1. Introdução.

Estamos presos em nossos próprios pensamentos? Será que conhecemos de fato as coisas, ou, ao conhecê-las, no fundo só conhecemos mesmo as ideias que temos sobre elas? Será que nossos conhecimentos são realmente apreensões reais e verdadeiras do mundo, ou apenas interpretações, imagens, visões que adquirimos e que no fundo não correspondem às coisas?

Este debate parece um pouco com o enredo daquela série de filmes chamada de “Matrix”: ali, os personagens estavam, na verdade, presos em bolhas plásticas, desacordados, e recebendo, diretamente no cérebro, estímulos artificiais que os levavam a acreditar que estavam acordados e vivendo no mundo real. Ou seja, tudo o que eles sabiam do mundo não era real, mas apenas a projeção de estímulos neurais em seu cérebro.

Se, de fato, existe algum reino platônico das ideias, em algum lugar transcendente, se o nosso mundo material é apenas uma cópia malfeita desse mundo transcendente perfeito, ideal, imaterial, e se o nosso inteligir consiste em alcançar essas ideias, então conhecer intelectualmente não é conhecer coisas, mas alcançar ideias. Mas não é isto que Tomás defende, seguindo Aristóteles neste ponto: o mundo em que vivemos, o mundo material, é real, e nosso conhecimento intelectual é o efetivo conhecimento das coisas, não de ideias transcendentais e universais que não estão no mundo.

No fundo, o debate aqui é este: será que as ideias e noções universais que estão em nosso intelecto são, elas próprias, o objeto de nosso conhecimento intelectual, ou será que elas são apenas o meio pelo qual nós conhecemos a própria realidade? Acompanhemos esse debate interessantíssimo.

2. A hipótese controvertida inicial.

O que é que nós conhecemos de fato, quando nosso intelecto consegue abstrair as ideias ou formas universais a partir dos “fantasmas”, isto é, das imagens que os nossos sentidos inscrevem em nossa imaginação quando exploram as coisas e o mundo? Conhecemos as coisas, ou seja, as coisas são o verdadeiro objeto de nosso conhecimento intelectual? Ou será que o objeto do nosso conhecimento são as próprias ideias universais, as noções, as formas abstratas das coisas, que estão em nossa mente?

A hipótese inicial vai propor, portanto, que, quando nós, em nossa mente, acessamos as memórias da nossa imaginação e, a partir delas, abstraímos as ideias universais, as formas abstratas, as noções das próprias essências das coisas, na verdade, nosso conhecimento consiste nessas ideias mesmas, e não nas coisas que são conhecidas por meio delas. Assim, o objeto do nosso intelecto, segundo esta hipótese, são as species inteligíveis abstraídas dos fantasmas, e não as coisas, os entes que estão no mundo.

Há três argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

Como já vimos, nosso intelecto nasce vazio, como se fosse uma página em branco, a ser escrita. Ou seja, nosso intelecto é, ao nascer, inteiramente potencial para o conhecimento intelectual. Ora, o ato do intelecto, ou seja, o seu aperfeiçoamento, se dá quando nós vamos inteligindo, ou seja, adquirindo as species, as ideias ou formas universais abstratas que vamos adquirindo quando conhecemos. Portanto, a perfeição do conhecimento intelectual não são as coisas, mas as ideias, as species que vão se depositando no intelecto que conhece. Logo, o objeto do nosso conhecimento não são as coisas, mas as próprias ideias que chegamos a adquirir, em nosso intelecto, sobre as coisas e a partir delas, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Aquilo que é objeto de intelecção, ou seja, as próprias ideias universais, formas abstratas ou species, têm que estar em alguma coisa, porque tudo o que existe está em alguma coisa. Ora, é claro que essas ideias ou species, sendo elas abstratas e universais, não podem estar nas coisas que existem no universo, porque as coisas são individuais e concretas; além disso, as ideias ou species universais são plenamente inteligíveis em ato, ou seja, contêm em si tudo o que é necessário para que um ser inteligente possa conhecer. Mas as coisas concretas e individuais, as coisas materiais que existem no mundo, não são inteligíveis em ato, mas apenas potencialmente inteligíveis. Isto quer dizer que sua inteligibilidade demanda esforço, exame, pesquisa, investigação e abstração para permitir a intelecção. Portanto, aquilo que é inteligível em ato deve estar naquilo que intelige em ato, e portanto o intelecto conhece as próprias ideias universais, as species, e não as coisas do mundo às quais as ideias se referem, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor parte de um logicismo, de um nominalismo mesmo, ou seja, da proposição de que nossas concepções, nossa linguagem, nossas noções exprimem apenas as ideias que estão na nossa mente, e não as coisas para as quais eles apontam.

O argumento lembra que o próprio Aristóteles, no livro “Sobre a Interpretação”, diz que as noções e conceitos que verbalizamos são expressões das impressões que estão em nossa alma. Ora, prossegue o argumento, as nossas noções, os conceitos que estão em nossa linguagem são a expressão do conhecimento intelectual que há em nossa mente, ou seja, daquilo que é o objeto do nosso intelecto. Ora, se o próprio Filósofo diz que nossa linguagem se refere ao que está impresso em nosso intelecto, então a linguagem humana não fala das coisas do mundo, mas das ideias em nosso espírito, porque ela exprime aquilo que é objeto do nosso conhecimento, e o objeto do nosso conhecimento não são as coisas, mas as próprias ideias em nossa mente que conhece, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra faz um paralelo interessante: os dados inteligíveis, as informações inteligíveis estão para nosso intelecto como as informações sensíveis estão para os nossos sentidos. Ora, quando nosso sentido percebe alguma coisa, quando ele olha, por exemplo, para um campo de girassóis, ele não percebe uma “informação do amarelo”, mas o próprio amarelo para o qual está olhando. Portanto, quando o intelecto apreende alguma coisa, ele não apreende a “ideia da coisa”, mas a própria coisa cuja ideia ele apreendeu, conclui o argumento.

5. Encerrando.

No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás, que reafirmará o realismo fundamental do processo humano do conhecimento.