1. Retomando.
Que o conhecimento seja algo que acontece em nós, não há dúvidas. Mas há um passo que é fácil e errôneo: concluir que, uma vez que o conhecimento é um fenômeno que ocorre em nós, por sermos atingidos pelo mundo externo, ele se limita a algo em nós mesmos. Assim, segundo essa errônea conclusão, quando vemos alguma coisa, não temos como saber se o que vemos é mesmo o que há no mundo exterior; apenas podemos afirmar que alguma coisa estimulou nossos olhos e causou neles a reação de ver o vermelho, o branco, o azul e assim por diante. De modo similar aconteceria com nosso intelecto: conhecemos a ideia de cão, a espécie canina, mas não os cães mesmos. Tudo o que conhecemos, portanto, segundo esta teoria, seriam os efeitos que as coisas causam em nós, e não as próprias coisas. Não é coincidência que estas posições pareçam muito com a filosofia cartesiana, que parte da ideia de que tudo o que vemos e sabemos pode não passar de impressões em nossa mente, e mesmo com a filosofia idealista alemã, desde Kant até os nossos contemporâneos. Nossa filosofia do conhecimento prevalecente, hoje em dia, não consegue afirmar que conhecemos de fato o mundo que nos cerca; apenas podemos garantir que determinados conhecimentos nos servem para resolver problemas e dominar o mundo, e outros não. Esta espécie de “falsa humildade intelectual” parece receber um reforço também de determinadas religiões e filosofias orientais, que afirmam que tudo o que há no mundo é pura ilusão, e portanto ilusória também é a ideia de que o que conhecemos do mundo tem alguma verdade. Aliás, a ideia de verdade não se encaixa em tais visões de mundo. Não é à toa que esta é uma das noções problemáticas para nós, hoje.
Daí a importância do fato de que, profeticamente, Tomás já tenha reafirmado, especialmente nesta questão da Suma, que nosso conhecimento não se limita às sensações e informações que chegam em nossa mente, mas essas impressões e informações apontam de fato para o mundo exterior. Em suma, as ideias, as espécies, as formas universais e abstratas que estão em nossa mente chegaram aí por nosso contato com o mundo exterior, por causa do mundo exterior, e apontam para o mundo exterior. Ou seja, todo o conhecimento que temos é conhecimento de coisas, do mundo; as coisas são o verdadeiro objeto do nosso conhecimento, e as ideias e informações são apenas o meio pelo qual conhecemos as coisas. A verdade, portanto, consiste na adequação entre a mente e as coisas. Isto é profundamente libertador: liberta-nos de nós mesmos.
Por outro lado, se Descartes precisou atribuir a Deus o papel de “garantidor” da verdade do nosso conhecimento, porque não achou maneira filosófica de sair da própria mente para conhecer as coisas (no seu dualismo, mente e extensão são dois princípios reciprocamente irredutíveis), Tomás não precisa delegar a Deus este papel: havendo criado um mundo inteligível, por um lado, e seres inteligentes de outro, a relação entre inteligibilidade e intelecção é natural, não é miraculosa, não depende de intervenção divina. É por isto que ateus, agnósticos e religiosos de todos os credos podem ser filósofos ou cientistas igualmente competentes no que fazem.
Mas não nos adiantemos: vamos estudar a própria resposta sintetizadora de santo Tomás.
2. A resposta sintetizadora.
As falsas opiniões.
Tomás inicia sua resposta registrando as falsas filosofias sobre este assunto. Segundo ele, muitos ensinaram que, na verdade, nossos órgãos do conhecimento sensorial (tanto os sentidos externos e internos, quanto a memória e a imaginação) quanto nossas estruturas intelectivas (o intelecto agente e o intelecto passivo) apenas conheceriam as reações que têm aos estímulos que recebem, e não as coisas que provocam esses estímulos. Os estímulos externos seriam, segundo estes, recebidos passivamente por nós, e conheceríamos apenas as reações que eles desencadeiam em nós. Assim, quando nossos olhos percebem uma bola vermelha, eu nunca saberia, de fato, se o vermelho que você vê, quando olha para aquela bola, é o mesmo vermelho que eu vejo. Tudo o que eu sei é que aquela luz que sai da bola e atinge meus olhos me provoca uma reação neurológica que eu chamo de “vermelho”, e que não diz nada sobre a verdadeira cor da bola. Do mesmo modo, quando eu venho a examinar os cães e chego a apreender a noção de “espécie canina”, este conhecimento é apenas uma ideia em minha mente, que pode ser mais ou menos útil para prever a reação dos cães com os quais em vier a me encontrar (pode me prevenir de ataques ou mordidas, ao me condicionar a reagir com cuidado ao visualizar um cão), mas não passa de uma ideia em minha mente, e não me diz nada sobre o que os cães realmente são (para estes teóricos, isto é algo que eu nunca saberei de fato). Assim, para estes teóricos, o objeto do nosso conhecimento seriam as próprias sensações e ideias, e não as coisas que provocaram estas sensações e ideias. Como podemos ver, este tipo de proposição é muito popular hoje, oitocentos anos depois de Tomás.
Refutando esta concepção.
Tomás sabe que esta concepção é falsa – e perigosa, porque tem o potencial de destruir a própria noção de verdade e prender o ser humano em sua própria mente, destruindo suas relações com o mundo exterior. Assim, ele nos apresenta dois motivos pelos quais ela é falsa:
1) Podemos compartilhar conhecimento sobre as coisas do mundo, e este conhecimento tem valor objetivo. Isto se dá porque há ciências, cujo objeto é o conhecimento das coisas. Mas se o nosso conhecimento tivesse por objeto apenas as nossas próprias ideias e impressões, então haveria apenas uma ciência verdadeira: a psicologia, já que toda a ciência humana seria apenas um conhecimento do nosso intelecto com suas próprias ideias. Mas as ciências não são constituídas apenas como uma reunião de ideias que, embora não digam nada sobre o mundo, seriam eficazes para nos dar algum controle sobre ele; isto é falso. As ciências são, de fato, conhecimentos reais sobre as coisas, conhecimento este que pode ser transmitido, aperfeiçoado, superado, constatado, testado, frente às coisas às quais se refere.
2) Se o objeto do nosso conhecimento fosse apenas a nossa própria alma com suas impressões e informações armazenadas, então não haveria nenhum critério possível para a verdade. De fato, se o objeto do conhecimento fosse apenas as sensações e ideias em minha alma, então eu não poderia dizer que, ao ver uma coisa vermelha e dizer que ela é azul, eu estivesse fazendo uma afirmação falsa, simplesmente porque eu poderia dizer que a sensação que aquela coisa causa em mim é uma sensação de azul, e pronto. Se, movido por alguma disfunção, eu dissesse que o doce é amargo, ou que o verde é vermelho, ou que um cão é gato, nenhuma dessas afirmações poderia ser classificada como “falsa”, porque elas expressariam apenas as impressões que eu próprio tenho sobre o mundo. Com isto, se alguém dissesse que algo é vermelho e outro dissesse que aquilo mesmo é azul, ambos fariam afirmações verdadeiras, e a verdade passaria a ser apenas uma “sinceridade”, um seja, uma correspondência entre a afirmação e o conteúdo da própria mente de quem afirma. Nada de verdadeiro ou falso poderia ser dito sobre o próprio mundo.
É claro que sabemos que, hoje em dia, muita gente pensa assim, e estamos rodeados de relativismos e ideologias que proclamam justamente a inexistência da verdade e a relatividade de todo o conhecimento; vão mais longe e denunciam como intolerância o simples fato de que se possa defender que o objeto do conhecimento não é a nossa própria mente e suas percepções, mas as coisas reais que existem no mundo, e que a verdade da linguagem está na relação entre a mente que conhece e a coisa conhecida, e não apenas uma adequação entre o que se diz e o que se pensa. Mas não é intolerância, mas confiança na relação entre Deus, o mundo e a mente humana. Hoje, mais do que no tempo de Tomás, defender o realismo do conhecimento é defender a própria dignidade humana.
O que é o conhecimento, afinal.
O realismo de Tomás não é ingênuo. Ele sabe que existe uma mediação entre o que conhecemos e aquilo que é; nosso conhecimento pode ser incompleto, errôneo, pode falhar, pode ser inconsistente e contraditório. Mas é sempre o conhecimento de algo. E o argumento que ele usa para fundamentar sua concepção realista é muito simples: o intelecto que conhece é o mesmo intelecto que faz.
As sensações que os sentidos despertam em nós, assim como os conceitos, as ideias e as espécies que armazenamos em nosso intelecto, são apenas o meio para que possamos conhecer o mundo exterior a nós; e nós o conhecemos de verdade.
Nosso agir, diz Tomás, é composto de duas dimensões: ele pode ser um agir imanente, como no caso em que aprendemos ou dominamos a nós mesmos; a transformação provocada por este modo de agir (práxis) começa e termina em nós. Sou em que aprendo, sou eu que me educo, sou eu que me domino e controlo. Se morro, a minha educação, o meu saber, o meu autodomínio perecem comigo, seguem-me.
Mas há um outro agir, que é o agir transeunte (poiesis). Neste caso, a ação começa em mim, mas modifica algo fora de mim; como o escultor que trabalha o mármore, ou o sapateiro que costura o couro.
Em ambos os casos, tanto quando aprendo alguma coisa especulativamente, e estou numa atividade imanente, quanto quando concebo alguma coisa em minha mente e estou numa atividade transeunte, estou lidando com formas, ou seja, com estruturas imateriais que se manifestam em minha inteligência.
No caso da razão prática, em que concebo alguma forma para realizar uma ação transeunte, a mesma forma estará em minha mente e também na matéria com a qual eu trabalho, transformando-a. Tomemos o exemplo de um escultor: ele concebe, em sua mente, um belíssimo torso masculino, e imprime essa forma no mármore habilmente. Existe, pois, a mesma forma na sua mente e na matéria esculpida. Esta forma, o tal torso masculino que ele concebeu, é o meio pelo qual o seu intelecto se relaciona com a realidade externa a si, consistente no bloco de mármore.
No caso da atividade imanente de aprendizagem, também é a forma que faz esta mediação entre a coisa e o intelecto. Mas o caminho é o inverso: eu contemplo a bela escultura que o artista fez no mármore e abstraio a sua forma; digamos, aquele torso do exemplo anterior. Essa forma, que é a forma da estátua, é depositada em meu intelecto passivo pelo intelecto agente, e me faz conhecer a estátua. A forma é, aqui também, meio de conhecimento da realidade. Portanto, o objeto da intelecção é a coisa, por meio da forma.
A reflexão e o objeto do conhecimento de segundo grau.
É interessante notar que o nosso intelecto tem uma capacidade especial, a capacidade de reflexão. Isto é a marca da nossa espiritualidade: nenhuma faculdade material pode refletir sobre si mesma. O olho não pode ser ver no ato de ver, o ouvido não pode ouvir a si mesmo. Mas o intelecto pode se contemplar inteligindo, e perceber que conhece a coisa, ou seja, que consegue pensar na species, na forma universal, na ideia abstrata da coisa; consegue contemplar e refletir sobre o próprio processo de aprendizagem e sobre o fato de que inteligiu e consegue pensar intelectualmente na coisa. Ora, ao contemplar, em si, a presença da forma apreendida, o intelecto passa a saber que sabe. Neste caso, o objeto da intelecção é a forma da coisa, como apreendida pela mente. Ou seja, num segundo nível de conhecimento intelectual, aquele pelo qual nós refletimos sobro o nosso próprio conhecer, o objeto da intelecção passa a ser a própria ideia, a forma universal, a species inscrita em nosso intelecto passivo. Mas, no primeiro nível, o objeto é a coisa apreendida por meio da sua forma.
Semelhante conhece semelhante.
Os antigos filósofos, diz Tomás, espantavam-se com o fato de que nosso conhecimento pudesse assimilar as coisas, conhecer sua estrutura mesma. Inspirados pelo fato de que o fogo faz com que outras coisas entrem em combustão, ou seja, transmite seu próprio ser àquilo que o toca, fazendo tudo semelhante a ele, eles explicaram o fenômeno do conhecimento como um contágio entre semelhantes: tudo é composto dos mesmos quatro elementos (fogo, ar, água e terra), e também a nossa estrutura é feita por estes quatro elementos. Assim, nossa alma conhece a terra porque possui terra em si, conhece a água porque possui água em si e assim por diante. Eles ainda não tinham percebido que o conhecimento é uma realidade imaterial, e por isto explicavam-no materialmente.
Platão, e depois dele Aristóteles, sem perder a noção de que o conhecimento se dá realmente por semelhança, propuseram que a estrutura das coisas, sua forma, é uma realidade imaterial que pode dar inteligibilidade à matéria desordenada; assim, a nossa alma é capaz de conhecer porque, sendo imaterial, também é uma forma, e, portanto, pode adquirir em si a semelhança das coisas que conhece. Portanto, quando conhecemos, por exemplo, uma pedra, não é a pedra que passa a existir em nossa mente, mas a sua estrutura, sua forma, passa a existir lá; a mesma estrutura que está na pedra. Mas na pedra ela existe materialmente, individualmente, estruturando e aperfeiçoando a matéria. Em nós ela existe espiritualmente, estruturando e aperfeiçoando nossa inteligência. É assim que a alma, pelas formas (species) conhece as coisas que nos são exteriores: não carregando pedras na cabeça, mas formas.
3. Encerrando.
No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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