1. Retomando.

Estabelecer o modo pelo qual conhecemos o universal, que é o propriamente intelectivo, é de grande interesse: estabelece, inclusive, a nossa humanidade, o nosso modo humano de saber, frente ao modo, por exemplo, estritamente animal, por um lado (com sua concretude, sua individualidade estrita) e o lado angélico (abstrato, desencarnado, não experimental), por outro.

Vimos, no texto anterior, a proposição de que as ideias mais universais e abstratas não são conhecidas em primeiro lugar por nós; vimos quatro argumentos que tentavam sustentar esta proposição, e um argumento sed contra, que se opunha a ela. Veremos, agora, a síntese de Tomás sobre o assunto.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Tomás vai começar sua resposta com uma recapitulação: vamos nos lembrar do nosso processo, muito humano, de conhecimento.

De fato, nós, humanos, começamos nosso processo de conhecimento pela via dos sentidos, ou seja, corporalmente: nossos sentidos examinam o mundo, as coisas materiais que se dão ao seu exame, e adquirem os conhecimentos sensoriais, concretos, individuais, sobre essas coisas. Este é um dos princípios do nosso conhecimento intelectual, o exame empírico, feito pelos nossos sentidos, do mundo interior, em sua concretude. Neste sentido, nós começamos a conhecer pelo concreto, não pelo universal.

A outra consideração que devemos fazer é a de que nosso intelecto é, ao tempo da nossa concepção, completamente potencial para o conhecimento, isto é, como uma página em branco, a ser escrita. E o processo de aprendizagem consiste exatamente em caminhar da ignorância ao saber, que é o ato, a conclusão, a perfeição do conhecimento intelectual. Somos, até onde sabemos, os únicos seres intelectuais que têm que passar por um processo gradual de aprendizagem intelectual; de fato, Deus é inteligência, mas não precisa aprender nada. E os anjos simplesmente já têm todo o conhecimento intelectual que precisam, no momento exato de sua criação.

Os estágios de conhecimento.

Mas, antes de atingir a perfeição, a completude do saber, que é a ciência completa sobre algum objeto, nosso intelecto passa por estágios de conhecimento, em que conhece, mas ainda não perfeitamente, detalhadamente, com toda a riqueza do objeto.

Este é o caminho que Tomás chama de “passagem da potência para o ato”, em matéria de conhecimento. E esse é sempre um caminho gradual: no processo de aprendizagem, diz Tomás, há sempre um ponto em que sabemos algumas generalidades sobre o assunto, mas ainda não conhecemos tudo, nem conhecemos profundamente. Este conhecimento mediano é, normalmente, genérico e superficial, e abrange o objeto meio vagamente, de modo incompleto, as coisas ainda estão meio confusas para nós. Esse conhecimento é um meio caminho entre potência e ato: já sabemos alguma coisa, mas ainda há muita coisa a aprender. É por isto que, no livro I sobre a Física, Aristóteles explica que nosso conhecimento, no princípio, parece indistinto e confuso, porque aquilo que é indistinto é o que primeiro se dá a nosso conhecimento; com o progresso do conhecimento, chegamos aos princípios e às distinções.

E o que significa dizer que o conhecimento é indistinto e confuso? Significa que nosso conhecimento é superficial, misturado, sem nitidez; conhecemos superficialmente, de tal modo que muitas coisas ficam contidas no mesmo conhecimento, sem que possamos diferenciá-las adequadamente.

O todo universal e o todo integral.

Há, diz Tomás, dois sentidos em que podemos conhecer o todo de alguma coisa: podemos conhecer o todo universal, no qual todas as partes estão contidas em potência, mas sem conhecer as diferenças entre as partes desse todo. Por exemplo, sabemos que há cães, mas não conhecemos as suas diferentes raças e variedades, de tal modo que todos os cães que vemos são tidos, por nós, simplesmente como cães, sem que saibamos distinguir se são cães pastores, cães de fila ou cães de caça, por exemplo.

Podemos, além disso, conhecer um todo integral, mas também sem um conhecimento integral, como, por exemplo, quando conhecemos o corpo humano sem maiores detalhes, e somos capazes de reconhecer suas partes, mas não com tanta precisão quanto um médico que estuda anatomia.

Assim, no processo de conhecimento, primeiro aprendemos que há animais; depois, que eles pertencem a diversas espécies, até chegar a saber que há raças e variedades, e mesmo que há animais racionais, que são os seres humanos. Este é o processo de aprendizagem intelectual, que caminha do mais geral e indistinto para o mais preciso e claramente distinto, numa progressão de enriquecimento e detalhamento.

O processo de conhecimento sensorial.

Com nosso processo de conhecimento sensorial, nossa exploração do mundo pela via dos sentidos, ocorre um processo análogo a este. Também temos um sistema sensorial totalmente potencial, isto é, não conhecedor do mundo. Nas nossas explorações sensoriais, passamos da potência (a ignorância) ao ato (o conhecimento) em matéria de percepção sensorial, por um caminho semelhante àquele pelo qual nosso intelecto passa da potência ao ato: gradativamente. Esse processo, diz Tomás, é gradual tanto quanto ao tempo, quanto ao espaço. De fato, diz ele, se considerarmos esse processo no espaço, percebemos que a aproximação entre nossos sentidos e o objeto leva ao aumento gradual do conhecimento, pelo aumento da percepção. Assim, se vemos uma silhueta se deslocando ao longe, sabemos que se trata de alguma coisa corporal que se move; em seguida, pensamos que pode ser algum tipo de ser animado, sem distinguir se é um bicho ou um ser humano. Somente quando há pouca distância é que vemos que é um ser humano, e, ao aproximar-se, distinguimos que é Seu José da Padaria, por exemplo.

O processo também ocorre assim, no tempo. As crianças pequenas, diz Tomás, aprendem primeiro a distinguir o que é um ser humano daquilo que não é, e por isso choram ao serem colocadas sozinhas no berço e se acalmam quando tomadas nos braços por qualquer pessoa. Com o tempo, aprendem a distinguir a mãe e o pai dos outros seres humanos, e, por fim, passam a conhecer as pessoas individualmente.

Tomás, então, nos diz que isto acontece por uma razão simples: o longo processo de aprendizagem humano, quer de aprendizagem sensorial, quer de aprendizagem intelectual, passa da ignorância ao conhecimento confuso, indistinto, que ainda não é perfeito porque conhece de modo muito genérico, sem ter chegado, ainda, ao conhecimento daquilo que distingue uma coisa da outra. Ou seja, já está em ato para o gênero, mas ainda está em potência para as distinções específicas, quer dizer, as diferenças. Assim, conheço primeiro o fato de que há animais domésticos, para depois saber que há cães e gatos e, por fim, que há raças e variedades de cães e de gatos. Por isto, conclui Tomás, o conhecimento genérico é como que o ponto médio entre a ignorância e a ciência adequada.

Os critérios de aperfeiçoamento do conhecimento.

Assim, Tomás vai terminar sua resposta organizando o processo de conhecimento humano a partir de dois critérios, assim:

1. Conhecemos o singular, o concreto, antes de conhecermos aquilo que é universal e abstrato. Isto porque o conhecimento sensorial, a exploração do mundo pelos sentidos, que nos apresenta as coisas na sua individualidade, é, em nós, anterior ao conhecimento intelectual, que recebe o conhecimento das formas e ideias que estruturam o mundo.

2. Conhecemos o geral, o indistinto, antes de conhecer o distinto, o específico; isto ocorre tanto no conhecimento sensorial quanto no intelectual. De fato, nossos sentidos precisam de tempo e de espaço para funcionar adequadamente, e não se poderia esperar que alguém que, por exemplo, experimenta vinho pela primeira vez já fosse capaz de diferenciar safras, variedades e origens dos vinhos. Como não se poderia imaginar que um estudante do ensino fundamental que começasse a estudar os animais marinhos fosse capaz de distinguir entre as inúmeras espécies de peixes, por exemplo.

3. Encerrando.

Nos próximos textos, estudaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.