1. Retomando.

Vimos, no texto anterior, o debate interessante entre citações de Santo Agostinho, que tendem a admitir algum tipo de iluminação direta do intelecto por Deus, numa linha mais platônica, e uma citação de Aristóteles, de que toda a ciência intelectual nasce do conhecimento sensorial, empírico, da realidade material. Visitaremos agora a resposta sintetizadora de Tomás.

2. A resposta sintetizadora.

Tomás vai nos dar, agora, uma aula de teoria do conhecimento intelectual, a partir da visão aristotélica, que é a visão que ele compartilha. Ele cita três posições, a dos pré-socráticos, a de Platão e a de Aristóteles. Vamos acompanhá-lo.

Os pré-socráticos.

Tomás inicia lembrando que os pré-socráticos não tinham ideia das realidades espirituais; para eles, o mundo tinha algum princípio material capaz de explicar integralmente a realidade, como a água, o fogo ou algum outro. De todos os filósofos antigos, ele cita Demócrito, que ensinava que o conhecimento consiste na retenção das figuras do mundo exterior em nossa memória. Assim, ele não conhecia mais do que o conhecimento sensorial, concreto, e apenas defendia que o nosso conhecimento consistia na aquisição das informações sensíveis, sua organização e depósito na memória. Portanto, ao ver, ouvir, cheirar, tocar e degustar, formaríamos imagens das coisas externas com os dados sensoriais obtidos delas, e assim as conheceríamos. Ele não alcança descrever, pois, senão o conhecimento sensorial.

A visão de Platão.

Platão é quem nos desvela o mundo imaterial, o mundo das formas ou ideias, que é, como ele explica, objeto do nosso conhecimento intelectual. Este mundo, por não ser material, não é objeto dos nossos sentidos. Assim, resta explicar como nós podemos conhecer aquilo que não é objeto dos sentidos, pois não pode ser percebido materialmente. Platão vai, então, negar que a fonte do conhecimento intelectual seja os dados obtidos pelos nossos sentidos corporais, porque ele vê uma dualidade, uma separação entre as duas realidades, a realidade formal ou ideal, por um lado, e a realidade material, por outro.

Este dualismo platônico é tão forte que ele chega a negar que a nossa alma sensorial realmente adquira suas informações concretas a respeito das coisas por algum tipo de processamento direto dos dados sensoriais. Ele nega que, ao nos depararmos com um objeto sensível, nós o percebamos realmente, e o memorizemos, por causa dos dados que os nossos sentidos obtêm deles (sua aparência, sua cor, sua textura, sua temperatura, seu cheiro, sua posição, etc.). Para ele, estas informações sensoriais apenas fazem com que a alma se lembre dos conhecimentos que já tinha em si, a respeito dessas coisas; os sentidos seriam, apenas, a ocasião de receber os estímulos para que nos lembremos daquilo que já sabíamos sobre as coisas, mas estava latente em nossa memória. Quando, por exemplo, olhamos para um cão, sentimos seu cheiro, sua temperatura, acariciamos seus pelos, não é que os sentidos adquiram estes dados e os transmitam para nossa alma; eles apenas nos estimulam a lembrar aquilo que já sabíamos sobre os cães.

O próprio Santo Agostinho parece seguir esta opinião quando diz que não é o corpo que sente, mas a alma, e o corpo apenas funciona como um tipo de mensageiro de estímulos externos, fazendo com que a alma forme, em si mesma, aquilo que recebe como estímulo exterior.

Portanto, para Platão e seus seguidores, não são os estímulos materiais dos sentidos que formam diretamente o conhecimento sensorial que temos em nossa memória, mas eles apenas dão ocasião a esta formação; por consequência, tampouco é o conhecimento sensorial, concreto, individualizado da realidade que forma em nós o conhecimento intelectual; ele é apenas o estímulo, o mensageiro das coisas exteriores que nos leva a recobrar e organizar o conhecimento intelectual que já estava em nós, procedente do mundo das ideias.

A posição aristotélica.

Aristóteles aproveita toda a tradição filosófica que o precedeu, recebendo e corrigindo os ensinamentos acumulados, para propor uma visão do conhecimento intelectual que, de certa forma, é uma via média entre o materialismo grosseiro antigo e o espiritualismo dualista dos platônicos.

Se, por um lado, Aristóteles recebe o ensinamento de Platão no sentido de que a estrutura do real não é material, isto é, as formas de fato existem como realidades imateriais, por outro lado ele se recusa a cair num dualismo, numa oposição entre o físico e o espiritual, entre matéria e forma, como se elas fossem realidades antagônicas, e não simplesmente complementares. Para Aristóteles, matéria e forma existem como princípios complementares da realidade, e são inseparáveis, inclusive quanto ao conhecimento.

Assim, ele resgata o ensinamento de Demócrito, quanto ao poder que têm as coisas materiais de causar modificações em nossos sentidos, levando ao conhecimento. De fato, diz Aristóteles, o que os sentidos recebem não são meros estímulos, mas impressões do real, que de fato causam o conhecimento. É o fato de que podemos ver o azul do céu que nos leva a conhecer o céu, por exemplo. A visão do azul do céu não e apenas um estímulo externo a que a nossa alma resgate, em si, um conhecimento intelectual que recebeu por outras vias, como queriam os platônicos, mas é o próprio meio de recepção dos dados sensíveis que causarão o próprio conhecimento. Portanto, mesmo resgatando Demócrito, Aristóteles não limita o conhecimento a uma relação materialista entre os átomos do cérebro e os átomos dos objetos, como Demócrito queria, mas usa a teoria de Demócrito para explicar o desencadeamento de uma operação de conhecimento que, em seu início, é material, mas que progride no sentido de uma imaterialidade, de uma espiritualidade, na qual todo conhecimento se imprime imaterialmente numa alma imaterial, e por isso pode ser universal, permanente e abstrato. Conhecer intelectualmente é penetrar na própria estrutura formal do real; uma vez que esta estrutura não é material, o conhecimento intelectual dela também não o é. E neste ponto, ele ultrapassa Demócrito valendo-se de Platão, mas corrige Platão valendo-se de Demócrito.

A síntese de Tomás.

De fato, diz Tomás, a mera impressão causada nos sentidos pelas coisas materiais com as quais interage não seria suficiente para causar o conhecimento intelectual. E isto é fácil de perceber, se pensamos que os animais irracionais também são dotados de sentidos, mas não conseguem chegar a desenvolver nenhum tipo de conhecimento propriamente intelectual, quer dizer, permanente, incondicionado, universal e abstrato. Eles desenvolvem apenas o conhecimento sensorial, que é concreto, contingente, individual e mutável. Por isto, Demócrito estava errado, ou não foi tão longe como deveria, ao reduzir o conhecimento humano a algum tipo de impressão material das percepções sensíveis.

Mas Platão, por outro lado, em razão mesmo de seu dualismo, que estabelece oposição entre o material e o formal (ou ideal), propõe que o conhecimento intelectual tem uma fonte própria, um certo “mundo separado das ideias” que nos forneceria diretamente o conhecimento universal. Nisto ele foi longe demais, porque as formas ou ideias não existem assim: elas só existem nas próprias coisas ou nalguma mente. Não há um “mundo das ideias” transcendente, como ele pensava.

Portanto, se, por um lado, o mundo material não pode ser a causa exclusiva do conhecimento intelectual, porque o menos não pode simplesmente causar o mais; quer dizer, um conhecimento concreto, individual, condicionado e mutável não pode ser a causa de um conhecimento universal, abstrato, permanente e incondicionado. Mas nem por isto precisamos imaginar, como fazia Platão, que este conhecimento não vem do nosso contato com o mundo material, mas de alguma fonte fantástica, um mundo separado de ideias que seria subsistente por si mesmo. Na verdade, nossa alma, sendo espiritual, é dotada de uma estrutura capaz de agir ativamente na busca do conhecimento intelectual, purificando o conhecimento sensorial de tudo aquilo que o individualiza e atingindo, portanto, seu núcleo imaterial; como já vimos em debates anteriores, o intelecto agente recebe as imagens da nossa memória, reunindo-as e purificando, retirando delas as condições materiais e extraindo desses dados o que têm de geral, abstrato e universal, que será inscrito no nosso intelecto passivo ou possível, aperfeiçoando-o e levando-o da ignorância à ciência.

Portanto, a operação de conhecimento, em nós, é causada pelas imagens da memória, ou “fantasmas” (para usar a terminologia clássica) que nossos sentidos externos e internos extraem das coisas materiais. Mas também é causado por esta maravilhosa estrutura espiritual que toda alma humana possui, chamado de “intelecto agente”, capaz de extrair, dos “fantasmas” do conhecimento sensível, aquilo que tem de inteligível, e inscrevê-lo no intelecto passivo. Poderíamos dizer, então, que o conhecimento sensível é como que a “causa material”, mas o intelecto agente é como que a “causa eficiente” que, trabalhando na “causa material”, extrai dela a forma, para imprimi-la no intelecto possível. É assim que o conhecimento intelectual tem, como causas, o conhecimento sensorial e o intelecto agente.

3. Encerrando.

No próximo texto, veremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.