1. Retomada.
Vimos, então, que o grande mistério do nosso conhecimento intelectual levou muitos a imaginar que existiria um reino das ideias, ou das formas separadas, no qual o conhecimento universal sobre as coisas estaria disponível para iluminar nosso intelecto; ou então que os anjos, que são inteligências imateriais, ou mesmo o próprio Deus, ou ainda um “intelecto agente” separado do corpo, seriam responsáveis por fornecer diretamente este conhecimento a nós, iluminando-nos.
Vamos ver, agora, a resposta sintetizadora de Tomás quanto a este assunto.
2. A resposta sintetizadora.
Esta busca para a fonte das ideias universais, dos conhecimentos intelectuais, que são as próprias estruturas formais das coisas com as quais nos deparamos (species), levou alguns filósofos a propor que estas ideias, formas ou espécies chegam até o nosso intelecto por meio de fontes separadas de informação, ou seja, por alguma fonte que existisse independentemente das coisas mesmas, da realidade criada concreta que nos cerca, e nos ensinaria a conhecê-las universalmente, abstratamente. A questão, como já vimos nos textos anteriores, é tentar superar a aparente contradição entre o fato de que o mundo é composto de coisas individuais, concretas, históricas e limitadas, e o conhecimento intelectual parece ser composto de informações universais, abstratas, atemporais e imperecíveis. Há, então, basicamente dois modelos para explicar este salto intelectual que o nosso intelecto faz, da ignorância para o conhecimento, do singular para o universal, do concreto para o abstrato: o modelo platônico e o modelo de Avicena.
O modelo platônico. As ideias separadas.
Platão se sentiu muito interpelado pelo fato de que há muitos seres humanos diferentes, mas com a mesma estrutura corporal e psicológica, capaz de unificar toda a espécie humana; o mesmo com os animais, as plantas e os minerais: muitos indivíduos com a mesma estrutura formal, mas individualizados pela matéria. Assim, ele propôs que a matéria seria um princípio de individualização, mas que as formas é que dão inteligibilidade às coisas; quer dizer, as coisas são o que são, são inteligíveis, por causa de sua forma. Assim, ele supõe que as formas existem por si mesmas, de um modo mais real do que existem nos indivíduos.
Assim, Platão ensina que, nesse reino separado das ideias (ou das formas) existiria a ideia de ser humano em si, não individualizado pela matéria; para explicar que podemos reconhecer, por exemplo, tantas raças de cães como sendo da mesma espécie, ele propõe que existe a ideia de “cão em si”, ou a ideia do “cavalo em si”, que existiriam nesse reino sem matéria, e que, impressas na matéria, dariam origem ao nosso mundo material. As coisas individuais seriam como “participações”, ou seja, mais ou menos como a imagem do carimbo fica impressa em diversas folhas de papel. Assim, nosso intelecto, para ter conhecimento material, recebeu diretamente estas “ideias” ainda antes de nascer, de tal modo que nascemos já sabendo de todas as ideias. O nosso corpo material, no entanto, impede que possamos caminhar livremente no mundo das ideias, porque nos prende aqui, neste reino material das individualidades e, portanto, nos impede de lembrar de tudo o que já sabíamos antes de nascer. Assim, para Platão, as ideias existem em nosso mundo de duas maneiras: como participações impressas nas coisas individuais e como memórias escondidas em nossa mente encarnada. Deste modo, conhecer seria simplesmente lembrar do mundo das ideias, formas ou species que já está impresso em nossa mente. Todo conhecimento intelectual adviria a nós diretamente do mundo das ideias, das formas universais separadas, acreditava Platão.
O modelo de Avicena. O intelecto agente separado.
Propor que exista um “mundo separado das ideias” foi um passo interessante, dado por Platão, porque permitiu constatar que a inteligibilidade das coisas não pode ser um atributo material delas. Mas a proposição de um mundo separado, de ideias ou formas flutuando por aí, ou a proposição de que o nosso mundo material é só uma sombra imperfeita de um mundo espiritual separado, é algo que incide em tantas contradições e problemas, que foram abundantemente denunciados desde Aristóteles até hoje, que não pode mais ser defendido.
Por causa disto, e ainda precisando resolver a questão do conhecimento intelectual humano, Avicena rejeitou a posição de Platão, mas propôs um sistema que pretendia explicar nossa capacidade de aprender e saber intelectualmente por maio de um intelecto separado, ativo (ou agente), que não seria individual, mas comum a toda a humanidade. Isto, para ele, resolveria o problema de explicar como podemos conhecer as coisas sob um ponto de vista universal e abstrato, e como podemos partilhar a mesma ciência, objetivamente, por todos os intelectos. Explicaria, também, como podemos transmitir conhecimentos, em suma, resolveria toda a questão da objetividade da ciência.
Para Avicena, as formas ou ideias subsistem num grande intelecto separado, que as pensa de maneira completa e uniforme, independentemente da existência material das coisas. Este intelecto é capaz de comunicar seu conhecimento objetivo, completo e abstrato, imperecível e atemporal, pelos intelectos inferiores, de tal modo que eles os transmitam aos ainda inferiores, até que estes conhecimentos atinjam o que Avicena chamava de “intelecto ativo” ou “intelecto agente”, que poderia ser compartilhado indiferentemente por toda a humanidade. Este grande intelecto agente daria origem a todas as coisas materiais que existem, ou seja, ele seria o responsável por dar forma à matéria, transmitindo a todas as coisas a inteligibilidade que têm e possibilitando a ciência sobre elas.
Além disso, este “intelecto agente”, portador do conhecimento divino, seria capaz de transmitir este conhecimento para o nosso intelecto humano individual, que ele chamava de “intelecto receptivo”, ou “intelecto possível”, ou ainda “intelecto passivo”. O intelecto agente seria, assim, o responsável pela inteligibilidade do mundo e por toda a ciência, todo o conhecimento intelectual que temos sobre o mundo.
3. Encerrando.
Como vimos, Platão influenciou Avicena, e seus sistemas têm muitos pontos em comum e muitos pontos diferentes. Estes traços comuns, os traços diferentes, sua limitação e seus equívocos serão estudados por nós no próximo texto; ali, estudaremos, também, as razões pelas quais Tomás considera que estas propostas não podem ser admitidas, e qual é a posição do próprio Tomás.
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