para o processo humano de conhecimento: Conhecemos o singular, o concreto, antes de conhecermos aquilo que é universal e abstrato, uma vez que o conhecimento sensorial é que dá origem, em nós, ao conhecimento intelectual. E conhecemos o geral, o indistinto, antes de conhecer o distinto, o específico; isto ocorre tanto no conhecimento sensorial quanto no intelectual. Tomás dava o exemplo daquela figura que vemos ao longe, e que, progressivamente, vamos percebendo como um ente corpóreo em movimento, para perceber que é um ser animado e, finalmente, que não é um tipo qualquer de animal, mas um ser humano; somente na proximidade veremos que é fulano. Por isto, o conhecimento geral, indistinto, precede, em nós, ao conhecimento distinto.
De posse desses princípios, vamos acompanhar as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
2. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
No Livro das Categorias, Aristóteles nos ensina que aquilo que é mais inteligível em si mesmo, e portanto é fundamento de inteligibilidade, é menos conhecido por nós, e vice-versa. É o caso de Deus: nada pode ser mais inteligível do que Deus, porque Ele é o fundamento de inteligibilidade do universo; no entanto, uma vez que a nossa inteligência é criatural, Deus não é o objeto mais inteligível para nós. Nossa inteligência, com relação a Deus, funciona de modo análogo aos olhos do morcego com relação ao sol: a sua inteligibilidade é tão intensa que chega a nos cegar.
Ora, para descobrir se uma coisa é mais fundamental que outra, Aristóteles nos ensina que um critério é saber qual delas depende da outra para existir. Por exemplo, as casas existem porque têm alicerce, mas os alicerces podem existir sem que as casas existam, porque a existência da casa pressupõe a do alicerce, mas a recíproca não é verdadeira. Isto ocorre do mesmo modo com as ideias ou formas universais: a forma universal pode existir sem que exista o indivíduo (como, por exemplo, ocorre com as espécies de dinossauros, hoje em dia). Mas nós conhecemos primeiro os indivíduos, e só depois as ideias universais. A questão, pois, é quando à ordem dos universais na natureza, e a ordem deles em nosso intelecto: na natureza, os universais mais abstratos e amplos são sempre mais fundamentais, e, em nossa mente, é sempre ao contrário. Logo, os universais não são a primeira coisa que nosso intelecto conhece, no processo de aprendizagem, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Tomás vai nos ensinar que a relação entre os universais e os entes concretos não é simples, e pode ser considerada de diversos modos. Basicamente, há duas maneiras de considerar os universais: 1) conforme eles nos são conhecidos e 2) conforme eles existem na própria natureza. Assim, Tomás classifica o modo de existência dos universais assim:
1) Em primeiro lugar, os universais existem como conhecimento. Este é o modo pelo qual os universais existem em nossa inteligência, ou seja, como existência intencional (ou, poderíamos dizer hoje, como categoria lógica). Ora, neste caso, este universal que é conhecido existe em nós intencionalmente. O que significa isto? Significa dizer que ele existe em nosso intelecto como uma realidade que aponta para muitas coisas, como a noção universal de “cão” aponta para vários cãezinhos de muitas cores e raças. Logo, esta noção universal é formada em nós pelo caminho da abstração, a partir, no caso desse exemplo, dos muitos cãezinhos que conheci em minha vida. Portanto, como universal intencional, ou seja, como conhecido, é preciso que o universal seja sempre posterior ao individual e concreto.
Neste ponto, Tomás vai nos recordar da diferença entre os ensinamentos de Aristóteles e Platão. Na obra “Sobre a Alma”, Aristóteles sabe que a existência dos universais em nosso intelecto é sempre posterior, porque decorre da existência dos indivíduos na natureza. Por isso, quando se refere ao universal como categoria lógica, ou seja, como conhecimento, ele diz expressamente que a existência da ideia universal “ou não é nada, ou é algo posterior”; e o faz para estabelecer uma posição diferente da posição de Platão. Para Platão, as Ideias universais existem antes das coisas individuais, e existem como entes reais, no reino separado das ideias. Assim, para Platão, as ideias, ou seja, os universais abstratos, existem antes dos indivíduos concretos, que são como cópias malfeitas daquelas. Portanto, para Platão, o conhecimento é apenas uma lembrança de alguma coisa que já existe em nossa mente antes mesmo de ser conhecida em sua concretude individual. Para Aristóteles, no entanto, antes existem os seres concretos, e as ideias ou universais só passam a existir depois, em nossa mente, pelo caminho da abstração.
2) Mas os universais existem também na natureza. Eles existem pela participação que cada ente concreto tem na respectiva forma universal que caracteriza sua espécie. Neste caso, há duas maneiras de avaliar a relação entre o universal e o particular, que podem ser classificadas assim:
2a) Se considerarmos as coisas em seu processo de formação no tempo, o mais indiferenciado, o mais geral, vem antes do mais diferenciado, do mais específico e rico em detalhes. De fato, como causa formal dos indivíduos, os entes vão caminhando para expressar, progressivamente, a perfeição da forma em seu ser. Assim, o ovo ainda não expressa em plenitude a forma universal da ave. Mas expressa a forma indistinta de ovo, que é comum a répteis, anfíbios, peixes e aves. É por isso que no nosso processo humano de ontogênese, nosso embrião humano, embora já portador de toda a dignidade humana, é quase indiferenciado, nos primeiros dias, dos embriões das outras espécies animais. É neste sentido que Tomás nos diz que o mais universal, quer dizer, o mais amplo e indiferenciado, vem antes, citando Aristóteles que, numa figura de linguagem, numa hipérbole, chega a dizer que, na nossa formação humana, “o animal é gerado antes do homem”. A busca darwiniana dos elos evolutivos perdidos, aqueles seres indiferenciados que, existindo antes no tempo, deram origem a diversas espécies mais evoluídas, é algo que segue esta linha.
2b) Mas, sob outro ponto de vista, o universal é também a causa final do ente; neste sentido, ele é o critério de perfeição, de completude, e deve vir logicamente antes do próprio ente, de tal modo a guiar o processo de ontogênese. Por isso, deste ponto de vista, aquilo que é mais completo, mais detalhado, mais específico, vem antes, logicamente, daquilo que é mais geral, mais abstrato, mais universal. O projeto da casa deve vir antes da obra, e deve conter todos os detalhes da casa, de modo a permitir sua construção integral. A ideia de galinha, com toda a sua riqueza e especificidade, sob este ponto de vista, quer dizer, como causa final, deve vir antes do ovo. Isto é porque, diz Tomás, a natureza sempre tende à perfeição daquilo que está sendo formado, e nunca se interrompe no genérico, mas busca alcançar o específico, o perfeito, o distinto, o consumado. É por isto que o ovo, sendo uma realidade comum a insetos, peixes, répteis, anfíbios e aves, não permanece sendo ovo; encaminha-se a ser um ente perfeito e distinto da sua própria espécie, seja ela qual for; e isto é algo que já está dado ao ovo desde o primeiro momento: a ideia da espécie, com toda a sua riqueza, especificidade, distinção e complexidade, preexiste, neste sentido, ao próprio ovo.
É neste sentido, pois, que se estabelece a prioridade entre o geral e o distinto, entre o concreto e o universal, conforme falemos na ordem do conhecimento, na ordem da causa formal ou na ordem da causa final.
3. Encerrando.
No próximo texto, trataremos das três últimas objeções, com suas respectivas respostas.
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