1. Retomando para concluir.

Esta é, com certeza, uma das partes mais complexas da Suma, mais técnicas; trata-se da teoria do conhecimento de Tomás.

Ele pressupõe a existência de Deus, que a razão pode alcançar independentemente de revelação, como vimos na questão2. E pressupõe ainda que Deus dê inteligibilidade ao universo, às coisas imateriais e materiais que criou; pressupõe que esta inteligibilidade exista tanto nas coisas como nas mentes, de tal modo que seja possível conhecer.

No caso dos seres humanos, há uma circunstância a mais: somos os únicos seres inteligentes que são capazes de aprender. Mas este processo de aprendizagem não é simples, como já tivemos oportunidade de ver.

Estudaremos, agora, as respostas de Tomás aos três últimos argumentos objetores deste artigo.

2. Os argumentos objetores.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor quer resgatar aquela metáfora que compara a visão corporal, dos olhos, com a “visão” intelectual, que decorre do conhecimento. Ora, quando nossos olhos enxergam, nossa mente não enxerga mediante a abstração e a extração de noções abstratas, como se nossa visão corpórea, nossos olhos, enxergassem species de cores, e não simplesmente as próprias cores.

Ora, do mesmo modo, diz o argumento, se são as próprias cores que se imprimem nos olhos, quando enxergamos, então, de modo similar, são os próprios fantasmas, as imagens da memória que formam a nossa imaginação, que se imprimem diretamente no nosso intelecto, quando chegamos ao conhecimento intelectual. Então conhecer intelectualmente deve consistir em imprimir os fantasmas no intelecto, como as cores se imprimem nos olhos quando enxergamos, e não em algum tipo de abstração que extraia deles as species, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Vamos acompanhar, aqui, a resposta de Tomás, que, embora esteja muito condicionada pela ciência do seu tempo, ainda tem pleno valor filosófico hoje.

Dificilmente conseguimos pensar na inteligência como uma realidade plenamente imaterial. Também dificilmente conseguimos pensar em conhecimento que não esteja registrado fisicamente em alguma memória, ou dissociar o pensamento e o cérebro. E é justamente o que Tomás nos chama a fazer aqui.

De fato, a luz que atinge nossos olhos é uma realidade física, e é capturada fisicamente pelos nossos olhos. Estimulando nossos nervos, é por uma atividade neural física que a luz é enxergada por nós, e estes estímulos são guardados fisicamente em nossa memória, por reações químicas em nosso cérebro. Assim, a cor existe fisicamente nos objetos que enxergamos, e a visão existe fisicamente em nós; o ato de enxergar envolve a captura e o armazenamento de informações físicas, sempre de modo físico, em nós. É por isto que, no final das contas, as cores podem imprimir-se em nós fisicamente quando as enxergamos, e não precisam passar por nenhum processo de abstração; são vistas por nós pelo mesmo modo com o qual existem na natureza.

Mas as noções intelectuais, como as espécies e gêneros ou as definições matemáticas, não existem fisicamente na natureza: a natureza, como conjunto de entes materiais, somente possui seres individuais, e essas noções não são individuais. Assim, os dados impressos pelos sentidos em nossa memória, que formam nossa imaginação, e que têm, em si, a marca da materialidade (que é a marca da contingência, da individualidade da nossa imaginação), precisam ser purificados, pelo nosso intelecto agente, daqueles traços que estão diretamente ligados ao fato de que os fantasmas são imagens sensoriais do mundo material. Assim, examinando os “fantasmas” dos cães que já enxerguei pela minha vida afora, meu intelecto agente pode perceber que não é da essência canina ter pelagem desta ou daquela cor, e que a variação da cor da pelagem não modifica o fato de que um cão é cão. Assim, o intelecto agente purifica, nas imagens de cão que estão na minha memória, aqueles aspectos que não são essenciais, mas decorrem da materialidade dos cães que já enxerguei, até chegar na noção que constitui a própria espécie canina, purificada daqueles aspectos que são acidentais e ligam-se à individualidade dos cães que examinei. Esta noção de espécie canina não é uma realidade material, mas uma realidade puramente imaterial, já que não existe, no mundo, uma “espécie canina” existindo e latindo por aí, mas apenas cães individuais. Assim, não é o fantasma, ou seja, a imagem de cão que resgato na minha imaginação, que se inscreve no meu intelecto, mas o resultado da abstração que o intelecto agente faz nos fantasmas, e que resulta num conhecimento imaterial, a ser inscrito imaterialmente no meu intelecto possível. Então, conclui Tomás, a analogia com o ato de enxergar não funciona, aqui.

O quarto argumento objetor.

O quarto argumento objetor quer provar que o conhecimento intelectual não pode ser atingido pelo processo de abstração a partir dos fantasmas da nossa imaginação, porque não haveria, no nosso intelecto, nenhuma estrutura capaz de fazer essa abstração. O argumento afirma que o intelecto possível, também conhecido como intelecto passivo, é uma estrutura destinada apenas a receber conhecimento intelectivo; não tem a capacidade de buscá-lo ativamente. Por outro lado, diz o argumento, o chamado “intelecto agente” seria como o “olho” do nosso intelecto. Ora, o olho recebe a luz e a enxerga, mas não extrai dela nenhuma abstração; apenas lida com ela, transformando-a em impulsos nervosos para o cérebro. Assim, se o trabalho do intelecto agente é similar ao do olho, ele simplesmente recebe o fantasma, mas não realiza nenhuma atividade sobre ele. Logo, o processo de conhecimento intelectual não depende da abstração sobre os fantasmas, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

O intelecto agente é como um farol intelectual: de modo similar àquele pelo qual o olho enxerga as coisas que foram iluminadas pelo sol, o nosso intelecto agente ilumina nossa imaginação, de tal modo que aqueles dados que são individuais, concretos, sensoriais, possam ficar aptos a serem “enxergados” intelectualmente. É claro que a alma humana é uma só, embora tenha, em si, as funções vegetativas, sensoriais e intelectivas. Ora, o simples fato da presença das funções intelectivas influencia as próprias funções sensoriais, de tal modo que ele é capaz de organizar suas memórias, sua imaginação de tal maneira a fornecer o material concreto com o qual a inteligência trabalhará. É esse material da imaginação, captado pelos sentidos, que, iluminado pelo intelecto agente, fornecerá, por meio da abstração (isto é, pela purificação de todos os condicionamentos resultantes da origem material das informações) as species, ou seja, as ideias universais inteligíveis pelas quais conhecemos intelectualmente o mundo. O intelecto agente, portanto, tem essas três funções: ilumina a imaginação (fantasmas), purifica os fantasmas das suas condições materiais originais (abstração) e depois inscreve o conhecimento intelectual obtido no intelecto possível.

O quinto argumento objetor.

O quinto argumento objetor vai simplesmente citar Aristóteles, com todo o peso de sua autoridade. De fato, na obra Sobre a Alma (De Anima), Livro III, IV, O Filósofo diz que as coisas são por nós conhecidas, em suas species, por meio dos fantasmas da imaginação.Ora, se é assim, a inteligibilidade é a própria formação dos fantasmas, isto é, das imagens depositadas em nossa memória, que formam a nossa imaginação, e não por alguma abstração sobre elas, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Os fantasmas, ou seja, as imagens que se formam na nossa imaginação a partir dos dados obtidos por nossos sentidos, são, de fato, essenciais para o conhecimento intelectual, por dois motivos:

1. O nosso intelecto agente os ilumina e, por abstração, extrai dele as species inteligíveis, ou seja, as ideias universais das essências das coisas, que é o próprio conhecimento intelectual que temos do mundo.

2. Nosso intelecto precisa sempre voltar aos fantasmas, ou seja, precisa das imagens da imaginação, organizadas em nossa memória sensorial, para pensar no conhecimento intelectual que já possuímos. Não conseguimos, por exemplo, pensar na espécie canina sem recorrer, na nossa imaginação, às imagens concretas dos cães que já tivemos a oportunidade de encontrar pela vida afora. De fato, esta relação entre o conhecimento intelectual e a necessidade de recorrer à imaginação para pensar já foi debatida por nós na questão 84, artigo 7.

Assim, Aristóteles tem razão quando diz que o intelecto conhece as coisas nos fantasmas, no sentido de que, sem eles, não podemos abstrair para chegar ao conhecimento universal das coisas, nem podemos resgatar esse conhecimento com o nosso pensamento sem recorrer aos fantasmas.

3. Concluindo.

Mais uma vez, não podemos nos deter na complexidade das teorias clássicas do conhecimento. Mesmo quando não entendemos tudo, devemos prosseguir para o próximo artigo, porque Tomás tem essa metodologia de esclarecer, às vezes num texto posterior, o que ficou obscuro ou incompleto no texto anterior. Ele usa um outro método pedagógico, muito diferente do nosso método eletrônico, e muito mais poderoso e profundo.