1. Retomando.
Como nós vimos no texto anterior, Aristóteles nos ensina que nossa inteligência raciocina (ou elabora juízos) de dois modos: ela elabora os juízos especulativos, cujo fim é inteligir aquilo que é apreendido pelos nossos sentidos em contato com o mundo, e os juízos práticos, cujo fim consiste em uma obra humana. Assim, por exemplo, um biólogo que examina um cão procura raciocinar sobre ele (descobrir sua composição corporal, sua raça, sua espécie, seu gênero, os fins de sua atividade) elaborando raciocínios especulativos, do tipo: “dentes longos e afiados e um bom olfato são próprios para a caça; este animal tem dentes longos e afiados, além de um excelente olfato, logo ele deve ser um animal caçador”. Por outro lado, um artesão, por exemplo, quando quer fazer um objeto, elabora um juízo prático, cujo termo não é um simples conhecimento, mas um fazer; ele o elabora mais ou menos assim: “materiais duros e afiados são ótimos para o corte que eu preciso fazer nesta madeira; eis aqui um material duro que posso moldar para ficar afiado; façamos dele um machado para cortar madeira”. Tomás, então, passará a demonstrar que, em ambas as vias de raciocínio, é necessário estar num estado de vigília, alerta e em pleno uso dos sentidos, para chegar a conclusões válidas e adequadas. Voltemos, então, a examinar sua resposta.
2. Voltando à resposta sintetizadora.
Havendo, pois, determinado que a nossa inteligência usa estes dois caminhos, conforme tenha por objetivo o conhecimento da realidade ou a ação que a transforma, Tomás vai usar dois exemplos, para prosseguir seus ensinamentos: o exemplo de um ferreiro que forja uma faca, como exemplo de raciocínio prático, e o exemplo de um cientista que estuda as pedras ou os cavalos, como exemplo de raciocínio especulativo.
No caso do ferreiro, os sentidos são necessários para a construção do seu raciocínio prático: é preciso que ele saiba qual o fim da faca que irá fabricar, a que ela se destina, para sopesar adequadamente seu tamanho e formato: uma faca para descascar frutas certamente deve ser diferente de uma faca de açougueiro. Deve ser capaz de pesar o material, moldá-lo adequadamente, testá-lo, promover sua afiação, fazer o acabamento, o polimento, compará-lo com aquilo que será objeto do seu corte e assim por diante. Ele deve estar em estado de vigília, atento, desperto, experimentando e explorando o mundo exterior. Em todo o processo do raciocínio prático, portanto, o nosso ferreiro depende indispensavelmente dos seus sentidos, que lhe conduzem pelo processo de conceber e fazer a faca. Não há juízo prático, nem no caso do ferreiro nem em nenhum outro, na ausência dos sentidos.
De modo análogo, em seus juízos especulativos, nosso cientista precisará construir suas hipóteses a partir do exame do seu objeto (as pedras, ou os cavalos, no exemplo de Tomás). Ele as perceberá, submetê-las-á aos testes, à observação minuciosa, a uma medição criteriosa e, em seguida, buscará, por meio dos raciocínios especulativos, chegar às razões daquilo que observou. Na busca destas razões, ele precisará ainda mais estar no estado de vigília, de atenção, de contato com o mundo exterior, porque precisará testá-las, comprovar sua adequação ao objeto, e para isto precisará dos seus sentidos.
Comprovado está, portanto, que todo o nosso conhecimento, obtido por juízos práticos ou especulativos, depende indispensavelmente dos nossos sentidos, de sua utilização, da nossa vigília, da nossa atenção desperta ao mundo exterior. Portanto, é necessário concluir que não podemos construir um juízo intelectivo adequado, perfeito, se estamos privados dos nossos sentidos, conclui Tomás.
3. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
As coisas mais elevadas não podem ser condicionadas pelas inferiores. O sol não vai parar de iluminar se eu fechar os olhos, por exemplo. Ora, a capacidade intelectual de formar juízos e de raciocinar de modo inteligente, é manifestamente superior aos sentidos, à inserção e percepção sensorial do ser humano quanto ao mundo que o cerca. Assim, mesmo se privado dos sentidos, o raciocínio deve prosseguir formando seus juízos de modo desimpedido, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Não há dúvida de que o intelecto é superior aos sentidos, porque é capaz de organizar, sintetizar, abstrair, aprender com os dados sensoriais. Mas não pode fazer nada sem os dados sensoriais. Assim, a superioridade do intelecto sobre o sentido não é como a superioridade de duas coisas independentes entre si (como é a relação do sol com os meus olhos). No caso das duas coisas independentes, em que uma é superior à outra, o fato de que a superior é externa e incondicionada pela inferior explica a observação de que a inferior não pode impedir a superior; o sol continuará a brilhar, mesmo que eu não o queira enxergar. Mas no caso de funções de um mesmo ser, ainda que uma função seja superior à outra, há uma interdependência que determina que a função superior seja prejudicada pelo mau funcionamento da inferior. Assim, na ausência de sentidos externos, ou seja, numa situação em que o ser humano não está desperto e no uso adequado dos seus sentidos, o intelecto simplesmente não pode raciocinar.
O segundo argumento objetor.
Os juízos do intelecto articulam-se nos raciocínios, que tomam a forma dos silogismos; raciocinamos assim, por exemplo: os gatos miam; há ali um animal que mia; logo, deve ser um gato. Ora, prossegue o argumento, quando estamos dormindo, estamos privados dos sentidos, inconscientes e desligados da percepção do mundo exterior. Mas sabemos que, muitas vezes, nós raciocinamos em nossos sonhos, e não faltam relatos de que algumas descobertas científicas foram feitas durante o sono. Assim, o juízo do intelecto não fica impedido pela privação dos sentidos, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
A resposta de Tomás recorre à ciência do seu tempo sobre o sono, que estava bastante lastreada na obra “De Somno et Vigilia” de Aristóteles. Ali, com os conhecimentos limitados de que dispunha, é extraordinário perceber que Aristóteles já distinguia entre diversos níveis e fases do sono, que ele imputava a “vapores e fumaças” que circulariam em nós internamente, em razão da digestão ou de outros fatores.
Ele ensinava que, quanto mais intensos esses vapores e fumaças, maior a repercussão do sono nos sentidos. Assim, se os vapores internos fossem muito fortes, ficaríamos privados dos sentidos e da imaginação, e nem sequer sonharíamos; é o caso do sono pesado dos bêbados e dos glutões. Mas, em outros casos de sono leve, ou mesmo de entorpecimento patológico (como a febre e certos estados psiquiátricos) a imaginação permanece muito ativa, de modo a provocar visões e sensações. Mas há estados de sonolência que, embora diminuam a consciência externa, não nos tiram completamente da vigília, e nestes casos podem ocorrer intuições e, às vezes, até mesmo conclusões de certas coisas que se pensou na vigília. É preciso, no entanto, ter muito cuidado com estas situações: fora da condição de vigília, nosso pensamento pode nos enganar, pode nos levar para ilusões e falsidades que, somente quando examinados em condição de vigília plena poderão ser discernidos. É por isto que, mesmo quando estudiosos e cientistas alegam que solucionaram problemas ou obtiveram conclusões inusitadas em estado de sonolência, estas intuições têm que ser reexaminadas e purificadas quando o sujeito se encontra em estado de vigília.
Portanto, o fato de que sonhamos, ou mesmo encontramos certas intuições no estado de sonolência não é comprovação de que o intelecto independe da vigília dos sentidos para raciocinar. Não somente o estado de sono não é uniforme, como também as coisas que vemos ou intuímos neste estado não são confiáveis como indicadores de realidade, e precisam de reexame minucioso em estado de vigília plena. Assim, fica comprovado que o intelecto humano não pode formar juízos adequados, senão em estado de vigília, ou seja, no uso adequado dos sentidos.
4. Conclusão.
Quase poderíamos concluir, aqui, dizendo: “se beber, não dirija”. Esta seria uma conclusão autorizada por Tomás. Mas iríamos ainda mais longe: uma vez que a fé é um aperfeiçoamento, por graça, do nosso intelecto, ou seja, é uma virtude teológica intelectual, seria muito estranho, para Tomás, imaginar que a fé poderia levar a experiências irracionais, estados alterados de consciência ou manifestações ilógicas ou de transe. Não é por outro motivo que São Paulo recomenda, em Romanos 12, 1, que o nosso culto seja “logike latreia”, isto é, um culto razoável, lógico, racional, inteligente, a Deus.
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