1. Voltando.

Nosso corpo e nossa alma são princípio de um único ser, o ser humano. É certo que nosso corpo é perecível, como podemos constatar por experiência pessoal. Nossa alma, por outro lado, não o é, e sua atividade intelectual se exerce sem dependência do corpo. Mas, uma vez que nossa alma é criada, na nossa concepção, junto com o corpo, ela é criada como uma página em branco, um livro a ser escrito, um espaço a ser preenchido, um potencial a ser atualizado. E o meio pelo qual a alma intelectual se torna repleta de ciência e sabedoria é o corpo e seus sentidos: nada há no intelecto humano que não tenha passado pelos sentidos em algum momento. Por isto, a fonte de conhecimentos intelectuais, para nós, não é uma suposta vida anterior num reino das ideias, nem um “intelecto agente” ao qual temos acesso e nos informa. A fonte primária e própria dos conhecimentos humanos é o mundo material, as coisas criadas, das quais retiramos o conhecimento intelectual que nos aperfeiçoa. Vimos tudo isto nos textos anteriores.

Examinemos, agora, municiados destas informações, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

2. Os argumentos objetores e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O conhecimento é uma participação na própria existência da coisa, naquilo que ela tem de inteligível. O argumento compara o conhecimento com o fogo de uma vela que acende outra vela: de certa maneira, aquela forma que existe como essência numa substância material, passa a existir como conhecimento em nosso intelecto. Este conhecimento, portanto, diz respeito à inteligibilidade não apenas de um exemplar daquela coisa, mas de toda a espécie, universal, abstrata e imperecível. Ora, se o fogo acende o fogo, então o conhecimento universal, imperecível e abstrato não pode se originar senão de alguma realidade universal e abstrata, não das realidades concretas com que nos deparamos todo dia; por exemplo, não podemos chegar ao conhecimento da noção universal e imperecível de “árvore” a partir do exame de uma árvore em particular, porque o conhecimento sobre as árvores é universal e esta árvore aqui é individual, concreta e perecível. Deve haver, portanto, uma fonte de nosso conhecimento que esteja separada da realidade material, e a partir da qual nós adquirimos o conhecimento intelectual, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Ninguém poderia ler uma carta que não tivesse sido escrita, ou seja, a inteligibilidade de uma carta depende do fato de que aquele que a remete é inteligente, é capaz de escrever inteligentemente e de transmitir ali algum conhecimento, alguma informação. Ora, se temos a capacidade de inteligir, ou seja, de “ler” dentro da realidade, é porque a realidade material e concreta tem inteligibilidade dentro de si. E esta inteligibilidade aponta para alguém que a inscreveu nas coisas, como a carta aponta para alguém que, inteligentemente, a escreveu. Ora, portanto, a fonte primeira da inteligibilidade das coisas materiais não está nelas mesmas, mas em Deus, que as criou de tal modo que elas são repletas de inteligibilidade. Portanto, inteligir é ler, nas coisas criadas, em sua materialidade, a inteligibilidade que Deus colocou ali, e assimilar essa inteligibilidade em nosso intelecto. Ainda usando aquela analogia das velas acesas, é como se Deus fosse o próprio fogo que, espalhando suas centelhas na criação, acende a vela da nossa inteligência. Portanto, a inteligibilidade vem de Deus, inscreve-se nas coisas concretas e chega até nosso intelecto pelos sentidos, sem que precisemos imaginar que há outra fonte separada de inteligibilidade como um “intelecto agente” ou um “reino das formas”.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor quer fazer um paralelo entre o objeto dos sentidos, por um lado, e o objeto da inteligência, por outro. O objeto dos sentidos são as coisas concretas, em ato, que existem fora daquele que as percebe, em seus aspectos materiais, concretos e perceptíveis. Portanto, o objeto do intelecto deve ser também aluma coisa existente em ato fora da mente que a conhece, em seus aspectos universais, abstratos e atemporais. Portanto, conclui o argumento, deve existir uma realidade separada, na qual os objetos universais, abstratos e atemporais estão disponíveis para serem diretamente conhecidos pelos intelectos.

A resposta de Tomás.

Não há paralelismo possível, aqui, entre o conhecimento sensorial, que os seres humanos compartilham com os outros animais, e o conhecimento intelectual. São dois modos de conhecer bastante diferentes entre si, e o conhecimento sensorial é imediato, ao tempo que o conhecimento intelectual é posterior, mediado e pressupõe a existência do conhecimento sensorial. De fato, as coisas materiais, em sua existência concreta, estão em ato para o conhecimento sensorial. O que isto quer dizer? Isto significa que sua cor, os sons e aromas que emite, suas texturas, tudo isto os constitui como perfeições que podem ser percebidas imediatamente pelos sentidos, e conhecidas em sua concretude. Mas o conhecimento intelectual sobre estas coisas está nelas apenas em potência, isto é, a capacidade que elas têm de ser causa de nosso conhecimento não é algo que está nelas de modo a ser imediatamente percebido por nosso intelecto, como sua cor ou sua textura são imediatamente percebidos pelos nossos sentidos. A inteligibilidade das coisas materiais precisa ser extraída delas por um exame sensorial atento, que é seguido pela formação das nossas imagens mentais, que serão iluminadas por nosso intelecto agente pessoal, retirando delas o que têm de particular, concreto, condicionado e histórico, ou seja, tornando-as inteligíveis em ato. Não é necessário, pois, imaginar a existência de algum reino de formas inteligíveis, como fazia Platão, ou algum intelecto agente universal, como queria Avicena, para explicar a intelecção humana.

O terceiro argumento objetor.

Nosso intelecto é concebido como uma potência da nossa alma, e está vazio de conhecimentos, em sua concepção. Precisa aprender, por intermédio dos sentidos, tudo o que o levará ao ato, ou seja, a ser um intelecto bem formado em ciência e sabedoria. Enfim, diz o argumento, nosso intelecto é um grande intelecto passivo (ou possível). Mas nada pode ser levado ao ato senão por alguma coisa que esteja em ato quanto àquele aspecto: para usar mais uma vez o velho exemplo, uma vela apagada não pode ser acesa senão por alguma fonte de fogo atual. Portanto,

Ora, se é assim, é preciso admitir a existência de um grande intelecto humano agente, externo a nós (já que nosso intelecto é plenamente passível, um intelecto atual, ativo, deve ser externo a ele, pensa o argumento), que seja o responsável por levar nosso intelecto passivo ao ato. Portanto, é por um intelecto externo a nós e às cosias existentes no mundo material que nosso intelecto é levado ao conhecimento intelectual atual, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Sim, é verdade que nada pode passar da potência ao ato sem o concurso de algum agente em ato, como a vela apagada precisa de alguma fonte de calor para acender-se. Mas esta fonte não nos é externa: há, em nós, um intelecto agente, ou seja, uma estrutura intelectual em ato (não que ela esteja em ato para a informação a ser aprendida, como se já tivesse em si o conhecimento, mas em ato para o processo de iluminação das imagens formadas na memória pelas informações sensoriais que recebemos pelos sentidos) que possui a capacidade atual de examinar e extrair, dos dados concretos dos sentidos, o conhecimento intelectual que nos aperfeiçoa. Esta estrutura está em nós, de tal modo que uma parte de nós é capaz de atualizar a outra. A existência de um intelecto externo, que tem em si toda a informação intelectual sobre o mundo, é um fato indiscutível: este é Deus. Mas ele não é a causa eficiente direta do nosso conhecimento intelectual, mas apenas a causa remota.

3. Conclusões.

Assim, estabelecemos o papel do nosso corpo no processo de conhecimento intelectual, assim como o papel da mente de Deus como fonte remota da inteligibilidade do mundo. Não é pouca coisa.