1. Introdução.
Nós vimos, quando estudamos os sentidos externos e internos, que temos um sentido comum capaz de formar uma única imagem do objeto que estimulou nossos sentidos, e nossa memória é capaz de reter estas imagens, ou “fantasmas”; ou seja, a nossa “imaginação” não é, como pensamos hoje, o lugar da criação de ideias e de seres fantásticos, mas o arquivo do conhecimento sensível organizado internamente. É por isto que o artigo que examinamos agora é tão importante: essa imaginação, que guarda as imagens ou “fantasmas” da nossa experiência empírica, mostra o quanto a experiência sensorial com o mundo é importante para o nosso conhecimento intelectual, e o quanto, mesmo sendo seres inteligentes, continuamos a ser entes materiais, animais que pensam, no melhor sentido da palavra. E é por isso que a experiência não pode ser simplesmente substituída pelo estudo teorético em livros e outras fontes, nem por mestres e aulas. Estes meios são sempre complementares à experiência direta, e a experiência é sempre pressuposta ao conhecimento intelectual. Não adianta, por exemplo, saber tudo sobre as maçãs sem jamais ter visto, tocado, cheirado e degustado uma maçã: haverá sempre um conhecimento incompleto.
Há um exemplo interessante desta relação entre conhecimento intelectual e a memória das imagens sensoriais: os chamados “leões de Aleijadinho”, esculturas feitas pelo mestre barroco Aleijadinho que, supostamente, retratariam leões que ele nunca havia visto. Alguém descreveu a ele como seriam os leões e encomendou as esculturas. Ele esculpiu animais magníficos, fez uma obra de arte maravilhosa, mas as esculturas não se parecem, de modo algum, como leões de verdade. É que ele não tinha as imagens de leão na memória, não tinha nenhuma experiência sensorial com leões e, portanto, sua imaginação não tinha referências para o conhecimento intelectual sobre os leões que lhe fora transmitido pelo contratante. Ele não conhecia, por si mesmo, um leão.
Mas, se para adquirir o conhecimento intelectual, precisamos das imagens, continuamos precisando delas quando já temos este conhecimento? Mesmo depois que adquirimos algum conhecimento intelectual, temos ainda a necessidade de recorrer à imaginação, ou seja, à memória das imagens sensoriais, para usar os conhecimentos intelectuais? Este é exatamente o debate proposto aqui. Vamos a ele.
2. A hipótese controvertida.
A hipótese controvertida, aqui, é a de que só precisamos da imaginação, isto é, das imagens guardadas na memória pelos sentidos, até o momento em que inteligimos o objeto. A partir de então, somos capazes de lidar com o conhecimento intelectual sem precisar recorrer à imaginação, quer dizer, à experiência empírica, sensorial, que temos com as coisas inteligidas. Quando pensamos em aluma coisa, quando recorremos ao intelecto, já não recorremos à imaginação para completar nosso pensamento. Nossa intelecção científica seria, então, uma superação dos “fantasmas”, das imagens da memória, para lidar apenas com o conhecimento intelectual. Há três argumentos objetores iniciais, que buscam comprovar esta hipótese.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento lembra que nosso intelecto vem ao mundo em branco, isto é, na ignorância sobre o que há no mundo, mas com a potência para aprender. Ora, quando o intelecto humano aprende, ele alcança a perfeição quanto àquele conhecimento, isto é, torna-se atualizado para a species, a ideia universal da coisa aprendida. Portanto, a presença da species no intelecto que o aprendeu já é a plenitude do conhecimento intelectual. Portanto, uma vez que intelige, a pessoa humana não precisa mais recorrer aos “fantasmas”, quer dizer, às imagens sensíveis armazenadas pelos sentidos à memória, para pensar na coisa intelectualmente conhecida, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor afirma que a nossa imaginação depende dos nossos sentidos, porque as imagens são formadas pelos dados que os sentidos obtêm da coisa examinada. E o intelecto depende destas imagens, os “fantasmas” guardados na imaginação, para inteligir. Mas a imaginação depende mais dos sentidos para formar os fantasmas, do que o intelecto depende dos fantasmas para inteligir; é que o intelecto depende, ainda, da atuação do intelecto agente, bem como pode, eventualmente, ser levado à intelecção por algum professor ou por um livro.
Ora, a imaginação pode lembrar do objeto que já assimilou, mas que não está atualmente presente aos sentidos: podemos recordar, por exemplo, de um cheiro, do sabor de um belo prato, mesmo quando as respectivas coisas já não nos estão presentes.
Ora, se há esta desvinculação entre a imaginação e os sentidos, muito maior deve ser a desvinculação entre o intelecto e a imaginação, porque a relação entre eles deve ser ainda menos estreita. Portanto, o intelecto pode pensar num objeto inteligido sem recorrer aos “fantasmas” da imaginação, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
A nossa imaginação, considerada como aquela memória das nossas experiências corporais, sensoriais, com o mundo, devidamente unificadas e organizadas, tem a característica de reter as imagens ou “fantasmas” das coisas percebidas a partir das informações concretamente recebidas pelos nossos sentidos corporais, isto é, retém imagens marcadas pela concretude das coisas que estão no tempo e no espaço, e que foram por nós tocadas, vistas, ouvidas, experimentadas.
Ora, se o nosso conhecimento intelectual dependesse, para ser usado, dos “fantasmas da imaginação”, quer dizer, se somente pudéssemos pensar nas coisas conhecidas a partir dos “fantasmas” da imaginação, não poderíamos conhecer nada intelectualmente, nem pensar em nada que não fosse corporal, histórico e concreto. Logo, não poderíamos inteligir nada sobre os anjos, ou sobre Deus, ou sobre as noções lógicas, por exemplo. Mas isto não é verdade: nós conseguimos inteligir e pensar em Deus, em anjos e em noções lógicas abstratas, sem recorrer a nenhum “fantasma”, porque não há fantasmas de coisas essencialmente imateriais. Logo, nosso intelecto não depende dos “fantasmas” para pensar nas coisas que inteligiu, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra vai recorrer a ninguém menos do que Aristóteles (que, como sabemos, Tomás chama simplesmente de “O” filósofo), que afirma, (na obra De Anima, III, 7) que nossa alma intelectual (ou seja, nós mesmos) não pensa em nada, não intelige de modo algum, sem recorrer aos “fantasmas”, isto é, às imagens da alma sensorial.
5. Encerrando.
No próximo texto, estudaremos a bela resposta sintetizadora de Tomás de Aquino sobre este tema.
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