1. Retomada.

No texto anterior, vimos que Platão, deparando-se com a concepção de que a inteligibilidade das coisas seria naturalmente imaterial, isto é, percebendo que as formas (ou ideias) são realidades espirituais, propôs que haveria um mundo separado deste, no qual as ideias existem em sua pureza universal, e do qual recebemos o conhecimento intelectual. Deparando-se com as aporias que resultam desta concepção, o árabe Avicena propôs que estas ideias não existem como uma realidade espiritual num mundo separado, mas numa grande mente, que as transmite a nós; propõe, então, a existência de um intelecto ativo único para a humanidade, que recebeu o conhecimento intelectual de Deus, transmitindo-o a nós. Agora veremos em que estas posições diferem, e porque são, para Tomás, inaceitáveis.

2. Prosseguindo com a resposta sintetizadora.

Platão e Avicena – semelhanças e diferenças.

Portanto, tanto Platão como Avicena têm a intuição – correta, aliás – de que a inteligibilidade das coisas não está em sua matéria, mas em sua forma, que é imaterial por definição. Tanto Platão como Avicena, no entanto, concordam equivocadamente em defender que o nosso intelecto chega a inteligir as coisas por receber essa inteligibilidade de alguma fonte diferente das próprias coisas em sua concretude material, ou seja, não é examinando as coisas no mundo que nós chegamos a inteligi-las, mas recebendo a sua inteligibilidade de alguma fonte separada, imaterial.

Mas Platão e Avicena discordam sobre a natureza dessa fonte imaterial que nos transmitiria a inteligibilidade do mundo. Para Platão, haveria um mundo espiritual, separado deste mundo material em que vivemos. E naquele mundo espiritual as ideias existem por si, sem dar forma a nenhuma matéria. Estas formas entram em nosso intelecto ainda antes de nascermos, de tal modo que chegamos a este mundo imaterial com todo o conhecimento impresso em nós, embora não lembremos dele por causa do corpo material que temos, e que seria um estorvo, um impedimento à nossa inteligência.

Avicena, por outro lado, não crê que estas ideias existam por si mesmas num mundo separado. Ele crê que elas existem num grande intelecto separado, o intelecto agente, que nos transmite todo o conhecimento intelectual de que precisamos. Mas, diferentemente de Platão, ele propõe que este conhecimento não se transmite a nós, mas fica no intelecto agente. Esse intelecto agente seria como uma grande internet, um armazenamento de conhecimento “na nuvem”, como diríamos hoje em dia. Assim, cada vez que precisássemos do conhecimento, teríamos que buscá-lo no intelecto agente.

A posição de Tomás.

As posições de Avicena e Platão parecem transformar o ser humano num ser bipartido, sem unidade, ou num ser trágico, defeituoso, no qual a constituição existencial é incompleta ou prejudicial.

De fato, se as coisas são como eles dizem, não há razão para que sejamos seres materiais, para que tenhamos, como princípio da nossa existência, um corpo, matéria organizada que nos faz existir como seres concretos num mundo concreto. Se este corpo é um obstáculo para nossa existência, isto nos torna seres incompreensíveis, seres nos quais uma parte atrapalha a outra.

Por qual razão, então, seríamos compostos de corpo e alma, se a alma fosse um ente imortal e onisciente cuja união com o corpo a atrapalha? Seria melhor, então, morrer do que estar vivo.

Poderíamos imaginar que a alma se une ao corpo para o bem do corpo, para que a matéria do corpo fosse glorificada pela união com a alma. Mas isto seria uma completa inversão: na natureza, é sempre o menos perfeito que está na dependência do mais perfeito. Como diz um velho ditado, é o cão que abana a cauda, e não a cauda que abana o cão. O corpo existe porque a alma é capaz de organizar a matéria. O corpo não é uma espécie de parasita que se une a uma alminha perfeita e preexistente para obscurecê-la. Eles surgem juntos como princípios comuns de um único ser, o ser humano. Mas é a alma quem organiza o corpo: o corpo que existe em razão da alma, e não o contrário.

Se, além disso, o corpo for necessário para que a alma, criada junto com o corpo como uma página em branco, venha a aperfeiçoar-se, adquirindo seu conhecimento por meio dos sentidos corporais, que servem para aperfeiçoar um intelecto que, mesmo sendo essencialmente independente da matéria (e por isto capaz de inteligir, atualizando-se com a informação intelectual que é, em si mesma, completamente imaterial), explicados estão não somente a razão pela qual somos seres espirituais, mas também a razão pela qual estes seres espirituais são animais, ou seja, são corporais. A nossa espiritualidade tem na nossa corporeidade a maneira própria de adquirir o conhecimento intelectual. Examinamos o mundo material com os nossos sentidos, recebemos deles as informações particulares e as organizamos, abstraímos e universalizamos, para transformá-la em informação intelectual. Este processo de aprendizagem, que propõe que corpo e alma funcionam como uma unidade para receber a inteligibilidade diretamente do mundo material, é capaz de explicar muito melhor o ser humano.

Se imaginamos, como Platão, que já temos em nossa alma todo o conhecimento de que podemos precisar, e que a união com o corpo nos faz esquecer estes conhecimentos, restaria propor que os sentidos servem apenas para estimular a alma a lembrar daquilo que ela já sabe mas não lembra. Mas isto não faz sentido: se os sentidos são corporais, e existem para lembrar à alma os conhecimentos que supostamente ela já tem, então por qual razão o corpo seria, simultaneamente, a causa do próprio esquecimento? Parece contraditório, e é de fato. A posição de Platão é insustentável.

No caso de Avicena, parece também absurdo imaginar que nós não temos, em nós, os conhecimentos intelectuais dos quais precisamos, mas ele está todo concentrado num único “intelecto agente” humano que serve a toda a espécie humana. Para ele, cada indivíduo humano seria uma espécie de “terminal de computador” interligado a uma grande e única rede de informações inteligente, capaz de armazenar todo o conhecimento intelectual sobre as coisas. Nosso corpo, então, seria estimulado pelos objetos com os quais entramos em contato, de tal modo que os nossos sentidos, recebendo as informações particulares sobre estes objetos, nos levariam a buscar, nesse “intelecto agente” único e separado, a informação de que precisamos. Isto não explica, também, por qual razão não conseguimos receber, desse intelecto agente, a informação intelectual relativa a um sentido que nos falta, como o conhecimento intelectual das coisas visuais, que falta aos cegos. Se os sentidos são apenas estímulos para que busquemos o conhecimento intelectual no “intelecto agente”, nada impediria que recebêssemos do intelecto agente também o conhecimento intelectual relativo ao sentido que nos falta, de tal modo que os cegos pudessem obter conhecimento intelectual sobre as informações visuais: coisa que, como sabemos, não acontece.

Portanto, Tomás conclui que não é nem de um “reino separado das ideias”, como queria Platão, nem de um “intelecto agente separado”, como propunha Avicena, que nossa alma intelectual consegue inteligir sobre o mundo material. É o próprio mundo material que deve ser a fonte da nossa aprendizagem intelectual, portanto.

3. Encerrando.

Examinaremos, no próximo texto, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.