1. Introdução.

Vimos, nos textos anteriores, que o nosso conhecimento intelectual das coisas materiais, ou seja, da natureza que nos cerca, não nasce conosco, nem nos é acrescentado por causa de algum “mundo das ideias” externo e anterior ao nosso mundo material, a que tivéssemos acesso em algum momento antes do nosso nascimento. Nossa alma e nosso corpo iniciam sua existência com a concepção, e todo o nosso conhecimento intelectual só pode surgir a partir daí. Tampouco recebemos alguma “iluminação direta” de Deus, transmitindo conhecimento intelectual. O nosso contato, por meio dos nossos sentidos corporais, com o mundo exterior, é, portanto, a origem fundamental do nosso conhecimento intelectual das coisas. Mas estamos nos adiantando, já que este é, exatamente, o tema a ser debatido aqui.

Importantíssimo, portanto. Todo o fundamento das ciências experimentais está aqui. É do exame atento do mundo, por nossas aptidões corporais, que adquirimos ciência. Toda a ciência moderna está contida neste pequeno artigo, que supera e nega todo platonismo intelectual e todo dualismo entre o intelecto e os sentidos, entre a mente e a matéria. Acompanhemos com atenção este artigo maravilhoso.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial, que quer estimular o debate, propõe que não é o exame das coisas materiais pelos nossos sentidos que nos faz adquirir o conhecimento intelectual sobre elas, porque, segundo esta hipótese, o conhecimento intelectual não pode ser derivado das coisas materiais, concretas, individuais, com que nos relacionamos e que percebemos em nossos sentidos. Há três argumentos objetores iniciais, que tentam comprovar esta hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor traz uma citação de Santo Agostinho, que afirmava que não se deve esperar alcançar a plenitude da verdade a partir dos sentidos corporais. E ele traz duas argumentações para comprovar sua afirmação, prossegue o argumento:

1) primeiro, ele argumenta que aquilo que os sentidos percebem é transitório, passageiro, e muda continuamente; pensemos naquela bela flor que agora de manhã existe e à tarde murchou. Mas a verdade intelectual é sempre universal, permanente, e portanto não se dá ao conhecimento dos sentidos: mesmo que aquela flor murche, a própria noção de flor permanece.

2) A nossa memória conserva as imagens que recebe dos sentidos, mesmo quando o objeto já não está a nosso alcance. Há muitas situações em que essas imagens se apresentam a nós como se o objeto estivesse presente; é o caso das alucinações ou dos sonhos. Nestas situações, não temos como discernir se as imagens são verdadeiras ou falsas. Ora, se há situações em que não podemos discernir se as impressões dos sentidos são verdadeiras ou falsas, os dados dos sentidos seriam uma base muito pouco confiável para o conhecimento intelectual.

Assim, por estes fundamentos, o argumento conclui que não se pode derivar o conhecimento intelectual a partir dos dados sensoriais.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor também vai citar Agostinho, e não sem razão, porque Agostinho sempre exerceu uma influência muito forte no assunto da filosofia do conhecimento. Ele defendia um tipo de iluminação, isto é, de conhecimento intelectual diretamente gerado por Deus em nosso intelecto a partir do nosso conhecimento sensorial do objeto. E Agostinho, tratando do assunto, chegou a afirmar que o corpo humano não poderia ser a causa de alguma modificação no espírito humano; ora, os sentidos estão no nosso corpo, e o conhecimento intelectual está em nossa alma espiritual. Portanto, segundo Agostinho, se a alma intelectual passasse da ignorância à ciência por causa dos sentidos corporais, a alma intelectual seria passiva, e o corpo, ativo no processo de conhecimento. Ora, aquilo que é ativo em algum processo de atualização é sempre superior àquilo que é passivo. Portanto, se o corpo fosse ativo num processo em que a alma é passiva, teríamos que admitir que o corpo é superior à alma, o que seria um absurdo. Portanto, o corpo, por seus sentidos, não pode ser a causa do conhecimento intelectual da alma, mas a alma deve ter alguma outra fonte, de natureza espiritual, que seja causa do seu conhecimento intelectual, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento usa um princípio muito interessante: nenhum efeito pode ultrapassar o poder de suas causas. É fácil perceber isto: se eu tenho feijões, posso fazer uma feijoada, mas não posso preparar, digamos, caviar com feijões.

Sabemos que o conhecimento sensorial é concreto, condicionado, temporal, mutável e individual. Por outro lado, o conhecimento intelectual é permanente, imutável, abstrato, universal e atemporal. Portanto, o conhecimento intelectual supera muito o conhecimento sensorial, atingindo características e circunstâncias que nossos sentidos não poderiam jamais perceber. Portanto, conclui o argumento, o conhecimento intelectual não poderia decorrer do conhecimento sensorial das coisas.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra simplesmente cita Aristóteles (“o” Filósofo, como Tomás o chama), que, no livro I da Metafísica afirma expressamente que o princípio do nosso conhecimento é aquilo que nos vem dos sentidos. Portanto, o argumento conclui que o conhecimento intelectual, em nós, nasce do contato entre os nossos sentidos e as coisas materiais.

5. Concluindo.

No próximo texto veremos a resposta de Tomás a este tema interessantíssimo!