1. Retomando.

Nosso pensar se refere ao mundo. Nossa mente não é uma realidade fechada em si mesma, mas uma estrutura espiritual capaz de acolher o dom da criação, o dom da alteridade, aquilo que ela encontra proposto quando vem ao mundo; e o argumento para essa influência recíproca entre a mente humana e o mundo vem justamente da nossa capacidade de mudá-lo: podemos de fato conceber formas artificiais em nossa inteligência e, com isso, mudar o mundo. É o arquiteto que concebe a casa, ou o escultor que concebe a estátua, ou até mesmo o escritor que concebe seu romance. A forma concebida na mente humana pode se impor às coisas externas, como as formas existentes nas coisas externas se impõem à mente humana. Estas realidades não são isoladas entre si: somente acolhendo a verdade do mundo externo é que o ser humano se torna capaz de modificá-lo. O escultor que não conhece a diferença entre a argila e o mármore não conseguirá esculpir nenhuma estátua.

Municiados com estes princípios, examinemos agora as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

2. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento lembra que o intelecto humano, ao aprender, passa do estado potencial ao estado atual; e a atualização do intelecto é causada por aquilo que é aprendido. Ora, o que é aprendido, e atualiza o intelecto, não é a coisa, mas a ideia abstrata e universal da coisa, que tecnicamente se chama de species. Quando aprendemos, por exemplo, sobre as pedras, não temos pedras na cabeça, mas ideias sobre as pedras. Assim, o objeto do nosso intelecto não são as coisas, mas as species, ou seja, as próprias ideias.

A resposta de Tomás.

Não há dúvida de que, para haver conhecimento de verdade, eu tenho que conhecer a própria coisa, e não alguma “ideia” que, no fundo, só faça referência a ela mesma. Mas é claro que a coisa não pode estar materialmente em mim, em meu intelecto. Assim, é a sua estrutura, a sua forma abstrata, que está em meu intelecto. Mas não é uma mera noção da coisa, um mero conceito, nem mesmo um nome que damos à coisa, nem sequer uma espécie de “fotografia da coisa”; é a forma da coisa mesma, a sua estrutura imaterial, que está na coisa dando-lhe inteligibilidade e está em minha mente ao conhecê-la. Por isto, conhecemos: na nossa mente está a forma inteligível da coisa, que nos faz conhecer a própria coisa com a qual nos deparamos. De tal modo que, ao conhecermos, não simplesmente conhecemos uma ideia, mas a própria coisa para qual a ideia aponta.

O segundo argumento objetor.

O debate aqui é bem sutil: envolve aquela concepção da filosofia clássica de que as coisas materiais, em sua individualidade, não são capazes de ser inteligidas em ato; elas estão em potência para a inteligibilidade. O que quer dizer isto? Simplesmente quer dizer que, se examinamos uma pedra, podemos até conhecer seu aspecto exterior, suas características sensíveis, mas não poderemos obter um conhecimento intelectual da coisa, pelo exame de apenas um exemplar concreto; é que a inteligibilidade depende de uma abstração que, por seu turno, depende da formação de uma imagem na memória, um fantasma, mais completo do que aquele que decorre do exame de apenas um exemplar da coisa. É por isto que os antigos diziam que a inteligibilidade da coisa, em sua existência material concreta, está apenas em potencial. Ora, mas se é assim, a inteligibilidade em ato, ou seja, a ciência intelectual da coisa, não está nela; este tipo de conhecimento demanda um esforço, e só se torna efetivo, atual, na mente de quem conhece. Logo, a inteligibilidade não está na coisa, mas na mente, que forma em si a species, o conhecimento atual e efetivo. Portanto, a mente conhece as próprias species, e não as coisas em sua existência material, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Precisamos ter muito cuidado com as palavras e expressões que usamos para descrever o processo de conhecimento; precisamos ter cuidado com os sentidos e a abrangência daquilo que descrevemos. Por exemplo, quando falamos daquilo que é “inteligido em ato”, ou seja, daquilo que é objeto de ciência, de conhecimento intelectual, universalmente válido, abstrato e permanente, estamos falando, a um só tempo, das coisas que são objeto da ciência e da ciência que tem por objeto as coisas.

Além disso, quando falamos de chegar a um conhecimento universal abstrato, tanto nos referimos ao fato de que podemos atingir um conhecimento intelectual universal e abstrato sobre as coisas, quanto ao fato de que as coisas, em sua estrutura interna, são inteligíveis, porque guardam em si uma natureza que, em sua estrutura fundamental, é universal e abstrata, e fica individualizada, na sua existência concreta, pelo fato de compor uma coisa material determinada. Em suma, há uma ciência universal e abstrata sobre as coisas, porque elas são constituídas, em si mesmas, por uma estrutura que pode ser universalizável e abstraída, porque é inteligível. De um lado, nosso intelecto tem capacidade de conhecer, de abstrair e chegar a um conhecimento universal sobre as coisas. Por outro, as coisas possuem em si uma estrutura formal que, embora existindo de modo concreto e limitado na matéria, tem a potencialidade de ser abstraído e, portanto, ser conhecido universalmente pela nossa inteligência. Assim, as coisas têm inteligibilidade potencial, e nosso intelecto, a capacidade de atingir a inteligibilidade atual. Portanto, é a mesma estrutura inteligível que existe na coisa e na mente, embora por modos diferentes.

E para exemplificar como é que a mesma realidade pode existir de uma maneira no intelecto e de outra maneira na coisa, Tomás vai nos dar um exemplo a partir do nosso conhecimento sensorial. Vamos imaginar uma maça, bem madura, cheirosa, vistosa, com uma bela cor vermelha. A cor vermelha e o aroma agradável existem, sem dúvida, na própria maçã. Nela, não existe a cor vermelha sem o aroma, nem o aroma sem a cor vermelha.

Ocorre que essa mesma cor existe na maçã e atinge nossos olhos, e é vista por nós. Mas os nossos olhos não podem enxergar o aroma da maçã, apenas a sua cor. Logo, em nós, a cor da maçã existe como conhecimento visual, enxergamos de verdade a mesma cor que está na maçã. Mas, em nós, em nossa memória visual, a cor está sem o aroma. Portanto, embora seja a mesma cor em nossos olhos e na maçã, o modo pelo qual a cor da maçã existe em nossa memória visual é diferente daquele pelo qual ela existe na própria maçã.

Agora vamos usar esta analogia para o conhecimento intelectual; vamos tomar um ser humano como objeto do nosso conhecimento.

É claro que a espécie humana existe concretamente em cada ser humano, e apenas neles. Cada ser humano é a expressão concreta da espécie humana, devidamente particularizada pelos seus traços corporais e pelo tempo e espaço no qual vive.

Mas o nosso intelecto conhece a espécie humana como uma ideia, como um universal abstrato que não está condicionada por concretude corporal, nem por inserção histórica ou espacial; este modo de existir da espécie humana, como abstração, é própria do conhecimento intelectual. É a mesma espécie humana, portanto, que existe em cada ser humano e em nosso conhecimento intelectual sobre a espécie humana. Mas o modo de existir da espécie humana é diferente, conforme exista numa mente ou num indivíduo concreto.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor vai buscar apoio na teoria da linguagem de Aristóteles. De fato, no livro sobre a interpretação, Aristóteles diz que a linguagem expressa aquilo que está impresso em nossa alma. Mas, prossegue o argumento, a linguagem é o meio de transmissão daquilo que conhecemos. Se o objeto da linguagem é aquilo que está impresso em nossa alma, e se sua função é transmitir aquilo que conhecemos, então temos que deduzir que aquilo que conhecemos é o que está impresso em nossa alma, e não as coisas que existem no mundo, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Tomás vai iniciar também de modo muito concreto, aqui, tratando do nosso conhecimento sensorial, antes mesmo de tratar de nosso conhecimento intelectual.

O nosso conhecimento sensorial, o conhecimento que os nossos sentidos formam pelo exame físico do mundo exterior, processa-se em dois momentos. Num primeiro momento, nossos sentidos exteriores recebem diretamente o estímulo das coisas percebidas, ao tocá-las, vê-las, ouvi-las e assim por diante. Assim, os estímulos das coisas materiais provocam uma mudança direta nos sentidos, causando a percepção, por nós, das dimensões sensíveis das coisas.

Num segundo momento, estes estímulos são organizados, reunidos e gravados em nossa memória, formando a imagem mental (imaginação) das coisas com que tivemos contato. Assim, mesmo quando a coisa já não está presente nós podemos resgatar a memória da sua presença, pensando na sua imagem. Podemos, além disso, combinar imagens mentais para ter noção até mesmo de coisas que nunca examinamos diretamente, como naquele caso em que alguém nos descreve o ornitorrinco como se fosse uma lontra com bico; somos capazes de imaginá-lo, por esta descrição, em nossa imaginação, mesmo nunca tendo visto pessoalmente um ornitorrinco.

No intelecto, as coisas se passam de modo similar. O intelecto possível, que é aquela estrutura do nosso intelecto capaz de receber o conhecimento intelectual, recebe-o a partir do trabalho de abstração que o intelecto agente faz em nossa memória sensorial. Assim, a primeira fase é passiva, é a recepção do conhecimento intelectual obtido.

Em seguida, tendo sido aperfeiçoado, atualizado, pelo conhecimento intelectivo, por ter recebido a ideia universal ou species, o intelecto passivo é capaz de produzir uma linguagem sobre o conhecimento obtido. O primeiro passo é a formação de uma definição ou conceito, que pode expressar a ideia universal depositada no intelecto. O segundo passo é construir um raciocínio, comparando esta noção expressa pela definição com outras noções, para afirmar ou negar, nela, aquilo com que a comparamos. Ao criar a definição de X, passamos a construir, então, raciocínios para descobrir se X é um ser inanimado ou um ser vivo, se é um réptil ou mamífero, e assim por diante, afirmando e negando suas características para chegar a um conhecimento mais perfeito, mais completo. É a isto que Tomás chama de “compor e dividir”.

Assim, a essência da coisa que nós conhecemos é expressa, na linguagem, pela definição, e as proposições linguísticas que construímos expressam nosso trabalho de compor e dividir, para aprofundar nossos conhecimentos e mesmo transmiti-los.

Por isto, a essência que conhecemos aponta para as coisas do mundo, que são por nós apreendidas. A linguagem, por sua vez, aponta para a essência, expressando-a. Logo, o fato de que a linguagem expressa as ideias não significa que as ideias não expressem as coisas.

3. Concluindo.

Será mesmo necessário descer a tais profundezas da alma que aprende? Sim, muito necessário. É preciso garantir a nossa capacidade de conhecer de verdade, é preciso romper um idealismo que imagina que o pensamento humano não deve conhecer, mas construir um mundo que, em si mesmo, é vazio de significado. É verdade que o mundo nos é dado como tarefa. Mas, antes de tudo, ele nos é dado, isto é, ele é um dom.