1. Introdução.
O que fica em nossa alma quando conhecemos alguma coisa? Um simples conceito, capaz de exprimir as semelhanças que as coisas exibem? Um nome arbitrário, criado por nós para designar aquilo que nos parece que as coisas têm em comum, mesmo que elas não tenham nada em comum na realidade? A nós, hoje em dia, tanto o conceitualismo quanto o nominalismo parecem expressar adequadamente aquilo que entendemos por conhecimento.
Sim, porque, nos dois casos, partimos do pressuposto de que a realidade material com a qual nos deparamos não tem, por trás de si, um Deus inteligente que a tenha concebido primeiro. Assim, quando nós conhecemos as coisas, partimos do pressuposto que sua inteligibilidade decorre ou de um processo natural de evolução ou de nossa mente que ordena e constrói significados. Portanto, todo conhecimento se reduz apenas a elaborar conceitos ou construir noções e nomenclaturas.
Mas não era assim que Tomás via o mundo. Para ele, o mundo é uma expressão da mente ordenadora de Deus, de tal modo que, quando conhecemos a realidade material, o que nós aprendemos é a inteligibilidade que o próprio Deus colocou nas coisas: Deus fez todas as coisas com ordem, com sentido, com inteligência, e conhecê-las é descobrir um pouco da mente de Deus. A ciência sobre o mundo material é, portanto, contemplativa.
Ou não? Conceitos, nomes ou logos divino? É o que debateremos aqui.
2. A hipótese controvertida.
Quando conhecemos alguma coisa, não chegamos ao conhecimento da verdadeira estrutura que ela tinha na mente de Deus, ao ser concebida, propõe o argumento. Ou seja, pode ser que nomeemos a coisa, que construamos a sua noção em nossa mente ou até que a conceituemos com base em suas características comuns com outras coisas; mas o nosso conhecimento não chega às próprias razões divinas inscritas nas coisas, e não é por elas que nós adquirimos o conhecimento intelectual das coisas. Há três argumentos objetores no sentido dessa hipótese inicial.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento diz que o resultado final do processo de conhecimento intelectual é atingir o próprio conhecimento da coisa. Ora, reconhecer este conhecimento, isto é, saber que se sabe e saber exatamente por que se sabe, ou seja, conhecer a própria razão pela qual podemos dizer que conhecemos alguma coisa, é um conhecimento maior e mais elevado do que o próprio conhecimento das coisas. Ora, se nós conseguíssemos saber que conhecemos as coisas por termos atingido suas razões em Deus, então nós seríamos capazes de reconhecer a Deus com nosso intelecto, nesta voda mortal que vivemos. Mas sabemos que Deus não é um objeto adequado ao conhecimento natural nesta vida, como atesta o próprio (pseudo) Dionísio, que afirma que “não conhecemos Deus, mas nos unimos a ele como a um desconhecido”, nesta vida. Portanto, se conhecemos as coisas, nós as conhecemos por conceitos ou nomes que impomos a elas em nossa inteligência, mas não as conhecemos nas próprias razões eternas que elas têm em Deus, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Se nós conhecêssemos as coisas por suas razões eternas, ou seja, pela inteligibilidade que elas têm na própria mente de Deus, isto significaria que, por exemplo, quando olhássemos para um animal qualquer, saberíamos que aquilo é um cão, e não um gato, porque conhecemos, em nosso intelecto, algo das próprias ideias que aquele ente tem na mente de Deus.
Mas isto significaria que as ideias de Deus é que nos fariam ver intelectualmente as coisas materiais e constatar que elas nos são conhecidas.
Ocorre que as ideias de Deus são invisíveis para nós; dizer que somos capazes de chegar de algum modo a elas, e, a partir delas, conhecer o mundo material, equivaleria a dizer que as coisas visíveis nos são reveladas pelas coisas invisíveis. Mas isto seria exatamente o contrário do que a Bíblia nos diz. Segundo a Bíblia, não são as razões invisíveis de Deus que nos revelam as coisas visíveis, mas justamente o contrário: segundo a Carta de São Paulo aos Romanos (1, 20), “Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras visíveis“. Portanto, as coisas visíveis é que deveriam nos revelar as invisíveis, e não o contrário. Logo, não conhecemos as coisas materiais por suas razões eternas, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
O que seriam essas “razões eternas” que existem na mente de Deus, e que seriam atingidas por nós quando alcançamos o conhecimento intelectual sobre as coisas materiais? Não seriam nada senão aquelas “ideias” ou “formas” platônicas que, existindo num mundo separado, nos dão conhecimento sobre este mundo material. Assim, se admitirmos que conhecemos intelectualmente as coisas quando alcançamos suas razões eternas na mente de Deus, teríamos que admitir, como Platão, que todo o nosso conhecimento não decorre do exame do mundo material pelos nossos sentidos, mas decorre de receber as ideias divinas em nós. Isto seria uma espécie de “platonismo cristão” que negaria a importância do conhecimento sensorial no conhecimento intelectual, o que é inadmissível, como vimos no debate do artigo anterior. Assim, não é pelas razões eternas que conhecemos as coisas do mundo material, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra cita Agostinho, que parte exatamente da objetividade do conhecimento intelectual, para justificar que nós o atingimos justamente chegando às coisas tais como foram concebidas em suas razões divinas.
Santo Agostinho, nas suas confissões, diz: se nós conseguimos ver que aquilo que você está falando é verdade, e se nós conseguimos também ver que aquilo que eu falo é verdade, como podemos ver isto? O fundamento desta verdade não pode ser visto por você em mim, nem eu posso pensar que vejo o fundamento da verdade em você. É necessário, pois, admitir que o fundamento da verdade deve estar nas razões imutáveis que estão na mente divina. Assim, seguindo o raciocínio de Agostinho, devemos admitir que o nosso intelecto conhece todas as coisas de verdade quando as conhece em suas razões eternas, conclui o argumento.
5. Concluindo.
No próximo texto, começaremos a ver a resposta sintetizadora de Tomás, na qual ele já enfrentará os argumentos objetores iniciais.
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