1. Introdução.

Já sabemos que, na terminologia clássica, a palavra “fantasma” é utilizada para designar aquela imagem coordenada, em nossa memória, que se forma pela união adequada dos dados que nossos sentidos externos obtêm, no seu contato com as coisas do mundo. Assim, por exemplo, vemos os cães, com suas diversas cores e aspectos, seus tamanhos e pesos diversos, seus latidos peculiares, seu comportamento, a textura das pelagens e até seu cheiro peculiar, formamos imagens, representações na memória que reúnem essas informações de tal modo a nos permitir imaginar um cão, mesmo quando não há nenhum cão presente. E já vimos, sem nos deter para estudar especificamente sobre isto, que são estes “fantasmas” que permitem que nós adquiramos conhecimentos intelectuais sobre os cães, ou seja, permite que formemos em nós uma ciência sobre os cães.

Não é difícil imaginar a importância pedagógica deste debate. Nosso conhecimento intelectual nasce pelo estímulo que nossa imaginação recebe, quando entra em contato com as coisas do mundo. Assim, para aprender melhor, deveríamos ser estimulados a olhar, tocar, escutar, cheirar, saborear, já que, de uma memória enriquecida de boas recordações e ricos estímulos sairá, certamente, um intelecto mais perfeito, mais virtuoso. Sem esquecer que, na terminologia clássica, a ciência, o conhecimento intelectual, é considerado também uma virtude, isto é, um hábito positivo, que nos aperfeiçoa. Portanto, não temos somente virtudes morais, mas também virtudes intelectuais.

Nos artigos que se seguem, estudaremos mais detidamente como isto se dá.

2. A hipótese controvertida inicial.

Uma vez que o objetivo, agora, consiste em determinar o modo pelo qual chegamos ao conhecimento intelectual a partir dos “fantasmas” da nossa imaginação, não é de surpreender que a hipótese controvertida inicial, para provocar o debate e a polêmica, seja exatamente o de que os “fantasmas” não têm nenhum papel em nosso processo de inteligir. Assim, a hipótese propõe, para iniciar o debate, que, aparentemente, nosso processo de aprender, de chegar ao conhecimento intelectual das coisas materiais, não se dá por meio da abstração dos fantasmas da imaginação. Há nada menos do que cinco argumentos que querem defender esta hipótese, para iniciar o debate.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que a verdade consiste basicamente numa relação, a relação entre o intelecto que aprende e a coisa que é aprendida; a verdade da coisa consiste em que o intelecto apreenda dela, como seu objeto, a inteligibilidade que Deus concebeu e colocou nela. Se, portanto, aquilo que o intelecto apreende dela não corresponde ao que de fato ela é, não há a verdade, mas um conhecimento falso, isto é, um não-conhecimento.

As coisas materiais são compostas de matéria e forma; na verdade, a forma existe primeiro como species, como universal na mente de Deus, e se individualiza pela matéria, que forma a coisa.

Ora, prossegue o argumento, se o processo de conhecimento intelectual humano passa pela formação de uma imagem na memória sensorial, pela aquisição e ordenação dos dados dos sentidos que formam o fantasma, imagem esta que passaria por um processo de abstração, até chegar na species, que é imaterial.

Ora, se a coisa é material, e é a individuação da species universal na matéria, então um processo de conhecimento que chegue, a partir dos fantasmas, na forma abstrata e universal da coisa, então nós teríamos que admitir que nós não chegamos a conhecer intelectualmente as próprias coisas, mas, a partir delas, suas formas universais. Ora, as coisas não são formas universais, mas entes concretos e individuais. Logo, se nosso conhecimento intelectual das coisas se dá pela abstração sobre os fantasmas, então ele leva a um conhecimento falso. Assim, nosso conhecimento intelectual das coisas não pode decorrer da abstração sobre os fantasmas, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor vai no mesmo sentido: se o conhecimento intelectual humano é atingido pela abstração dos fantasmas, ou seja, retirando deles aquilo que os individualiza e concretiza, para chegar a um conhecimento universal e abstrato, isto significa que o conhecimento se dá pela retirada de tudo o que decorre da matéria, no fantasma. De fato, é a matéria que dá a individualidade e a concretude da coisa. Ora, a matéria constitui a coisa mesma, e se retirarmos a matéria da coisa, ela já não será uma coisa. Assim, o conhecimento intelectual não poderia ser atingido pela abstração sobre os fantasmas, porque isto significaria não conhecer as coisas materiais, ao retirar delas a materialidade, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

As imagens da nossa memória, formadas pelo contato sensível com as coisas, e que a filosofia clássica chama de fantasmas, são como que o objeto de nossa visão intelectual, ou seja, nosso intelecto enxerga esses fantasmas como nossos olhos enxergam as figuras das coisas para as quais olham.

Ora, quando nossos olhos enxergam as coisas, eles não enxergam por alguma espécie de “abstração” das cores vistas, mas pela impressão das cores mesmas, das figuras que elas formam, em nossa retina. A percepção visual do sentido da visão não decorre de “abstração”, mas da impressão das figuras visuais em nosso olho.

Assim, se a visão intelectual é análoga à visão sensorial dos olhos, e se a visão dos olhos decorre da impressão das imagens visuais na retina, então a visão intelectual deveria decorrer da impressão daquelas imagens constituídas na memória, ou seja, dos próprios fantasmas da memória sensorial, na inteligência, sem nenhum tipo de abstração. Portanto, o conhecimento intelectual humano não decorre da abstração dos fantasmas, mas da sua simples impressão no intelecto, conclui o argumento.

O quarto argumento objetor.

Como já estudamos em questões anteriores, nosso intelecto possui duas estruturas, que constituem nosso processo de aprendizagem e manutenção do conhecimento. Estas estruturas são o intelecto ativo, que ilumina os fantasmas para torná-los visíveis intelectualmente, e o intelecto possível, que recebe as species, que são as formas universais abstratas, para retê-las, guardá-las em si. Portanto, o intelecto possível, ou passivo, não faz nenhuma abstração em cima dos fantasmas, mas apenas recebe as abstrações já prontas. Por outro lado, a função do intelecto agente é iluminar, tornar inteligíveis os dados sensíveis dos fantasmas, como a luz ilumina as cores para torná-las visíveis aos nossos olhos. Assim, de modo análogo àquele pelo qual a luz ilumina as cores para torná-las visíveis aos nossos olhos, e isto não implica nenhum tipo de abstração, então o intelecto agente, embora influa nos fantasmas para torná-los visíveis ao intelecto, também não realiza nenhuma tarefa de abstração nelas. Assim, nosso processo de conhecimento intelectual não envolve nenhum processo de abstração a partir dos fantasmas, conclui o argumento.

O quinto argumento objetor.

O quinto argumento lembra que o próprio Aristóteles (“O” filósofo), na obra Da Alma, livro III, descreve o processo de conhecimento, dizendo simplesmente que o intelecto humano intelige as species nos fantasmas; ora, se o intelecto intelige diretamente nos fantasmas, ou seja, diretamente na imagem que a imaginação forma a partir dos dados sensoriais armazenados na memória, então esse processo não envolve nenhuma abstração, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra lembra que as coisas são inteligíveis exatamente porque é possível separar a sua inteligibilidade, sua forma, aquilo que lhes dá sentido e significado, da matéria que as individualiza e limita. Ora, se a inteligibilidade das coisas decorre dessa separação entre sua forma inteligível e sua matéria individual e concreta, e se a própria imagem da memória, que chamamos de fantasma, é marcada pela individuação, pela concretude, ou seja, pelas qualidades que são próprias da matéria, então o conhecimento intelectual tem que abstrair dos fantasmas aqueles aspectos que são limitações dadas pela matéria; portanto, o conhecimento intelectual vem da abstração das limitações determinadas pela matéria nos fantasmas, conclui o argumento.

5. Concluindo.

No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás.