1. Voltando ao assunto.

O debate, aqui, é importantíssimo. Será que o próprio Deus é a medida do nosso conhecimento intelectual, ou será que não atingimos realmente a essência das coisas, ao conhecê-las, e apenas construímos conceitos e nomes que exprimem suas semelhanças ou o domínio que podemos ter sobre elas? Há uma inteligibilidade nas coisas, ou seja, serão elas o fruto da ação criadora de Deus em seu logos, ou será que o universo material é apenas o resultado de forças caóticas que se relacionam no jogo da evolução e da sobrevivência? Conseguiremos, ao conhecer, saber realmente o que são as coisas em sua verdade, como foram concebidas na razão de Deus, e usamos esta medida de verdade para medir nosso conhecimento e o próprio mundo, ou será que o mundo é uma massa informe que moldamos à nossa vontade? Vamos examinar a resposta de Tomás.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Tomás começa lembrando que Santo Agostinho tinha uma grande abertura intelectual às verdades filosóficas registradas por pensadores e filósofos alheios à tradição cristã. A filosofia grega antiga chegou a inegáveis verdades, e, sempre que sua formulação não se mostrar adequada à fé cristã, não devemos rejeitar esta verdade, mas como que “desapropriá-los” delas e formulá-las de modo adequado à fé, ou seja, liberá-las dos seus equívocos e potencializá-las com a interpelação da verdade revelada. Não podemos esquecer, diz Agostinho, que eles estavam privados da plenitude da verdade que veio com Jesus, e condicionados por uma cultura com equívocos e superstições que devem ser purificados.

Agostinho e o pensamento platônico.

Sem dúvida, Agostinho recebeu uma grande influência do pensamento platônico. Encontrou, ali, muita coisa verdadeira, mas teve o cuidado de fazer uma purificação daquilo que representava condicionamento cultural, limite humano, desvio supersticioso, e acabou melhorando muito as propostas platônicas. De fato, Platão propunha a existência de um mundo separado, no qual as ideias subsistiriam por si mesmas, sem materialidade alguma; este mundo seria o fundamento formal tanto da existência das coisas materiais quanto do nosso conhecimento intelectual sobre elas. As coisas materiais seriam “participações” nas ideias, ou seja, como o carimbo é capaz de deixar sua marca em várias folhas de papel, também as puras formas seriam impressas na matéria, dando origem ao mundo material. De modo semelhante, as ideias seriam impressas em nossa inteligência antes mesmo de nascermos, e todo o nosso conhecimento seria, também, “participações” nas ideias, como uma vela se acende ao participar do fogo de uma fogueira. Esta é a estrutura da realidade e a estrutura do conhecimento, em Platão.

Mas, se por um lado esta concepção chega a importantes intuições, por outro lado ela não se harmoniza bem com a fé católica. De fato, repugna à fé que exista algum “reino das ideias” impessoal que seria fundamento formal de toda a realidade material, e que as coisas materiais tivessem passado a existir pela atuação de algum poder ou substância demiúrgica, capaz de moldar a matéria pela participação nas ideias; talvez a Sabedoria em si, ou a Vida em si, ou ainda alguma divindade, contemplando as formas, teriam dado origem às coisas materiais.

As ideias como razões na mente divina.

Mas Agostinho resolveu essa limitação ao propor que essas puras Ideias existiriam na mente divina, como razão (ou logos) de todas as coisas existentes. Isto se harmoniza bem com o evangelho de João (1, 1-4) e com o fato de que a inteligência é um atributo pessoal, e portanto deve pertencer a um Deus pessoal. Assim, a forma das coisas nada mais é do que a concretização das razões divinas, daquilo que Deus concebeu sobre elas. E é por terem sido pensadas no logos divino que as coisas são inteligíveis para nós: as razões divinas sobre as coisas são causa e medida da verdade do nosso conhecimento intelectual.

Então, o que significaria, na prática, dizer que o ser humano conhece tudo “nas razões eternas”? Não seria isto equivalente a afirmar que somos capazes de conhecer o próprio Deus e, a partir desse conhecimento, olhar a realidade material como ele próprio olha? Não seria blasfemo imaginar que o conhecimento intelectual nos leva a enxergar diretamente a mente de Deus?

O conhecimento indireto das razões divinas.

Não é assim, diz Tomás. Quando dizemos que conhecemos todas as coisas “nas razões eternas” não significa dizer que conhecemos diretamente as próprias razões eternas. Há duas maneiras pelas quais podemos conhecer uma coisa por outra, diz Tomás:

1. De maneira análoga àquela pela qual um motorista vê um automóvel que está atrás de seu próprio veículo, olhando pelo espelho retrovisor. Ele vê o carro que o segue, mas não diretamente, senão pelo reflexo no espelho retrovisor. De certo modo, é assim que nós, aqui na nossa caminhada terrestre, vemos as razões de Deus: como que por seu reflexo no mundo material que nos cerca. Somente os santos, que estão na visão beatífica, podem ver diretamente as razões divinas.

2. A outra maneira é aquela pela qual a luz faz com que as coisas que estão numa sala escura tornem-se visíveis para nós. Se entramos num lugar com as luzes apagadas, não conseguimos enxergar nada. Mas se alguém acende a luz, todas as coisas nos ficam visíveis, quer dizer, a fonte de luz torna as coisas visíveis. Este é o papel do sol com relação à claridade do dia: aquilo que, à noite, não podia ser visto, torna-se manifesto a nós de dia, por causa da luz do sol. Não podemos olhar diretamente para o sol mais do que uma fração de segundo, mas podemos conhecer que ele brilha, apenas pela claridade do dia. Este é, falando de modo análogo, o papel da luz da inteligência de Deus, com relação à nossa própria inteligência; a nossa inteligência só pode “ver” intelectualmente as coisas porque a luz de inteligência divina torna-as visíveis para nós. Se a luz das razões divinas não brilhasse nas coisas, elas não seriam inteligíveis para nós, como uma pedra não nos é visível na noite escura. É por isto que as Escrituras, no Salmo 4, nos interpelam dizendo: quem nos mostrará a felicidade? Ao que o salmista responde: “levanta como um sinal sobre nós, Senhor, a luz da tua face!”; como se quisesse nos ensinar que a luz da nossa inteligência somente consegue enxergar porque participa da luz da inteligência divina, que torna visível para nós a inteligibilidade de todas as coisas.

Mas não é suficiente ter uma alma intelectual, ou seja, ser dotado de inteligência, para conhecer todas as coisas na luz das razões divinas. É necessário que esta inteligibilidade das coisas, isto é, as próprias ideias delas, as species que as fazem ser o que são, sejam apreendidas e assimiladas por nós em nosso intelecto. Nascemos com o intelecto como uma página em branco, e, durante a nossa vida, vamos aprendendo, isto é, assimilando a inteligibilidade das coisas, suas species inteligíveis, em nosso intelecto. O simples fato de que nosso intelecto é, ele mesmo, em sua capacidade de saber, uma participação na inteligência divina, não implica que já tenhamos em nós todo o conhecimento das coisas, como Platão propunha. O processo de conhecimento é gradual, e envolve a percepção das coisas pelos nossos sentidos. Não é uma simples participação inata nas ideias, como defendiam os platônicos.

Conhecimento por iluminação e conhecimento por experiência.

Embora Agostinho tivesse sido muito influenciado pelo pensamento platônico, ele não desconhecia que somente a experiência empírica poderia nos dar o conhecimento das species das coisas materiais; somente caminhando no mundo, vendo, ouvindo, experimentando, é que chegamos a conhecer a inteligibilidade que há nas coisas. E por isto, Agostinho dizia que os filósofos não descobriram sobre os gêneros e espécies animais por simples dedução a partir de ideias abstratas, mas tiveram que se mover pelo tempo e pelo espaço para adquirir este conhecimento.

Neste ponto, vemos mais uma vez a delicadeza de São Tomás com Agostinho. De fato, sabemos que Agostinho defendia que o conhecimento intelectual ocorria por iluminação divina em nosso intelecto, e a experimentação sensorial da realidade apenas seria a oportunidade pela qual Deus nos iluminaria. Tomás não o critica diretamente, e aproveita seu ensinamento sobre a natureza do nosso intelecto como participação no intelecto divino, mas não utiliza a doutrina da iluminação direta.

De fato, Tomás lembra que o próprio Agostinho negava que as almas humanas pudessem ver Deus diretamente nesta vida, e defendia que somente as bem-aventuradas é que chegarão a contemplá-lo após a morte. Como Agostinho não negava a possibilidade de conhecimento natural, então parece evidente que ele também não confundia o conhecimento intelectual humano como algum tipo de visão beatífica; o conhecimento natural obtido pelo intelecto humano é apenas um conhecimento indireto das razões divinas, como a visão pelo espelho de que trata 1Coríntios 13,12, o a claridade do sol que ilumina o dia, comparação que o próprio Tomás utiliza aqui.

Conhecemos as coisas materiais por suas razões divinas, isto é certo. Mas chegamos às razões divinas de modo apenas indireto, por via do processo de aprendizagem intelectual.

3. Fechando.

Tomás não achou necessário enfrentar cada argumento objetor inicial diretamente, porque considerou que a resposta sintetizadora já os enfrentou suficientemente. Mas como a nossa proposta aqui é a de abordar de modo muito lento e tranquilo o pensamento dele, retomaremos, no próximo texto, aqueles argumentos, para sopesá-los à luz desta respostas.