Nosso intelecto apreende as coisas materiais por meio da abstração das imagens na nossa memória sensorial? Primeira parte, questão 85, artigo 1, parte 2 de 4.

1. Retomando.

Não somos anjos. Precisamos da nossa experiência concreta, das coisas que pudemos explorar com nossos sentidos, das memórias daquilo que foi vivido, para poder chegar a um conhecimento intelectual do mundo. Essas percepções organizadas em nossa memória formam um tesouro de informações, que é a nossa imaginação. É verdade que a palavra “imaginação” ganhou, hoje em dia, significações que dizem respeito às coisas fantásticas, à capacidade de criar coisas que não existem, de visualizar irrealidades; a tal ponto que a palavra “imaginário”, que, no tempo de Tomás, designava o tesouro das nossas percepções da realidade, devidamente organizadas em nossa memória, veio a significar, hoje em dia, aquilo que é fantasioso, em comparação com aquilo que é real, a tal ponto que “real” e “imaginário” passaram a ser antônimos. Precisamos nos prevenir do perigo de concebê-los assim, em nosso estudo do pensamento de Tomás.

O imaginário, para Tomás, é o resultado da nossa experiência com o real; é o real devidamente percebido por nós, organizado em nossa memória pelos nossos sentidos internos e registrado como o tesouro do nosso conhecimento empírico, sensorial; esse tesouro de informações, que não é material mas tampouco é abstrato (de fato, são informações profundamente marcadas pelas condições concretas em que foram obtidas) são chamadas por Tomás de “fantasmas” (phantasmata); não podemos esquecer que a palavra “fantasma” também adquiriu significados distorcidos hoje: pensamos logo em espíritos de gente morta aparecendo para os vivos, como nos filmes hollyoodianos de terror. Para fazer uma brincadeira, diríamos que aqueles “fantasmas” de filmes, que são aparições de alminhas vestidas de lençóis e imateriais, têm alguma relação com a ideia medieval de “phantasmata”: os “fantasmas” pelos quais nossa memória organiza o conhecimento sensível são, de certa forma, as “alminhas” das coisas com as quais entramos em contato, e que aparecem para nós em nossa imaginação, quando pensamos nelas. Mas não são, ainda, um conhecimento intelectual propriamente dito, porque ainda estão marcadas por serem dados concretamente relacionados com coisas concretas. O debate, aqui, é, portanto, a respeito da relação desses “fantasmas” com o nosso conhecimento intelectual: será que eles são a verdadeira “matéria-prima” da qual nosso conhecimento intelectual surgirá depois? Já vimos que a hipótese inicial é a de que os fantasmas não são a base necessária sobre a qual o nosso conhecimento intelectual é formado. Vimos também os argumentos que tentam comprovar essa hipótese e, por fim, o argumento sed contra, que tenta negá-la. Estudaremos, agora, a resposta de Tomás sobre o assunto.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Para iniciar sua resposta, Tomás nos lembra que cada criatura que é capaz de conhecer tem um objeto que é próprio ao tipo de conhecimento do qual ele é capaz, como debatemos na questão 84, artigo 7. Há, assim, três tipos de criaturas capazes de conhecer, e três tipos de objetos que são próprios para a sua respectiva capacidade de conhecimento:

1) O conhecimento estritamente sensorial dos animais. Os animais irracionais são capazes de conhecer, de lembrar e até de fazer estimativas e resolver problemas concretos; é assim que, quando atiro uma bolinha, o meu cão é capaz de pular de tal modo que antecipa o ponto em que a bola estará num determinado momento, e consegue apanhá-la no ar. Mas o seu conhecimento não atinge nunca o ponto da abstração. Animais têm um conhecimento concreto: eles sabem quem eu sou, qual o seu território, como apanhar sua presa, mas não são capazes de discorrer sobre a noção de presa ou de debater politicamente os limites de um determinado território. Seu conhecimento, portanto, nunca chega ao grau do intelectual, permanece sempre um simples conhecimento sensorial, marcado pela concretude, pela temporalidade, pela individualidade e pela determinação dos dados que possuem. Nós, humanos, também somos animais; portanto, também possuímos este tipo de conhecimento.

2) Há um outro tipo de criatura que é capaz de conhecer: trata-se daquelas inteligências puramente espirituais que costumamos chamar de “anjos”. Talvez nenhuma época seja mais capaz de conceber uma inteligência não-corporal do que a nossa, que conhece a internet, o Estado e as pessoas jurídicas, todos dotados de algum tipo de capacidade de conhecer desconectada de corpos individuais. Da fato, os anjos são justamente isto: inteligências não materiais, não corporais, e portanto capazes de conhecer, como objeto próprio, as realidades imateriais, como conceitos, noções, ideias, abstrações, universalidades e similares. Neste caso, o conhecimento do concreto, do individual, do material, não é proporcionado à inteligência angelical. Os anjos podem conhecer as realidades concretas, mas apenas de modo indireto, ou seja, aplicando as noções de particularidade e concreção às ideias universais. Assim, eles enxergam o mundo de modo indireto, pela visão intelectual que têm de si mesmos, ou, para aqueles que estão na graça, pela visão do mundo em Deus. Anjos não têm conhecimento empírico, experimental; o conhecimento angélico deve parecer mais com o conhecimento dos idealistas; anjos devem ser muito hegelianos em seu modo de conhecer. Ou, talvez dizendo melhor, Hegel propõe uma filosofia do conhecimento que é muito mais angelical do que humana.

3) Há uma outra criatura, o ser humano, que ocupa uma posição interessante: é um animal, e por isso é capaz de conhecimento sensorial, concreto, experimental, como todos os animais. Mas, de modo semelhante aos anjos, possui a capacidade de lidar com conceitos, noções, abstrações, formas e ideias. O ser humano é capaz, portanto, de conhecer as coisas em sua concretude e, a partir desse conhecimento, purificar suas informações de tudo aquilo que é concreto, individual, material portanto, e chegar a um conhecimento intelectual daquilo. Então, de modo inverso ao dos anjos, que conhecem o concreto a partir do abstrato, nós, humanos, chegamos a conhecer o abstrato a partir do concreto. É neste sentido, portanto, que o nosso conhecimento intelectual depende inteiramente do conhecimento sensorial, cuja perfeição, cuja culminação é a construção dos “fantasmas”; este é o “primeiro nível” do conhecimento humano, que compartilhamos com os outros animais. A partir desses “fantasmas”, por abstração, chegamos ao conhecimento intelectual, que é o nosso “segundo nível” de conhecimento, que compartilhamos (embora de modo muito mais rudimentar) com os anjos.

O conhecimento intelectual humano.

Estamos, pois, numa posição intermédia entre anjos e bichos. Somos animais, como os bichos, mas somos intelectuais, como os anjos. A diferença é que os anjos têm, como objeto natural de seu intelecto, as ideias ou formas universais e abstratas, e conhecem as coisas concretas, em sua particularidade, num segundo tempo, por dedução e composição de noções, enquanto nós temos como objeto natural do nosso conhecimento as coisas materiais mesmo, e chegamos às ideias e formas universais por abstração.

Eis aí, diz Tomás, o erro de Platão: não conseguiu articular nosso conhecimento sensorial, decorrente da nossa animalidade, com nosso conhecimento intelectual, decorrente da nossa espiritualidade; propôs, então, que nós devêssemos receber nosso conhecimento intelectual de alguma outra fonte que não as informações sensoriais obtidas pelo corpo, que ele considerava acidental e inferior. Assim, ele tenta explicar o conhecimento intelectual como se o nosso espírito já existisse num “reino das ideias” antes de ficar “preso” num corpo, e então ele “recebesse” essas ideias lá nesse “reino” abstrato. Seríamos mais como “anjos presos em corpos” do que propriamente seres humanos, nesse caso. Mas somos humanos.

3. Encerrando.

Nos dois próximos textos, examinaremos as respostas de santo Tomás aos argumentos objetores iniciais.