1. Voltando.

Os fantasmas (phantasmata) da imaginação são a ligação entre o conhecimento sensorial, que compartilhamos com os animais, e o conhecimento intelectual, que compartilhamos, guardadas as proporções, com os anjos.

Estabelecida, pois, de modo tão preciso, a relação entre corpo e alma espiritual no processo de conhecimento intelectual, é hora de examinar as respostas que Santo Tomás nos oferece a respeito dos argumentos objetores iniciais.

2. As respostas aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor começa lembrando que, se pensamos que conhecemos alguma coisa, mas nosso conhecimento é diferente daquilo que a própria coisa é, então nosso conhecimento é falso. Ora, prossegue, as coisas que existem no mundo são constituídas de matéria e forma, e sua forma não é adquirida por abstração, mas por algum processo de geração que as torna aquilo que são. Portanto, se nosso conhecimento intelectual consistisse em contemplar os fantasmas em nossa imaginação e extrair deles as formas universais das coisas, não teríamos um conhecimento verdadeiro das coisas, mas apenas dos seus fantasmas em nós. Seria, portanto, um falso conhecimento, porque não conheceríamos as próprias coisas, mas apenas seus fantasmas. Logo, conclui o argumento, nosso conhecimento intelectual das coisas não pode decorrer da abstração a partir dos fantasmas.

A resposta de Tomás.

O processo de abstração, diz Tomás, tem dois modos, ou duas maneiras para acontecer.

A primeira maneira é o caminho do raciocínio, que Tomás chama de “compor e dividir” (usando um termo técnico do seu tempo). Trata-se do processo de construir hipóteses sobre o objeto de conhecimento, comparando-o com outras coisas já conhecidas, de modo a, mediante a afirmação ou negação dessas hipóteses, chegar ao conhecimento da coisa. Assim, quando eu vejo um animal, sem identificar sua espécie, eu posso perguntar: ele late como um cão? Caso a resposta seja positiva, então posso identificá-lo como um cão.

A segunda maneira é a consideração pura e simples do próprio objeto de conhecimento, sem proceder pela via da construção de hipóteses comparativas que devem ser afirmadas ou negadas. Neste caso, a própria coisa é considerada, sem compará-la com nenhuma outra. Vejo um animal, vejo que é peludo, é quadrúpede, mamífero e late. É um cão.

Quando estou utilizando a primeira maneira de abstrair, e, portanto, construindo hipóteses comparativas sobre o objeto, então, quando eu afirmo que existe nele algo que, na verdade não existe, ou vice-versa, eu estou em erro, e o conhecimento que eu deveria obter, neste caso, está errado. Se, por exemplo, eu crio a seguinte hipótese: este ente é incorpóreo, quando ele, na verdade, é um cão, e portanto é um ente corporal, eu realmente estou em erro. O conhecimento a que chego, desta maneira, é falso.

Mas, quando estou aprendendo sobre o meu objeto pela segunda via, eu devo, de fato, abstrair do objeto aqueles aspectos que, embora estejam de fato nos objetos percebidos, são acidentais à própria essência do objeto; somente desta maneira chegarei ao conhecimento intelectual. Assim, após examinar vários cães, percebo que este tem a pelagem marrom, aquele tem a pelagem amarelada, aquele outro a tem preta, e assim por diante. Devo, então, abstrair dos fantasmas destes cães a cor da pelagem, para chegar à noção de que cães têm pelagem de várias cores, sem que isto altere sua essência de cão. É claro que isto não é verdade para cada cão que eu conheci no uso adequado dos meus sentidos: um cão que seja, por exemplo, inteiramente marrom, não tem “pelagem de várias cores”, mas tem a pelagem inteiramente marrom. Mas, neste caso, o fato de que eu nego que a essência canina tenha que ter esta ou aquela cor de pelagem não me leva a um conhecimento falso do cão, mas a uma abstração que é necessária à perfeição do meu conhecimento intelectual sobre os cães. Portanto, aqui, abstrair, com o intelecto, aspectos que, na realidade material e concreta, não estão separados, não leva à falsidade do conhecimento, mas as coisas ocorrem exatamente ao contrário.

Portanto, se eu dissesse que os cães não têm cores na sua pelagem, isto seria um conhecimento intelectual falso. Mas, se eu afirmo que os cães podem ter diversas cores, sem deixar por isso de ser cães, meu conhecimento é verdadeiro, porque esta afirmação é verdadeira.

Não há como imaginar um cão sem uma cor específica na sua pelagem. Mas o processo direto de abstração nos leva a separar as cores de pelagem que estão na minha imaginação, quando visualizo mentalmente os fantasmas de cães que tenho em minha memória, por identificar que não é da essência do cão ter esta ou aquela cor de pelagem, mas ter pelagem de alguma cor. Separar as cores concretas dos cães que conheci, por um lado, do fato de que a cor da pelagem não é da essência do cão, por outro, não me leva a conhecer falsamente o cão.

Mas, se ao abstrair os aspectos materiais dos fantasmas de cão que tenho em minha memória, eu chegasse à conclusão de que os cães não precisam ter pelagem, ou sua pelagem não precisa ter concretamente alguma cor, eu teria chegado a um conhecimento errôneo sobre os cães.

Este foi o erro de Platão, diz Tomás. Ao abstrair a cor da pelagem, o peso concreto dos cães, sua altura, o timbre de seu latido e outros aspectos materiais, concretos dos cães, ele chegou à conclusão de que há uma “pura ideia” de cão, imaterial, universal e separado, num “reino das ideias”’ transcendentes, e esta “ideia de cão” subsiste sem corpo, sem cor, sem peso, sem altura, porque é uma pura ideia. Quem, pelo processo de abstração, imaginar que é possível existir realmente um cão sem cor, sem peso, sem altura, como um ente real, ou seja, não simplesmente como uma ideia numa mente, teria chegado a um conhecimento falso dos cães. Não há um cão assim, porque não existe um reino separado de ideias universais.

Portanto, é verdade que as formas, como ideias universais, existem sempre em alguma mente, de modo imaterial e abstrato, como conhecimento. Nas mentes, estas ideias existem sem matéria, mas as mentes (quando conhecem verdadeiramente) sabem que aquela ideia universal se refere a um ente que, em sua existência concreta, é um ente material. O fato de que as coisas existem nas inteligências imaterialmente, por um lado, e materialmente na concretude da realidade criada, por outro, não significa que as inteligências tenham um conhecimento falso sobre as coisas materiais, mas apenas que o modo de existir, para as formas, é diferente, quando elas existem nas inteligências ou na realidade material.

Portanto, o processo simples de intelecção por abstração direta, ao separar, da forma, os aspectos que decorrem simplesmente da matéria, não leva a um conhecimento falso, mas a um conhecimento verdadeiro, abstrato, universal e imaterial sobre coisas que existem em sua concretude material – e que, inclusive, inclui a informação de que as coisas materiais que conhecemos não deixam de ser materiais quando nós chegamos a conhecê-las.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento vai na mesma linha: se a matéria entra na própria definição da coisa, então nada do que é material poderia ser inteligido por abstração, porque abstrair é excluir exatamente os aspectos materiais da coisa. Mas a materialidade é exatamente o princípio da individuação, e o conhecimento intelectual é abstrato por natureza. Logo, se não podemos abstrair a matéria dos fantasmas, por um lado, e se o conhecimento intelectual é imaterial, por outro, então não é pela abstração dos fantasmas que chegamos ao conhecimento intelectual, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

A questão aqui diz respeito à natureza da matéria. Nós sabemos que as coisas materiais são constituídas de forma e matéria, isto é, de estrutura inteligível e concretude material individual. Todas as coisas criadas no universo material, efetivamente existentes, têm, em sua estrutura, matéria e forma.

A questão, portanto, é se a própria noção ou a species, ou seja, a definição mesma, das coisas materiais, inclui a sua matéria. Houve quem dissesse que a matéria não entra na definição das coisas materiais, mas apenas a sua forma. Porque, para definir, por exemplo, os cães, eu tenho que desconsiderar sua dimensão material, corporal, concreta, individual, para chegar a uma definição universal, ou seja, à própria species de cão. E, ao fazer isto, eu deveria excluir a própria matéria da definição de cão.

Mas isto se dá porque quem pensa assim não sabe que a matéria tem várias definições, de tal modo que ela pode ser pensada diferentemente em cada nível de existência.

As coisas reais, materiais, concretas, corporais, têm em si a matéria que os compõe, ou seja, este corpo, este pedacinho concreto de matéria que forma o seu corpo, do qual posso contar as moléculas, identificá-las e tocá-las. Esta matéria concreta, identificada, que forma as coisas corporais existentes no mundo real, e que pode ser experimentada efetivamente pelos nossos sentidos, é chamada de materia signata, ou seja, o pedacinho de matéria que é assinalada para isto ou para aquilo.

Mas quando eu falo abstratamente de alguma coisa material, alertando que elas são corporais, eu faço menção ao fato de que elas são compostas por matéria, e a palavra “matéria”, aí, entra como uma abstração, sem designar este ou aquele corpo concretamente, este ou aquele pedaço concreto de matéria, mas o fato de que a própria noção daquela species inclui a materialidade em sua definição. Fala-se, aqui, que a palavra matéria significa, aqui, a matéria comum, mas ainda uma matéria comum de um ser que, na sua existência concreta, é constituído por materia signata; é por isto que falamos, aqui, de matéria comum sensível.

Assim, de duas maneiras podemos falar da matéria, por exemplo, que constitui os seres humanos: posso dizer que os seres humanos são compostos por carne e osso (matéria sensível comum), como posso dizer que eu, sendo um ser humano, sou constituído por estes ossos e esta carne que há em mim (materia signata).

Portanto, quando estou em processo de aprendizagem sobre o que é a própria espécie humana, tenho que abstrair desta minha carne e destes meus ossos concretos, com sua quantidade, com sua textura, com seu peso, para chegar à noção de espécie humana. Mas não posso abstrair do fato de que os seres humanos, os membros da espécie humana, têm carne e osso.

Mas há noções que ultrapassam a própria ideia de matéria comum: são as chamadas “noções matemáticas”, em que não podemos dizer que são compostas por matéria comum; quando eu falo, por exemplo, da noção matemática de quantidade, estou falando de uma medida de grandeza da matéria, mas não de algo que é composto, em si mesmo, de matéria. Ou seja, a noção de quantidade, que envolve massa e extensão, só são inteligíveis quando são referidas à matéria, mas não são materiais em si mesmas.

Por isto, quando eu estou descrevendo a bola de futebol oficial como uma esfera de 22 centímetros de diâmetro, a noção da esfera que constitui a bola, aí, refere-se à matéria inteligível individual; para que uma bola seja oficialmente uma bola de futebol, ela deve ser constituída por uma esfera de 22 centímetros de diâmetro. O tamanho dessa esfera, portanto, não é material, mas só é inteligível quando faz menção a esta noção espacial, ou seja, é uma noção cuja inteligibilidade implica menção à matéria; especificamente, ao volume da matéria que cabe numa esfera de 22 centímetros de diâmetro.

Mas a própria noção da figura matemática da esfera também deve ser abstraída dessa medida determinada de 22 centímetros, para ser definida como aquela figura geométrica que pode existir com qualquer diâmetro diferente de zero. Mais uma vez, esta noção também só é inteligível pela referência que faz á matéria; mas não uma quantidade especificada de matéria, senão ao fato de que as esferas, para existirem no mundo real, devem envolver matéria. Logo, temos, aí, a ideia de matéria inteligível comum.

Ao passo que as espécies matemáticas podem ser abstraídas, pelo intelecto, da matéria sensível; e não só da individual, mas também da comum; não, porém, da matéria inteligível comum, mas só da individual.

Portanto, a matéria sensível é chamada de matéria corporal, porque ela implica, em sua existência, a existência de qualidades sensíveis, como o cheiro, a cor, a textura; mas a matéria inteligível envolve apenas a quantidade, e nada mais. Mas é sempre a quantidade de alguma substância.

É fácil entender isto: imagine que estamos entrando no elevador de um certo edifício. Ali, há uma placa dizendo: “capacidade do elevador: 420 Kg ou seis pessoas”. Ora, trata-se, aqui, de matéria inteligível individual. Não interessa, para a capacidade deste elevador, se estes 420 quilos de capacidade transportarão seis homens, seis mulheres, seis cadáveres ou mesmo dez crianças ou uma certa quantidade de tijolos. Estes seis homens ou seis mulheres, por outro lado, terão, em seus corpos, matéria sensível ou corporal, que tem um aspecto, uma textura, uma cor e um cheiro próprios.

Portanto, a chamada “matéria inteligível”, que envolve a quantidade, o formato, a figura, é mais fundamental do que a matéria corporal com suas qualidades sensíveis, porque podemos conceber a matéria inteligível sem a matéria sensível (como acontece na placa de limite de peso do elevador, por exemplo), mas não dá para conceber a matéria sensível sem a matéria inteligível, ou seja, imaginar que algo possa ter uma cor, uma textura, sem ter uma figura ou formato. A quantidade, ou delimitação, ou formato, ou figura, é mais fundamental na substância do que as propriedades sensíveis.

É por isto que podemos conceber as quantidades sem as qualidades sensíveis, como faz o engenheiro ao calcular a capacidade do elevador. Ou seja, a matéria inteligível pode ser abstraída da matéria sensível. Além disso, podemos abstrair a ideia de esfera, por um lado, das esferas que são definidas oficialmente como próprias das bolas de futebol ou das bolas de tênis, por exemplo. Assim, estou abstraindo a matéria inteligível comum, que não envolve esta ou aquela substância, da matéria inteligível individual, que determina que a bola seja deste ou daquele esporte, por exemplo.

Eis, pois, os graus de abstração aos quais podemos chegar quando pensamos nas noções abstratas das coisas materiais. E é por isto que as noções de coisas materiais podem ser, ao mesmo tempo, imateriais, e ao mesmo tempo podem fazer referência à matéria, quer à matéria sensível comum, quer à matéria inteligível, comum ou individual.

É claro que existem coisas que não são materiais, e cuja noção pode ser abstraída até mesmo da matéria inteligível comum. É o caso do ser e seus transcendentais, como o ente, o uno, o belo, o verdadeiro e o bom; é o caso das noções de ato e potência, por exemplo. Estas são, portanto, realidades separadas da matéria.

Mais uma vez, diz Tomás, vemos aqui o erro de Platão: por não conhecer estas noções imateriais da matéria, que podem entrar nas noções das coisas materiais e mesmo nas noções matemáticas, Platão propôs que toda ideia, mesmo as ideias das coisas materiais, é sempre uma realidade separada da matéria, existindo idealmente num reino separado. Ele estava errado.

3. Encerrando.

Pontos complexos. E ainda há mais três objeções a serem examinadas no próximo texto.