1. Retomando.
Este artigo, tão rico, fundamentou, na verdade, todo o desenvolvimento da ciência ocidental, estabelecendo fortes alicerces para a validade do conhecimento empírico e das ciências experimentais. Examinemos, agora, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor vai citar extensamente as posições de Santo Agostinho que, como sabemos, tem grande influência platônica. Agostinho diz que não se pode alcançar a plenitude da verdade intelectual apenas por meio dos sentidos do corpo, primeiro porque a relação dos nossos sentidos com a realidade material é mutável, contingente, e a verdade é permanente e incondicionada. Além disso, os sentidos podem nos enganar quanto às imagens que formamos, mas a verdade não pode nascer do engano. Disso tudo o argumento conclui que o conhecimento intelectual não pode ter por causa o conhecimento empírico, sensorial.
A resposta de Tomás.
Agostinho deve ser lido com muito cuidado neste particular. De fato, não podemos deixar de concordar com ele, quando ele nos diz que a verdade intelectual ultrapassa o poder dos sentidos, porque os sentidos são capazes de se relacionar apenas com objetos materiais, e o conhecimento intelectual não é um objeto material. Mas não podemos concordar com a ideia de que o conhecimento sensorial, empírico, da realidade, esteja inteiramente excluído do processo de aprendizagem intelectual. Ele não é condição suficiente para chegarmos ao conhecimento intelectual, mas é, sem dúvida, um pressuposto necessário. São os nossos sentidos que, conhecendo sensorialmente o mundo, fornecem os dados concretos, as imagens ou fantasmas (representações da memória sensível) para que o intelecto agente possa extrair deles, por abstração, o conhecimento intelectual.
O segundo argumento objetor.
Já vimos que o corpo é matéria estruturada pela alma; isto é, a alma é mais do que o corpo, porque é a alma que dá estrutura, significação, funcionalidade ao corpo. Ora, seria uma inversão que o corpo pudesse causar o conhecimento na alma, porque aí seria o corpo que daria estrutura, significação e aperfeiçoamento à alma, o que é uma inversão, diz o argumento. Por isto, o corpo não poderia formar uma imagem no espírito. Logo, o conhecimento intelectual, que é imaterial e espiritual, não pode ter por causa o conhecimento sensorial, que é corporal e material, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Aqui, Tomás vai nos explicar que este debate envolve toda a influência de Platão sobre Agostinho. Platão acredita numa separação, num verdadeiro dualismo entre matéria e forma, entre corpos e ideias, então ele não poderia admitir nem mesmo que as imagens que se formam em nossa memória (mesmo admitindo que a memória é uma característica que compartilhamos com os animais irracionais) pudesse surgir dos dados materiais obtidos pelos sentidos. Assim, para Platão, até mesmo a memória humana e a imaginação, que lidam com a concretude do conhecimento empírico, mas envolvem coordenação entre os dados recebidos, não seriam provocados pela interação entre os sentidos externos e as coisas materiais, mas seriam formados em nós pela própria alma espiritual. Assim, Agostinho imagina que há uma força ativa na alma que é capaz de imprimir, na memória vazia do ser humano, o conhecimento sensorial, empírico, concreto, formando imagens e semelhanças das coisas conhecidas. E ele o faz porque também acredita naquele princípio metafísico que diz que tudo o que é agente é mais nobre do que o que é paciente, e portanto a memória, que é paciente, precisa de algum princípio agente mais nobre do que ela para causar nela as imagens das coisas reais que conhecemos. Mas este agente não pode ser o próprio corpo, ou os sentidos externos, porque são puramente materiais, ao tempo que ela lida com imagens, que são, de algum modo, mais nobres do que os meros dados materiais dos sentidos. Aí só restaria apelar para a alma como autora das informações da memória.
De fato, diz Tomás, se partirmos destes pressupostos platônicos, só poderíamos chegar a estas conclusões. Mas se entendemos que o conhecimento sensorial, os sentidos internos e a própria memória e imaginação não são simplesmente materiais, mas operações e potências de um corpo constituído por uma alma (ainda que seja uma alma sensorial, como a dos irracionais), então não é difícil concluir que toda esta atividade de conhecimento, embora limitado pela concretude da sua operação e dos seus resultados, não é uma simples operação de um agente material sobre uma agente imaterial, como se os sentidos fossem estritamente materiais e a memória, estritamente imaterial. Mas não é assim: são funções que envolvem o corpo e a alma (lembrando que os animais também têm alma, embora não intelectual). Uma vez que o conhecimento sensorial, empírico, dependente dos sentidos, não é uma atividade estritamente material, mas decorre do composto corpo e alma, então não existe esta inversão de imaginar que a matéria pode modificar o que é forma. Sentidos externos, sentidos internos, imaginação e memória são sempre atividades do ser vivo, não meramente de seu corpo ou de sua alma.
Além disso, diz Tomás, devemos ler Agostinho com a lembrança de que, se, por um lado, os dados sensoriais, resultado do contato direto com o mundo material, são capazes de ser reunidos em nós por uma atividade simplesmente sensória, dependente da matéria, é o nosso intelecto, com sua capacidade analítica, que vai julgar e raciocinar sobre estes dados, levando-nos ao conhecimento intelectual. Neste sentido, de fato, o conhecimento intelectual nasce da alma para a alma, sem envolver o corpo, quando se trata de formar conceitos, juízos e raciocínios sobre a experiência empírica dos sentidos, aquilo que Tomás chama de “capacidade de compor e dividir” da inteligência.
O terceiro argumento objetor.
Nenhum efeito pode superar as causas que lhe produziram. Se eu aplico uma determinada força a uma pedra, arremessando-a para cima com minhas mãos, ela não pode entrar em órbita e ir parar na lua: minha força física pessoal é incapaz de produzir este efeito.
Que o conhecimento intelectual supera enormemente o conhecimento sensorial, empírico, não há dúvida. O conhecimento intelectual se caracteriza pela universalidade, abstração, permanência, atemporalidade, e por alcançar as próprias razões divinas. O conhecimento sensorial, por outro lado, é concreto, histórico, mutável e provisório. Seria, então, um despropósito imaginar que o conhecimento intelectual pudesse resultar do sensorial como um efeito resulta da causa: seria desproporcional, como se aquela pedrinha arremessada por uma criança pudesse atingir a lua. Logo, o conhecimento intelectual não pode ser efeito do conhecimento sensorial, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Se o conhecimento sensorial fosse a única causa do conhecimento intelectual, o argumento objetor seria verdadeiro. Mas nós já vimos que, embora o conhecimento sensorial seja um pressuposto indispensável para o conhecimento intelectual, ele não é suficiente. Há toda a atuação do intelecto agente na aquisição, purificação e abstração do conhecimento sensorial, de tal modo que ele possa ser elevado ao grau de conhecimento intelectual. Portanto, o conhecimento sensorial é causa do conhecimento intelectual, mas não a única causa.
3. Conclusão.
Este artigo é precioso, porque nos ensina sobre a inteligência humana e sobre o modo propriamente humano de conhecer intelectualmente, isto é, de aprender experimentalmente sobre o mundo material que nos cerca, chegando a apreender sua estrutura imaterial, espiritualmente.
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